Muito ajuda quem não atrapalha

No Brasil, o Orkut e a proliferação de lan houses foram responsáveis pela popularização da internet. O primeiro, iniciativa de uma mente brilhante dentro de uma gigante multinacional. Os segundos, micronegócios tocados por brasileiros empreendedores, com poucos recursos, muito suor e nenhum apoio.

Antes disso, enquanto o governo proibia a importação de equipamentos de informática, pioneiros se reuniam em grupos, montavam suas próprias máquinas com peças contrabandeadas e criavam os primeiros BBS, núcleos de comunicação em rede.

Como brasileiros, entendemos muito bem o papel do Estado no que diz respeito a tecnologia, conhecimento e comunicação: ele muito ajuda se não atrapalhar. O problema é que se torna irresistível meter o bedelho em tema tão quente e popular quanto a internet e todo seu ecossistema. E bedelho do Estado tem, invariavelmente, uma leitura: complicação, desinformação, atraso.

E isso por aqui, onde nossa cultura aceita, cultura e espera do Estado uma atuação, forte, presente, paterna. E isso por aqui, onde coexistem aqueles que acreditam nas oportunidades de empreender – da barraquinha de churros à empresa de tecnologia – com aqueles que se empenham em conquistar uma vaga no serviço público, em busca da estabilidade que ele garante.

Imagine, então, como o povo norte-americano está reagindo ao afronte da vez chamado Stop Online Piracy Act, na sigla pronta para trocadilhos, SOPA. A lei, se aprovada, matará a internet como a conhecemos, mesmo sendo um bedelho americano em solo americano.

Já dizia minha avó: “Em cozinha em que muita gente mete a mão, a sopa desanda.” E vai desandar para todo mundo porque o projeto de lei pode tornar inviável qualquer espaço digital aberto à produção de conteúdo por nós, usuários, muitos desses mantidos por empresas norte-americanas. Gmail, Picasa, Flickr, YouTube, Facebook… qualquer desses sites pode, na visão do texto da lei, ser acessado por americanos e usado para roubo de propriedade intelectual norte-americana. Isso inclui a postagem, sei lá, da senha de acesso ao Pentágono ou a simples publicação do vídeo da festa de aniversário de seu filho, repleto de imagens de isopor do Pato Donald, numa grave ofensa aos direitos autorais da Disney.

Além de permitir ao governo censurar todo e qualquer site, a lei ainda facilitará que os donos de direitos autorais punam financeiramente sites e usuários, sem muito espaço para defesa.

Não quero entrar aqui na discussão-anos-90 sobre Propriedade Intelectual, Creative Commons, Anarquia e afins. Mas há uma diferença enorme entre você se filmar cantando uma música de Glee e você vender um DVD de Tropa de Elite no camelô.

Na visão da Lei, é tudo igual. E uma lei que seja aprovada nos EUA – especialmente se nossos parlamentares virem nisso uma forma de engordar o caixa governamental e, por tabela, suas emendas ao Orçamento -, tem meio caminho andado para desembarcar por aqui. Não será novidade, pois temos um projeto de teor similar, que circula desde 1999, de autoria de Luiz Piauhylino (PSDB/PE), e ressuscitad o dez anos depoispelo também deputado Eduardo Azeredo (PSDB/MG). Pergunto, qual a chance de um texto legal sobre internet, que ganha emendas, ajustes e revisões há 13 anos, ser compatível com a realidade dos fatos? Ser de fato útil à sociedade?

Nessas horas, a cultura pop é sempre um alento.  Lembro da cena de Guerra nas Estrelas quando o Senador Palpatine transformou a república galática em Império, em nome de uma suposta luta contra ameaças a segurança de todos. Padmé Amidala, mãe de Luke Skywalker, então jovem moçoila e também senadora, desabafou com a frase clássica: “Então é assim que morre a liberdade: com uma clamorosa salva de palmas.”

É o que a classe política vem tentando fazer mundo afora. Parece que aos políticos, no fim das contas, a liberdade é uma aterrorizante e nefasta aberração.

 

Publicado originalmente no Techtudo, em 18/01/2012.

Chuva na Tailândia prejudica festa do Pedrinho

A gente só se dá conta da globalização quando ela dá errado. Foi o que pudemos ver quando uma enchente de grandes proporções na Tailândia alagou casas, escritórios, empresas e as principais fábricas de discos rígidos do planeta.

Com a chuva, provocada pelo período de monções mais intensos dos últimos 50 anos, as exportações de HDs pelo país já caíram mais de 20%. Em diversos mercados pelo mundo, já se sente um encarecimento no custo dos computadores e a alta pode persistir até o segundo semestre de 2012. Segundo Loren Loverde, Vice Presidente da empresa de consultoria IDC, crises no fornecimento de componentes não são novidade para a indústria de fabricação de PCs, mas uma falta de hard disks será um choque, já que a Tailândia responde por quase 45% de todo o mercado, com empresas do porte da Seagate e Western Digital.

Aumento de preço é sempre ruim, claro, mas para nossas necessidades cotidianas, o máximo que pode acontecer é postergarmos um pouco a compra daquele HD externo de 2 TB. Imagine o impacto do encarecimento ou, pior, do total desaparecimento dos HDs para as gigantes da Web, cada vez mais mergulhadas de cabeça na oferta de soluções baseadas em hospedagem de dados e de aplicações online, o cloud computing.

Amazon, Google, Apple, todas apostam nisso, sugando e armazenando milhões de megabytes de fotos, músicas, planilhas, receitas de bolo e vídeos. Sem discos para suprir a insaciável demanda por hospedagem, as gigantes ficariam numa baita encruzilhada, que poderia derrubar suas ações nas bolsas de valores e iniciar uma grave crise de confiança do mercado aos cada vez mais prevalentes modelos baseados na Nuvem. Tudo isso porque outras nuvens carregadas fizeram chover além da conta na Tailândia.

O bad block global ainda não aconteceu, mas a simples possibilidade me fez pensar que não estamos tratando o conteúdo digital com o devido respeito no que tange ao uso racional de recursos. Temos para nós que o espaço na Nuvem é infinito e a cada dia mais barato.

O Chris Anderson, editor executivo da fantástica revista Wired, baseou seu best-seller “A Cauda Longa” em algumas premissas, sendo uma delas justamente a de que o preço do megabyte tende a zero. E zilhões de planos de negócio e palestras repetiram e se basearam nesse conceito. Faltou combinar com os russos, japoneses, chineses, tailandeses e com São Pedro.

“E se estiver tudo errado?” é um péssimo pensamento para se ter quando você está no meio de uma empreitada, como pular de paraquedas, por exemplo, mas é melhor refletir sobre o tema agora do que depois que a História responder por nós. Fato é que essa cultura do megabyte infinito está por toda parte, até mesmo em salões de festas infantis, onde pais babões registram seus pimpolhos em câmeras digitais a 14 megapixels quando 2 megapixels seriam totalmente necessários para dar o devido brilho às fotos tremidas e sem foco de crianças correndo em círculos.

Uma foto de 2 megapixels possui resolução de 1600 x 1200 pontos, o suficiente para imprimir em 10×15 (o tamanho padrão de fotos) e para exibição em telas de alta definição. E tudo isso em 0,9 Mb por foto.

Com 14 megapixels, a mesma imagem teria 4320 x 3240 pontos e ocuparia 2,7 Mb, ou três vezes mais em JPG com 100% de compressão. Dá para imprimir um pôster de 73×55 cm, coisa que nem eu nem você fazemos toda semana.

Esses 2,7 Mb ficam no cartão de memória, no HD do laptop, no HD externo de backup e na Nuvem, no serviço de álbuns online do cidadão, e em seu perfil no Facebook. Em cada um deles, há ainda réplicas de backup. Ou seja, cada foto de seu filho ocupa pelo menos 7 vezes o tamanho do arquivo, isso para ser conservador. Nessa conta, cada foto de seu pimpolho ocupa 19Mb espalhados pelo mundo. Uma festinha básica, com Bob Esponja, bolo e 100 fotos, ocupam 1,9 Gb por aí.

E por mais que os discos sejam cada vez mais potentes e velozes, eles continuam sendo construídos com minérios raros e recursos naturais, demandam energia elétrica e emitem calor (ok, isso algumas tecnologias já superaram).

Sozinhos, os data centers do Google consomem 260 milhões de Watts, mais ou menos um quarto da produção de uma usina nuclear e suficiente para iluminar 200.000 residências e um pouco menos de casas de festas infantis. Essa energia vem do acesso a dados, desde fotos a vídeos do YouTube, passando pela fatia importante consumida por cada busca realizada. Em 2010, o Google emitiu 1,5 milhão de toneladas cúbicas de carbono, isso porque 25% de sua energia já vem de fontes renováveis, como usinas eólicas.

Some a isso o consumo das demais gigantes, das empresas de backup online e etc e temos um lado negro, global e esfumaçado do mundo digital. Em última instância, o mundo pode sobreviver à Guerra Fria e acabar com o excesso de festas infantis e tios com câmeras potentes. Com ou sem chuva na Tailândia.

Publicado originalmente no Techtudo, em 18/11/2011.

Murais: retalhos que não viram colchas

Sempre que algum projeto inovador surge e toma a dianteira do mercado de forma inegável, suas características mais marcantes deixam de ser um retrato do que pensam seus criadores/executivos para ser uma verdade absoluta, um modelo a ser seguido ao pé da letra por quem quiser triunfar no mercado.

Foi assim com o navegador Netscape, com os maiores sucessos da Apple, com o Yahoo!, com o Google e também com oFacebook. E é o mural sua característica mais forte, e a área que ocupa a maior parte da tela e do tempo de quem entra no site. O mural, assim como a timeline do Twitter, é o espaço onde os fragmentos de informação de cada membro da rede social se juntam.

Isso é a magia da rede social e – como o recurso é cada vez mais copiado – das redes sociais em geral. Mas é também seu grande ponto fraco. Ao se reunirem na tela por critérios diversos, como cronológicos, popularidade ou relevância, os fragmentos continuam sendo apenas isso. Pedaços. O mural não é nem uma colcha de retalhos, é uma cesta cheia deles, esperando para serem costurados. Ou não.

Já se falou muito sobre isso, e longe de mim vir aqui atacar de crítico da comunicação digital, mas ao contrário de fóruns, de alguns blogs, das antigas comunidades do Orkut ou outros ambientes digitais que permitem uma troca constante de informações entre um grupo restrito de pessoas, o formato mural não permite que se construa uma ideia sobre pensamentos de outros de forma simples e natural.

É difícil dar sequencia a um pensamento sobre uma ideia postada por alguem quando, segundos depois, você é bombardeado por setas dizendo que  a pessoa acima jamais fez alguma coisa ou um vídeo com uma repórter de TV sendo expulsa do ar por um bando de idiotas.

Ao contrário dos fóruns, dos antigos BBS ou outros temas onde fugir da pauta era considerado fazer um “off-topic” (literalmente, “fora do tópico”), o mural é essencialmente uma coleção de off-topics.

É claro que muitas coisas bacanas são criadas o tempo todo no Twitter ou no Facebook, mas, especialmente neste último, a mecânica da rede dificulta isso. Como cada vez dedicamos mais tempo a este formato de rede social, que se tornou uma verdade absoluta, o resultado é preocupante para quem defende e acredita que as redes sociais podem ser fundamentais para a consolidação de uma cultura de colaboração, participação e igualdade.

O modelo mural é rico para a disseminação de informações, de bandeiras ideológicas, para convocar adeptos a campanhas, abaixo assinados e ações populares em geral, mas é fraco e inadequado para a construção do conhecimento, autoria coletiva e a construção de fragmentos inacabados de ideias ou conteúdos que em si não tem vida, mas que estão apenas esperando a outra ideia que os completarão em algo inovador.

Mas cada vez mais o Facebook (liderando um batalhão de clones ou outras redes igualmente inovadoras mas que se renderam ao apelo do líder) se vende e é entendido como Uma Rede Para Todos Governar, o que é uma falácia. O Facebook é uma fantástica ferramenta de entretenimento, mas não pode substituir todas as outras ferramentas. Ele pode até se prestar a conteúdos mais aprofundados, mas não é feito para isso. Entretenimento é ótimo, sou, como usuário, apaixonado pelo Facebook, mas diversão não é tudo. A gente também quer comida, arte, fazer amor. Ele é fantástico naquilo a que se destina. O problema somos nós, que teimamos em ver nele a solução para todos os nossos problemas e a cura para a espinhela caída.

O mural é feito para se assistir tentando acompanhar a velocidade das letras, como créditos finais de filmes, só que interessantes e divertidos. Murais são passatempos. Com as mudanças na interface, pode-se apenas sentar em frente à tela e assistir ao vivo à vida e ideias de sua rede de contatos. Como no Twitter. O formato mural permite que sejamos para a internet o que os americanos chamam de couch potato, uma batata de sofá, inerte em frente à tela. Podemos ficar horas consumindo conteúdo e, ao final, não nos lembrarmos de nenhuma informação em especial.

Existe, sim, como criar e consumir conteúdo de forma mais organizada e integrada. As ferramentas para isso estão em todo lugar: hashtags no Twitter, grupos no Facebook e LinkedIn, comunidades no Orkut, fóruns e wikis. O problema é que, para chegar lá, é preciso passar por um buraco negro de tempo e atenção chamado mural. A lâmpada brilhante, divertida e atraente que nós, insetos, aprendemos a amar.

Publicado originalmente no Techtudo, em 01/11/2011.

O Evangelho Segundo Jobs: Tesão, Paixão e Fé

Deve ter sido porque eu acreditei no roteiro de “Piratas do Vale do Silício”. Ou porque sua participação em projetos ligados a cura de diversas doenças tenha colocado sua contribuição ao Planeta numa esfera mais palpável e humana. Fato é que tenho muito mais simpatia pela figura de Bill Gates do que pela de Steve Jobs.

Mas Jobs é um cara que alcançou aquilo que mais admiro numa pessoa: viveu conforme suas crenças e deixou um legado que durará por muitos anos. Aposentado, lutando contra uma saúde visivelmente precária, ele certamente pode afirmar que “combateu o bom combate”. Pelo menos segundo seu credo. Jobs revolucionou o mundo que mais me atrai, o da tecnologia. De certa forma, revolucionou meu mundo, sim. Nem que seja ao levar outras empresas a fazer coisas melhores do que seus produtos – mas que não existiriam se não fosse por ele.

Jobs é tudo o que falam dele. Mas Jobs não é Deus, como muitos parecem crer. Porque apesar de seus seguidores evangelistas, não vejo ele como um cara estruturado somente na fé. Jobs é brilhante porque reúne em uma só pessoa três tipos de empreendedores de sucesso: o movido pelo tesão, o movido pela paixão e o movido pela fé.

O empreendedor em série é um típico representante dos movidos pelo tesão. É uma coisa de carne. Sua energia está nos hormônios. É o cara que tem prazer no fechar de um negócio. Na identificação de uma oportunidade. “No Gol”. Conheço vários caras fantásticos com esse perfil. Empreendem em tecnologia, artes e boi gordo com a mesma dedicação, empenho e energia. E farejam o sucesso em qualquer dessas frentes. O tesão é, acredito, uma característica que distingue os profissionais bem-sucedidos dos caras podres de rico.

É como diz o incrível mestre Silvio Santos – “depois de certa faixa, depois de garantir o conforto necessário, dinheiro é apenas troféu. Ter muito dinheiro é ter muitos troféus, que atestam que você foi bem-sucedido no que fez”. O tesão busca esses troféus. Jobs tem tesão. Os investidores tem tesão. Eike Batista tem esse tesão. Steve Woz, o parceiro e cérebro por trás do nascimento da Apple, não tinha tesão. Tinha fé. E traçou um rumo completamente diferente para sua carreira.

A paixão é o elemento mais fácil de se encontrar, mas não menos valioso. Paixão pelo negócio. É o empreendedor da indústria têxtil que pode passar horas na fábrica após o expediente sentindo o cheiro dos tecidos. É o que eu, estagiário, sentia ao entrar na gráfica do Jornal do Brasil. Paixão por aquele cheiro de tinta e papel.

A paixão – cega como sua irmã amorosa -, é o que move o empreendedor que inventa seu mundo, seu país, sua bandeira. É o cara patriota não por um país, mas por sua criação. Paixão de Larry Page e Sergey Brin. Paixão e tesão de Bill Gates. Paixão de tantos outros empresários.

A fé você não encontra tanto na Forbes, na Fortune ou na FastCompany. Fé é o que você encontra nas páginas da Wired. A fé move montanhas, mas não tem o mesmo efeito sobre montanhas de dinheiro andando para contas bancárias. Tim Berners-Lee é movido pela fé. O guru do software livre Richard Stallman também.

A fé leva pessoas brilhantes a cruzadas. A desafiar opiniões. A ignorar conselhos. A criar religiões em torno do que fazem. “Organizar todo a informação do mundo”, lema do Google, não é só uma missão/visão corporativa, é um credo.

Steven Johnson, no livro “De onde vem as boas ideias?” (falei sobre o livro aqui), demonstra como a maioria das grandes invenções vieram de setores não motivados pelo dinheiro em si. Vieram de ecossistemas onde a ideia fluía livremente, porque seus autores não estavam cegos pela paixão a uma invenção, nem guiados pelo tesão de fazê-la virar dinheiro. Estavam motivados pela fé de que aquilo poderia ser algo grande. Nem que para isso fosse preciso abrir mão dos próprios filhos. O cara guiado por essa fé é guiado por seus mandamentos pessoais, e sonha em ver sua utopia realizada.

Steve Jobs conduziu a Apple e tudo o que fez guiado por essas três forças. O tesão que o levou a ser dono da empresa aberta mais valiosa do mundo; a paixão pelo design que o tornou obcecado por seu padrão de qualidade; e a fé que construiu uma religião em torno de produtos que nem sempre foram pioneiros, não necessariamente são os melhores, e que padecem dos defeitos, vícios e contradições de qualquer produto tecnológico moderno.

Jobs – como Gates, Silvio Santos e outros – são MBAs humanos prontos a serem estudados. No caso dele, aprendemos que três forças juntas podem fazer uma empreitada de sucesso. No caso de nós mortais, isso é trabalho para um time inteiro. Ao que parece, Jobs dá conta disso sozinho.

Post publicado originalmente no Blog Internet do Techtudo

Inovação não se fabrica com cimento

Dia desses um impasse entre governo e oposição colocou os Estados Unidos à beira de um colapso. Sem a aprovação do orçamento para o ano fiscal, não restaria outra alternativa a não ser fechar o governo por tempo indeterminando. Isso significaria paralizar museus, parques, órgãos federais e deixar 800 mil pessoas sem salário. Num país onde dependemos intensamente das tetas mãos do Governo, é algo impensável para nós, mas mesmo nos EUA a situação ficou bastante tensa.

No fim das contas eles se entederam e a vida continuou. Mas o que chamou minha atenção foi o discurso de Barack Obama às vésperas do acordo. Ao ressaltar a importância de não se paralizar o governo, ele citou a recente recuperação econômica (medida por ele pela geração de vagas de trabalho) e listou as principais frentes de investimento do governo.

No fim do discurso, Obama destaca as importantes frentes de investimento para garantir a competitividade dos EUA no longo prazo. Na ordem, Educação e Inovação.

Inovação em si é uma palavra vazia – já foi usada para muita coisa e muitos contextos. Mas ela faz um par perfeito com educação e deve ser reconfortante para os americanos que elas sejam as prioridades de investimentos federais.

A revista Época fez um levantamento dos discursos de Dilma e Lula em seus 100 primeiros dias de governo (veja aqui). Dilma citou a palavra Educação 29 vezes. A revista não chegou a contabilizar as menções a “inovação”. No mesmo período, Dilma falou 58 “povo”, 55 “querido”, 51 “Argentina”, 62 “Nordeste” e 50 “Lula”. Difícil ser otimista assim.

Difícil ser otimista quando nossas autoridades parecem realmente acreditar – ou querem que nós acreditemos – que o futuro do Brasil depende de fazer licitações para empreiteiras. Resta cada um fazer o que nos cabe como cidadãos – valorizar, como consumidores, aquilo que for inovador e sustentável; assumir os riscos de empreender e, ao empreender, acreditar que podemos fazer coisas novas, coisas nossas, e não apenas seguir benchmarks como se fossem receita de bolo.

No que diz respeito aos governantes, fico com o bordão que o Casseta & Planeta criou para sua versão do presidente Fernando Henrique Cardoso: “Assim não pode, assim não dá”.

De onde vem as boas ideias?

Dia desses terminei a leitura de “Where good ideas come from (De onde vem as boas ideias?)”, bom livro de Steven Johnson, que segue a estrutura de reportagens da Wired esticadas até preencher o livro inteiro.

Nesse caso, há uma boa desculpa: o autor fez um trabalho de pesquisa muito detalhado e amplo, recheando o livro com várias autópsias de processos criativos clássicos, muitas referências e um mapeamento das principais invenções das últimas centenas de anos.

É um estudo sobre o processo de inovação, desde como as grandes ideias se formam em nossa cabeça – derrubando o mito do “momento eureka” do cientista solitário – até como devem ser os ecossistemas sociais que vão gerar mais inovação.

O livro prova o que o senso comum atual já visualiza como verdade: as ideias não nascem, são construídas na base de reciclagem de ideias anteriores, de fragmentos culturais e sociais. São basicamente o que a gente chama aqui de “ligar lé com crê”. Como “lé” e “cré” estão disponíveis para todos que convivem em um mesmo ambiente, é por isso que tantas vezes você se vangloria de uma sacada inovadora só para descobrir que outra pessoa acabou de ter a mesma ideia em outro canto do planeta.

E também mostra como os ambientes mais caóticos, que permitam a troca de experiências entre pessoas de diferentes focos, passados e objetivos, são férteis à inovação, por permitir que conceitos migrem de um universo para outro.

É a vitória do Princípio Gambiarra. Da bricolagem de ideias. Do foco em observar as oportunidades que estão quicando ao nosso redor.

A leitura me trouxe mais do que o conteúdo em si. “Where good ideas como from” foi o primeiro livro que li integralmente no meu tablet, usando o Kindle. É sem dúvida uma fantástica plataforma para leitura. Li fazendo marcações (notas e highlights). Nem todo mundo sabe, mas você pode acessar suas marcações nos livros lidos via Kindle de qualquer computador, bastando acessar o site da Amazon. Fiz isso e depois foi copiar e colar tudo no meu Evernote. Ou seja: posso compartilhar com outros equipamentos ou pessoas minhas observações e marcações aos livros em tempo quase real. E mais: é possível saber o quanto sou previsível, comparando minhas marcações com as feitas pelos outros leitores. É uma experiência de leitura absolutamente nova, social e multiplataforma.

Com a leitura se dando na nuvem, não importa se um um tablet maçã ou robô, Mac ou PC, de casa ou do trabalho, posso preservar os pontos que acho mais bacanas, e rapidamente misturar, catalogar ou criar em cima dessas observações. E posso compartilhar, tornando a leitura um ato coletivo. Se Steven Johnson fizer uma segunda edição de seu livro, ele bem que poderia analisar como sua própria leitura em ambientes digitais é um impulso à inovação.

Steven Jonhson apresenta e resume o livro nesta palestra no TED:


Cuidado com as pequenas coisas (e esqueça as coisas pequenas)

Eu me considero bem-sucedido profissionalmente, tenho minhas contribuições à internet brasileira, dou aulas e palestras, mas nada disso significa coisa alguma para os visitantes que insistem em me acordar quase toda noite no exato momento da transição entre o estágio conhecido cientificamente como “soninho gostoso” e o de “relaxamento completo”.

Pernilongos são pequenos seres. Num texto do tamanho desse que você lê, um pernilongo não daria nem uma vírgula. Ainda assim, eles são responsáveis pela minha mais recente prática esportiva, a Caça a Mosquitos na Madrugada, modalidade Raquete Elétrica 110V. Inclusive, a raquete elétrica é uma das mais sádicas e incríveis invenções humanas. Ela não só torna a chacina de insetos uma atividade lúdica, como apresenta efeitos especiais – faíscas, estalos elétricos e um dispensável cheiro de churrasco de aedes aegypt.

Bom, essa longa introdução é basicamente para lembrar que pequenas coisas podem causar grandes perturbações. Assim também é nas relações humanas e profissionais. Defendo que as empresas tenham cargos como o Gerente de Pequenas Coisas (mas jamais um Gerente de Coisas Pequenas, esse é puro atraso de vida). As Pequenas Coisas são aquelas as quais geralmente não dedicamos a menor atenção, mas podem ser a diferença entre um projeto 100% e um “legal, mas…”. Ou a sutil separação entre o mediano e o único, inesquecível.

Se a pequena coisa é a cereja, é ela que torna um bolo com cereja diferente dos outros cem bolos sem cereja. E se mil cerejas não fazem um bolo, mil bolos sem cereja continuarão sendo mil bolos totalmente esquecíveis.

Muitas vezes a relação cliente x fornecedor é minada exatamente por esses pequenos pernilongos diários. E quando a paciência acaba, quem leva a raquetada elétrica é você, não o mosquito. Até porque é difícil mapear e mensurar o efeito da pequena coisa. Ela é a rosa no cabelo (e não o cabelo). É o feijão no dente, mas não o dente.

No seu próximo projeto, trabalho, ideia, criação, dedique um tempinho a avaliar e aparar as pequenas coisas. Eliminar os pernilongos e caprichar nas cerejas e rosas. Sobre as coisas pequenas, recorro ao simpático Professor Hermógenes e sua filosofia de vida resumida em duas regras básicas:

1) Nunca se aborreça com ninharias

2) Tudo é ninharia.

Mini-conto: O futuro da espécie

Foi revelado a ele todo o futuro de nossa espécie, todas as próximas conquistas, catástrofes, nossa evolução e nosso inevitável fim.

“Hmmm… ok. E o resto?”

“Não tem resto. É isso.”

“Hmmm… só isso?”

“Sim. Só isso.”

“Então tá.”

“Alguma outra pergunta?”

“Não… tipo… não rola aquelas coisas…”

“Não.”

“Nem eventos do tipo…”

“Nana…”

“ou invenções como aquela…”

“Neca.”

“Hmmm…”

“Posso ir?”

“Tá. Ok então. Obrigado por mostrar”.

“De nada. Adeus.”

Então ele se viu de volta a seu quarto, colocou a mochila nas costas e correu para pegar o ônibus, pois estava atrasado para o trabalho.

Qual o futuro da internet?

Quase sempre que alguém me entrevista sobre redes sociais há uma pergunta recorrente. Deve ser o equivalente a perguntar ao jogador de futebol após uma vitória se o resultado foi positivo. E a pergunta é: “Qual o futuro da internet?”

Adianto então a resposta. E ela é simples. Não chega à mágica simplicidade do “42”, a resposta para A Vida, o Universo e Tudo o Mais, mas é quase. Tem duas palavras apenas:

“Ninguém sabe”.

Poucas coisas são mais imprevisíveis do que tecnologia. Ou melhor, do que a gente é capaz de fazer com novas tecnologias.

É como se a tecnologia quisesse seguir sempre em frente, mas a gente pega aquele trilho e faz um desvio nele. A partir daí, tudo se reconfigura para seguir em frente a partir do desvio. Até a gente fazer um puxadinho pra outro lado.
Um monte de coisas vai moldar esse futuro. Listo algumas:

1) Qual será o dispositivo? Vamos interagir com os outros e com o conteúdo pela TV? Pelo celular? Torradeira? Computador? A Web está morta, como cogita a Wired?

2) O que vai colar? E o que não vai? O Orkut não foi feito, ele aconteceu. Idem para o Twitter. Na outra ponta, Foursquare e Chatroulette não vingaram como prometiam. Discutir ferramentas me desinteressa profundamente, mas elas são, não posso negar, parte da equação.

3) Teremos tempo e dinheiro para brincar? Brincar é o primeiro passo. Perder tempo, bater papo, namorar digitalmente, comprar uma coisa ou outra. Pelo que mostra nosso comportamento digital, definitivamente os humanos não vieram ao mundo a trabalho.

4) E a inclusão? A internet se populariza no Brasil com velocidade assustadora, mas ainda não chega de forma rotineira nem à metade da população. E seu principal carro-chefe, o Orkut, já não cresce. Teremos alcançando o teto de alcance e interesse que essa web atual oferece a nosso povo?

5) E a grande mídia? Desprezar o poder de uma mídia que chega a 95% dos lares brasileiros, como a TV, é doideira. Que modas ela vai abraçar? Quem será o novo Twitter a ganhar capas e capas de revistas? Vale lembrar que os grandes saltos da web se deram quando ela soube cooptar o mainstream e usar a mídia de massa, monolítica e desajeitada, a seu favor. Ou vice-versa.

6) E o dinheiro? Conseguiremos juntar a inevitável digitalização de tudo a modelos de negócio que funcionem? A internet é fruto da árvore capitalista. Se, no fim, a coisa não der dinheiro, não haverá pesquisa nem inovação. E se o Google for dividido em vários por ter se tornado um monopólio global? E se surgir um novo Google? E se Steve Jobs reinventar a roda de novo (leia-se, lançar algo que já existe, só que banhado numa aura cool e com pitadas de genialidade)?

7) E você? O que você vai fazer? Continuará sendo os 80% que só consomem? Resquícios de nosso papel social de “audiência” ou vai criar algo? O que você vai criar? O que você fizer é o que o mundo digital será.

O que você acha?

Cadê o idioma que estava aqui?

Fui convidado para participar de um debate na Bienal do Livro de São Paulo. Grande honra. O tema é a linguagem dos jovens, das gerações Y, Z, X, cima, cima, baixo, baixo, B A start. <sarcasmo>Tema super tranqüilo</sarcarmo>.

Não sou filólogo, nem professor de Língua Portuguesa. Confesso que, tirando o pobre do trema e do acento da ideia, mal incorporei esta nova reforma ortográfica. Para todos os efeitos me tornei aqueles velhinhos que ainda escreviam farmácia com “ph”.

Mas posso falar tanto pela ótica de quem acompanha os movimentos e os efeitos da tecnologia quanto pela ótica de quem mudou também. Não escrevo da mesma forma. Em nenhum prisma.

Primeiro, a relação com a escrita digital é diferente de escrever à mão. Mal reconheço minha própria letra. A caneta me parece um objeto meio exótico, o pulso dói (esse acento caiu?) se preciso escrever um texto longo na munheca. E, por ser digital, tenho essa relação diferente com a estética do texto. Tenho o direito de desistir, apagar e começar de novo. Posso mover os blocos de texto como se o texto fosse um brinquedo feito de legos.

E quando vou para redes sociais, o texto deixa de ser objetivo para ser meio. Em primeiro lugar, há a função prática, que ganha peso. O texto é funcional. “Entendeu? Então tá valendo.” Dai da p abreviar pq assim funfa mais rapido e vc entende da msma maneira. Da pra escrever + rapido, os acentos nao fazem mta falta e o importante aki eh se fazer entender. O problema é quando a garotada esquece que o texto acima “tá valendo” quando o objetivo é meramente se fazer entender.

É como se as gerações anteriores tivessem se apaixonado por telegramas fonados ou por rádio-amador e passassem a falar nas línguas dessas ferramentas em todas as situações.

Já pensou? #corrão!

E tem essa outra função. As redes sociais são tribais. Adolescentes são tribais. Nós somos tribais. Precisamos de formas de mostrar que estamos unidos. A linguagem cumpre esse papel. Criamos jargões, neologismos, palavras, símbolos. Já me peguei usando hashtags, emoticons e afins em e-mails e outras formas de comunicação.

Já não se escreve como antigamente? Certamente não. Folheie a revista Wired e você verá como o texto hoje se escreve com gráficos, com setas, com caixas, com hipertextos, links e inúmeras formas que amadureceram sendo usadas “erradamente” na web.