Ciborgues em rede – as redes sociais e o mito do homem-máquina

fevereiro 8th, 2010

Lá está ela sobre a mesa, o encarando. Branca, pálida, com enunciados que zombam de você. Eles sabem a verdade. Sabem que você não sabe o que eles sabem. No caso, eles sabem a resposta, e você não. A professora caminha por entre as fileiras de carteiras de madeira, seus colegas concentrados, o barulho do grafite rascunhando somas, multiplicações, divisões. E os enunciados das questões zombando de você.

Você trava. “Quanto é 8 vezes 7?”. A resposta não vem. Você repassa mentalmente a tabuada, mas se perde antes de chegar lá. A professora passa por você. Desta vez, o cálculo vem rápido: “faltam umas cinco carteiras até ela se virar novamente. Dá tempo.” Você força o lápis contra a mesa. A ponta se quebra. Então, discretamente leva os dedos até o estojo. Puxa o zíper com cuidado para não fazer qualquer barulho. Enquanto os dedos tateiam sem pressa pelo apontador, os olhos vasculham o interior do estojo, em busca do lápis-tabuada. Lá está a resposta. Você aponta seu lápis e escreve “56” na prova.

Quase todo mundo já recorreu aos préstimos do lápis-tabuada, ou do colega da carteira da frente. O que fizemos, nessas situações, foi recorrer a uma ferramenta externa – o lápis ou os neurônios do colega – para ampliar nossos sentidos, nossas habilidades ou capacidades físicas.

Macacos e humanos possuem cérebros mais desenvolvidos que a maioria dos seres vivos. Some o cérebro a polegares opositores e você tem espécies animais plenamente adaptadas à invenção e ao uso de ferramentas. O monolito de 2001 – Uma Odisséia no Espaço, que motiva os saltos evolutivos, faz com que o neanderthal perceba que ossos de mamute podem dar excelentes porretes e, com isso, ele ganha vantagem na luta pela sobrevivência. O lápis-tabuada, no dia da prova de matemática, cumpriu exatamente o papel do osso pré-histórico em 2001. A diferença é que você não precisou golpear a professora com o lápis até ela te dar uma nota 10.

Costumamos associar tecnologia a coisas que piscam, têm fios e custam caro. Na prática, quaisquer ferramentas que ampliam nossos sentidos e capacidades – de ossos de mamute a iPhones – são tecnologias. E quando a tecnologia e a ferramenta se tornam tão íntimas de nós, tão ligadas a nossos cérebros, ela se torna parte de nós. Nós viramos ciborgues.

Todo taxista é um Robocop
Se você dirige, parabéns, você é praticamente um Robocop. Você não pensa: “vou girar o volante 30 graus, pressionar o pedal direito uns quatro centímetros, soltar o pé dois centímetros, pisar com o pé esquerdo o máximo que puder e mover esta alavanca da posição superior esquerda para esta imediatamente à direita e inferior”. Você simplesmente faz a curva e engata a segunda. O carro é uma extensão de seu corpo.

O mesmo vale para lápis, canetas, o mouse e, agora, a internet e as redes sociais.

Eu tenho uma memória horrível. Ruim mesmo. Há tempos brinco que terceirizei meu cérebro com o Google para livrar neurônios para coisas mais importantes. E é meio que verdade. Eu já não preciso saber dados exatos, números de telefone, endereços. Só preciso saber usar a discreta caixa sobre fundo branco, de onde surgem todas as respostas.

Se você não está no Orkut, você não faz aniversário
Dia desses ouvi uma frase que achei tão divertida quanto simbólica: “Se você não está no Orkut, você não faz aniversário”. Faz sentido. Quando decidimos nos tornar dependentes dos telefones celulares, passamos a não saber mais nenhum número de telefone de cor. Agora, as agendas de papel foram definitivamente enterradas, já que recorremos aos avisos do Orkut – e de outras redes sociais – para saber quando é o aniversário de nossos amigos. Terceirizamos com o Google inclusive nossa memória afetiva. E quanto mais nos sentirmos à vontade com esta relação, mais ciborgues seremos.

O celular é um excelente exemplo da simbiose homem-máquina. Os heavy users manipulam seus aparelhos sem sequer olhar para eles. Sabem exatamente onde está cada coisa e liberam importantes áreas do cérebro para raciocinar sobre outras coisas. Usar o celular se torna um processo mecânico, como caminhar, descascar uma banana ou amarrar os sapatos.

Será que, além de alertar aniversários dos amigos, as redes sociais produzem a mesma relação? O que acontecerá conosco conforme deixarmos de terceirizar nossos cérebros com máquinas e passarmos a terceirizar nossos cérebros mais e mais com outras pessoas – algumas próximas como os colegas da escola, outras desconhecidas no outro lado do planeta?

Nasce o homem-humano?
Será de fato o nascimento de um novo ciborgue? Não um homem-máquina, mas o ciborgue homem-humanidade? Será que precisamos mergulhar de cabeça numa Matrix tecnológica para nos conectarmos aos outros humanos?

Pois há indícios que nos ajudam a pensar desta forma.

No RPG Dungeons & Dragons, o Observador (Beholder) é um monstro dos mais cascudos. Ele é uma esfera flutuante com centenas de olhos, e essa capacidade de ver em todas as direções, além de um raio petrificante, fazem dele um inimigo cruel. Em O Senhor dos Anéis, inspiração para o próprio D&D, as palantíri eram espécies de bolas de cristal, usadas apenas por reis e grandes magos, para, entre outras coisas, poder observar o que se passava em terras distantes.

As redes sociais fizeram com que nossos computadores mais triviais, que nossos celulares e videogames se transformassem em palantíris. A cada instante, milhares de fotos são tiradas em câmeras digitais e celulares ao redor do mundo. E uma parcela cada vez maior dessas fotos têm destino certo: a “nuvem”, como é chamada a camada de serviços em rede que disponibilizam acesso a conteúdo de e para qualquer lugar.

O Olho do Observador
As fotos que são capturadas e enviadas para redes sociais como o Twitter, por exemplo, tem por característica o imediatismo. Não são fotos elaboradas e artísticas, comuns às comunidades de imagem, como o Flickr. São registros – muitas vezes sem foco ou enquadramento adequado – do agora. Aqui, hoje, ao vivo. Quando se resolve acompanhar a timeline – seqüência de imagens postadas a cada instante, independentemente do autor –, o resultado é um sentimento de voyerismo extremo, mágico como numa bola de cristal. Temos a sensação – quase real e acertada – de estarmos vendo o mundo todo, agora, ao vivo. Não por câmeras instaladas em monumentos e praças, mas na intimidade de gente de toda a parte. Polaróides daquilo que pessoas de todo tipo julgaram relevante de ser compartilhado, de ser registrado, de ser preservado.

Também ligado ao Twitter e reforçando o famoso “jeitinho brasileiro” está um serviço informal de alertas que se utiliza da agilidade dos microblogs e da possibilidade de atualização da rua, por meio de celulares, para compartilhar a localização de blitzes policiais com bafômetros. Desta forma, pessoas dispostas a correr o risco de consumir álcool e dirigir podem evitar os bloqueios policiais da Operação Lei Seca.

É claro que o exemplo aqui é de algo no mínimo irresponsável e ilegal. Espancar pessoas com ossos de mamutes também não devia ser algo bacana nem na pré-história. Bombas atômicas nunca foram divertidas. Seria leviano achar que só usaríamos tecnologia para fins benéficos e altruístas. O fato é que, usando redes sociais e os neurônios dos amigos, estamos adquirindo poderes, como a famosa Percepção Extra-sensorial (PES), um sexto sentido que nos torna homens-aranha, capazes de notar quando um perigo se aproxima. Mesmo que esse perigo seja justamente a Lei.

Usaremos a simbiose homem-humanos para o mal? Para a criação de uma sociedade padronizada e pasteurizada? Correremos risco do controle por algum Grande Irmão? Ou seremos capazes de coisas antes restritas aos magos da ficção? Será que um dia, como no livro Neuromancer, de William Gibson, vamos mudar nossa alma para a máquina, como um software buscando um novo hardware, mais potente, durador e com menos bugs e limitações?

Nos idos de 1999, o hiperconectado jornalista Carlos Alberto Teixeira, o C.A.T. antecipava: “Um dia, todo mundo ainda vai implantar um chip no quengo”. A minha dúvida não é se um dia isso vai mesmo acontecer. A questão é: já aconteceu?

Paul: o primeiro e o último

fevereiro 7th, 2010

All the Best!, uma coletânea da carreira-solo de Paul McCartney até meados dos anos 90, foi meu primeiro CD. Lembro de cada segundo de fascinação com o disco prateado, o som sem ruídos, sem risco de a fita embolar. Isso foi em 1992 e eu tinha acabado de ganhar um trambolhudo CD Player CCE. Daí em diante foram anos de consumo quase compulsivo das bolachinhas cintilantes.

Capa do CD Good Evening New York, de Paul McCartney

O último CD que eu compro?

18 anos depois faço algo que há muitos meses não fazia: compro um CD. É Good Evening New York, registro de uma (espetacular) performance de vovô-Paul nos Estados Unidos, em 2009. Chego em casa e repito o ritual de quase duas décadas: Tiro o plástico, vejo o encarte, me delicio com fotos, com a arte, com a experiência do produto físico, real, palpável.

Então me dou conta de que esse pode ser o último CD que eu compro. Salvo em ofertas com preços imbatíveis ou em pacotes atraentes (este Paul é um álbum duplo, mais um DVD do show), já não faz sentido comprar CDs, levar para casa e ripá-los. Mais simples seria baixá-los, legalmente mesmo. O CD físico não é mais de onde a música sai magicamente. É apenas o backup dos arquivos digitalizados que ouvimos no PC, no celular ou nas nuvens, via Last.fm.

Bate uma saudade, uma certa nostalgia. Lá na virada dos anos 90 para os 2000, nos primeiros debates sobre MP3, Bruno Gouveia, líder do Biquíni Cavadão e nerd assumido, escreveu sobre o tema em uma revista que eu editava. Ele levava fé no MP3 mas com ressalvas. “O MP3 não deve substituir o álbum, o CD, em todos os casos. Imagina você perder o álbum branco dos Beatles num crash do HD!”, disse ele.

Hoje o álbum branco está nas nuvens, dos torrents aos serviços legais. Está em videogames. Nenhuma destas experiências substitui a inauguração de um CD recém-comprado. Nenhuma delas substitui o cheiro do álbum guardado décadas, as marcas do tempo, o ingresso do show devidamente guardado ali.

Mas não posso esquecer que construí essas referências no primeiro contato com Paul, 18 anos atrás. No momento em que uma moribunda indústria nascia. No momento em que eu amadurecia como consumidor de música. Por mais que nossa geração tenha triplicado o tempo em que alguém se considera jovem, não dá para negar que, pelo menos no que diz respeito à relação com o produto música, todos da minha idade pra cima são tiozões. Ou vovozões como Paul McCartney. E o futuro da música não será composto por nós.

2010: De redes sociais para jogos sociais

janeiro 18th, 2010

A pedido da Revista Webdesign, tentei prever algumas tendências para 2010 em redes sociais e mídia digital, em geral. Como qualquer previsão, o risco de errar é maior que o de acertar. Quem viver, verá.

“Prever o futuro é a melhor maneira de garantir seu lugar na história, como alguém que previu algo absolutamente errado. Embora quase tudo que nos cerca seja evolutivo, vez em quando surge uma ruptura, algo que não havia sido previsto e que muda tudo. Isso vale tanto para o 11 de setembro como para o Twitter.

Mesmo assim, vou arriscar duas tendências que, acredito, farão barulho em 2010:

1. O fim das redes sociais

As redes sociais continuarão seu processo de crescimento e de amadurecimento. Elas serão inevitáveis e
indispensáveis. Serão fortes e impactarão profundamente a forma de consumo e de troca/manutenção de laços afetivos e de informação. Elas serão tão grandes que desaparecerão. Mídias sociais, cada vez mais, se tornarão sinônimo de internet. Que cada vez mais se torna sinônimo de mundo.

2. Jogos de Guerra. E de compras, e de amor, e de viagens

Jogos. Por toda parte. Acredito num esfriamento da exploração do capital social, de fomentar o espírito de
colaboração, participação e coautoria em troca da possibilidade de se virar microcelebridade. Esse espírito é
fundamental em redes sociais, mas é natural apenas em uma pequena (porém poderosa) parcela das pessoas.

O apelo lúdico dos jogos, porém, tem alcance bem maior. Iniciativas ainda mambembes, como o FourSquare e
os jogos de Facebook, nos apontam um caminho: travestir redes sociais como jogos para motivar a cocriação. Ou agregar redes sociais a jogos – XBOX 360 e sua Live -, impactando os games, os consoles e até a pirataria.”

Como identificar um dono de smartphone?

novembro 14th, 2009

Smartphones são aqueles celulares que agregam tantas funções que viram poderosos computadores de bolso, demandam uma Itaipu de energia para funcionarem e, em geral, são péssimos telefones. Mas quem tem, não vive sem (rima horrorosa). Tanto que dá para identificar fácil-fácil quem é dono de um iPhone, Android ou afim:

O dono de smartphone:

  1. Ao entrar em qualquer ambiente desconhecido, ele checa todo o perímetro da sala em busca de tomadas onde possa recarregar a bateria;
  2. Ele desenvolve uma incrível capacidade de andar e desviar de objetos enquanto se concentra totalmente em responder a uma piada por e-mail ou procurar por menções a si mesmo no Twitter;
  3. Ele aprende (ou acha que aprende) a dirigir enquanto digita com as duas mãos no aparelho;
  4. Ele não acha seu aparelho grande. As calças é que têm bolsos cada vez menores!
  5. Foi banido de gincanas culturais em bares por uso excessivo de Wikipedia;
  6. Ao conhecer novas pessoas, busca desesperadamente uma desculpa para fazer contas, ver as horas ou checar o trânsito no aparelho. Pode apresentar tremedeiras ou suor frio se, em alguns segundos, ninguém perguntar “Que aparelho é esse?”;
  7. Mesmo com sol forte lá fora, ele sai de guarda-chuva se esta for a previsão do tempo no smartphone;
  8. Não existe horário estranho para responder um e-mail. De preferência com o aviso de “Enviado de meu smarphone”;
  9. Ele tem o telefone do adido cultural de Honduras no Iêmen, mas não tem o telefone da irmã no aparelho (claro, ele nunca trocou cartões de visita com ela);
  10. Ele não fica muito tempo com o mesmo aparelho. Isso o faz retornar constantemente ao item 6 e aumenta a intensidade dos demais.

Minha palestra no EDTED – Recife

novembro 14th, 2009

Recife é uma cidade incrível. Explosão de mar, sol, cultura, tecnologia e de corajosos jovens empreendedores que, a 20 metros da praia de Boa Viagem num sábado de sol, dedicaram seu dia a ouvir palestras de Julius Wiedemann, Gil Giardelli e Luli Radfahrer e eu falando sobre design e redes sociais.

Como não é todo dia que a gente vai a Recife, todo mundo fez ajustes nas apresentações. Aproveitei para incluir conteúdos novos. Ficou tão grande, que acabei cortando de 10 para 7 lições aprendidas. Mas ficou legal. Parece que o povo gostou.

Valeu Recife. Até a próxima!

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Twitter: perdemos tempo demais com nossas regras e etiquetas?

outubro 28th, 2009

Eu sou o homem que falava cassanês. Cassanês, dizem, é meu dialeto particular, que consiste em despejar palavras de maneira extremamente rápida, não raro pela metade e de forma muitas vezes incompreensível. Tento maneirar durante palestras ou entrevistas, mas no dia-a-dia é difícil mesmo segurar o ritmo. Mas acontece algo curioso. As pessoas mais próximas, que convivem comigo, acabam por aprender cassanês. Até onde eu sei, não há cursos, apostilas, gramáticas ou regras de como falar rápido-enrolado como eu. Elas aprendem por osmose. Assim como a gente acaba aprendendo a ouvir/falar um idioma só por estarmos vivendo num país.

O fenômeno que faz com que a convivência nos faça perceber e aprender códigos, regras e éticas de cada meio, vale para o uso da tecnologia e das redes sociais. Percebo isso quando vejo os novatos do Twitter dando RTs, usando tags, falando “corrão”. Como eles aprenderam? Qual foi seu manual?

Se é fato que há regras e etiquetas que sobrevivem ao crescimento do Twitter – e que definem a cultura de quem usa a ferramenta como algo maior que a ferramenta em si –, também é inevitável que muitas das “leis verbais” da rede se percam com seu crescimento. A vida é assim, não adianta fazer #mimimi.

Dá para dizer que quanto menor é a comunidade, quanto mais de nicho, mais regras ela tem. E mais destas regras são respeitadas. Experimente observar um grupo de motoqueiros, tipo Hell’s Angels. São inúmeros rituais, saudações, códigos… o mesmo vale para caminhoneiros, escoteiros, maçons e pioneiros do Twitter. Mas quando abrimos o foco de “caminhoneiros” para “motoristas”, os códigos rareiam e é preciso pôr polícia na rua para garantir que as regras básicas sejam respeitadas.

Conforme o Twitter cresce, reduz-se a sensação de grupo, de tribo. Como já não faz sentido falar em “internautas”, como a “blogosfera” hoje representa mais a panela dos early adopters, daqui a pouco não fará sentido nos percebemos como tuiteiros, twitters, o que for.

O crescimento do Twitter diluirá suas regrinhas. Daqui a pouco USAR SEU JEITINHO E ESCREVER TUDO EM CAIXA ALTA pode deixar de ser falta grave (100 pontos na Carteira Twitteira de Habilitação). Dar RT sem citar a fonte pode não representar mais a apreensão da carteirinha de internauta. Usar script para ganhar usuários deixará de ser um problema. Na verdade, deixará de ser uma solução, quando nós, sub-celebridades digitais, assumirmos nosso posto real num ambiente popular e popularizado. E nada disso é necessariamente ruim.

Quando o Homem instala uma sociedade, um grupo, há três coisas que ele invariavelmente acaba fazendo:

1) Ergue uma Igreja;

2) Extermina os índios;

3) Cria regras.

As igrejas do vilarejo chamado Twitter são os gurus, os pioneiros, aqueles que elegemos como representantes das melhores práticas, líderes espirituais incontestes. Os índios não foram exterminados, mas a verdade é que, para os pioneiros, quanto mais os nativos do Orkut ficarem longe, melhor. Um dos motivos que nos faz adorar os memes é que sabemos que a maioria das pessoas não faz idéia do que eles são. Os memes, por serem exclusivos, nos mantêm ligados como grupo. Conhecer a Susan Boyle, o Zina, seguir o @realwbonner, saber do barraco A, B ou C. É o que nos une. Quando todos conhecem – ou quando o conhecimento está disperso – o grupo se dissipa.

Isso posto, será que faz sentido gastarmos tanta energia discutindo as vaidades de nosso mundinho? Será que não é perder tempo demais explorando só a parte visível do iceberg? Se o Twitter, como nosso ecossistema digital, não sobrevive a um bando de adolescentes clamando pelos Jonas Brothers ou tem sua credibilidade ameaçada por um post pago aqui e uma jovem que usa scripts acolá, o problema não está nem nos Jonas Brothers nem no script. O problema está no Twitter. O problema é dessa “sociedade” que a gente criou, que é frágil demais. Que depende de regras fadadas ao esquecimento. Os índios estão invadindo o forte-apache e queimando a igreja. Quer saber? Deixa invadir. Vai ser bom pra todo mundo.

O Twitter, as redes sociais em geral, são só o começo. Não adianta murar o terreno agora, pois o terreno está se expandindo, crescendo, novas espécies surgindo.  A gente tem mania de ficar discutindo porque o mar está recuando na praia ao invés de se preparar para o tsunami que vem em seguida. #prontofalei.

10 coisas que o Rio poderia aprender com São Paulo

outubro 19th, 2009

O Rio Sou carioca, do tipo que força o erre de mermão e o chi de “tchia” e “leitche”. Que fala futiból e se emociona com as mesmas paisagens há mais de trinta anos. Mas isso não me impede de reconhecer algumas coisas que, sim, os cariocas podem e precisam aprender com os paulistas.

São Paulo é uma cidade estranha. É gigante, mas ao mesmo tempo provinciana. Julgo crer que muitos paulistas (e paulistanos) ignoram o fato de que existe civilização ao norte de Santos. É um lugar de leitura difícil, que não se explica totalmente na esquina da Ipiranga com São João, nem na deselegância discreta de suas meninas.
São Paulo
São Paulo se revela aos poucos, tímida. Vai mostrando sua face, um certo charme. Uma lógica própria perdida entre concreto e motoboys. Lógica que, como tal, faz sentido. Até o ponto em que você entende São Paulo e consegue ver além do óbvio, além do preconceito.

Há muitas coisas boas em São Paulo. Coisas que não me incomodariam nem um pouco se fizessem parte de uma “paulistização do carioca”. Por exemplo:

1) Paulistas respeitam cruzamentos nas ruas;
2) Os sinais/semáforos/faróis ficam colocados no lado de lá do cruzamento. Assim, ninguém precisa ficar de pescoço torto só porque parou bem embaixo do dito-cujo;
3) Nota Fiscal Paulista. Imagino que isso tenha reduzido horrores a sonegação, e com um benefício palpável para as pessoas (mesmo que simbólico);
4) Futebol profissional;
5) Aquela lombada invertida em alguns cruzamentos. Ok, elas detonam a suspensão, mas forçam o motorista a dar uma paradinha e olhar para os lados antes de avançar;
6) Leis que pegam. Tenho a impressão de que algumas leis pegam em São Paulo (e outras não). Aqui, me parece que nenhuma lei pega, nunca;
7) Metrô que realmente liga o ponto A ao ponto B;
8) Obras. São Paulo está permanentemente em obras. Tem sempre algo subindo, um viaduto, uma nova estrada. Quando se resolve fazer obras no Rio saem monstros bizarros como a Cidade da Música;
9) Friozinho gostoso. Não reclamaria se dias de Rio 40o fossem intercalados com noites de Rio 10o, vendo um filme na TV e acompanhados de boa comida e vinho;
10) Macarrão. Aliás, São Paulo é a prova de que massa e macarrão não são a mesma coisa.

Philip K. Dick, Ubik e o pretérito do futuro

setembro 28th, 2009

Acabo de ler o excelente Ubik, de Philip K. Dick, um dos maiores nomes da literatura de ficção científica de todos os tempos. Aliás, um dos apelos do livro é que ele foi considerado pela revista Time um dos 100 melhores em língua inglesa escritos depois de 1923. E faz jus à honraria.

Capa de Ubik, de Philip K. Dick

Ubik, de Philip K. Dick

Publicado em 1969, Ubik está para Minority Report assim como Neuromancer, de William Gibson, está para Matrix. Estão lá precogs, pessoas capazes de prever o futuro e uma ousada visão de como seria o amanhã.

E é sobre a arriscada tarefa de prever o futuro que pretendo falar. Em tempos de evolução tecnológica e cultural cada vez mais rápida, o ofício de escritor de ficção científica se tornou tão ingrato quanto o de técnico do Fluminense. A chance de prever futuros anacrônicos é enorme e a saída mais honrosa acaba sendo apelar para mundos fantásticos e universos paralelos. Mas a previsão furada tem enorme valor. Ela nos permite saber o que não passa de evolução e o que de fato foi revolucionário.

Pensemos nas comunicações. Um item mais presente na ficção científica em geral do que venezuelanas em finais do Miss Universo é o videofone. Até os Jetsons têm um aparelho desses. Mas quantas obras anteciparam o telefone celular? Jornada nas Estrelas conta ou já era recente demais?

A internet, então, passou longe da maioria. Um de meus heróis literários, Douglas Adams, previu a Wikipedia, ao descrever o Guia do Mochileiro das Galáxias como uma obra coletiva. Adams, por sinal, já mereceu um post exclusivo pelas previsões de seus livros. Se bem que, nesse caso, ele está mais para inspirador/provocador do futuro.

Os videofones estão presentes em Ubik, que foi publicado no ano em que o homem pisou na Lua. Dick empurrou a história bem pra frente, para não ter que se explicar com chatos como eu. Ela se passa em um futuro longínquo (para o autor): 1992. No ano em que vimos pela TV um arqueiro errando a pira olímpica nas Olimpíadas de Barcelona, Dick imaginou que teríamos espaçonaves explorando o espaço, e colônias em Marte e na Lua.

Outras deliciosas previsões:

- O custo de vida aumentaria tanto que tudo passaria a ser pago. Os personagens do livro pagam a seus próprios eletrodomésticos pelas coisas mais simples, como fazer café, ligar o chuveiro, ver as notícias ou abrir a porta.

- O mais curioso é COMO eles pagam: moedas. Moedinhas por toda parte.

- Mas também existe uma espécie de cartão de crédito, dispositivos que armazenam o dinheiro da época, os pós-creds.

- O mais legal é a máquina de notícias. Ela é operada por voz, e permite total customização. O usuário pede à máquina o que ele quer ver. Incrível visão quando o máximo da tecnologia da época era a nascente transmissão em broadcast via satélite. Ao escolher o que se quer ver, a máquina… imprime em quatro cores uma folha com as matérias escolhidas. Dick preferiu não fazer da TV ou do telefone o meio de informação, mas sim o papel, produzido sob demanda e com alta tecnologia.

- Ao tentar operar uma nave espacial, os personagens operam um sistema eletrônico de busca de informações que, ao encontrar o que é procurado, gera um cartão perfurado, que é inserido no computador para passar as informações.

- Cigarro. Muitos. Todo mundo fuma.

- Áudio: A tecnologia futurista de áudio inclui rádio-gravadores poderosos, que gravam e reproduzem cassetes como ninguém. Nisso ele acertou. Se hoje vivemos a era do MP3, em 1992 os CDs ainda engatinhavam e os K7s imperavam.

- A limpeza dos apartamentos é feita por robôs. Mediante o pagamento de algumas moedas, claro.

- Mídia: existe uma TV planetária, e anúncios nesta TV, em caixas de fósforos e malas-diretas ainda são ótimas oportunidades de comunicação.

E tem mais, que guardo para quem ler Ubik. Nada disso diminui o valor do livro ou do autor, morto em 1982. Pelo contrário. Nos depararmos com uma previsão de um futuro que já passou adiciona uma nova e deliciosa camada a um livro já interessantíssimo. Fica a dica.

Seeding é isso: inspirar pessoas a inspirar pessoas

agosto 11th, 2009

Em visita à Infnet, fui abordado por um jovem, cabelo grande, jaqueta azul, aquele olhar determinado de quem quer sugar toda informação que passar por sua frente.

Eu estava sentado em um banco, me dividindo entre o laptop, o celular e o Blackberry. Ele se aproximou, se sentou ao meu lado, pensou duas vezes e perguntou:

- Você palestrou no 12o Encontro de Web Design, não foi?

Respondi que sim e confirmei com ele se tinha sido aquele no Hotel Glória, no Rio. Ele continuou:

- Foi meu primeiro evento desse tipo, nunca tinha ido. Gostei muito de todas as palestras. Elas me motivaram a me esforçar.

Ele contou que começou a trabalhar com web como frila, inclusive com clientes europeus. Com a grana dos frilas, entrou para a graduação no Infnet. Contou também que trabalha em um projeto social, o Kabum, voltado para inclusão digital de jovens carentes.

- É fácil lidar com os alunos, porque eu moro na Rocinha -, revelou o jovem profissional, que nunca tinha ido a um evento da área e que, inspirado pelas apresentações, acreditou que poderia seguir carreira, conquistou clientes e investiu em mais conhecimento. E que não esperou o bolo crescer para começar a dividir.

É uma alegria e uma honra muito grande saber que tenho uma modesta participação nisso, por, junto com outros profissionais, ter subido naquele palco no Hotel Glória e inspirado pessoas a perseguirem sonhos – alguns que eles nem sabiam que tinham até aquele dia.

(Minhas) grandes descobertas da Humanidade: a batata corada

julho 10th, 2009

Eu devia ter uns 12 anos. Para todos os efeitos, era uma criança. Colecionava bonecos, assistia Transformers na TV, devorava quadrinhos e enciclopédias e, hábito que preservo, adorava batatas.

Passando férias na casa de uns tios, fomos pernoitar em uma fazenda (talvez um sítio, mas para mim era um latifúndio sem fim) em Teresópolis. Foi um fim de semana de muitas descobertas. Por exemplo, ao nadar em uma piscina de água natural, aprendi como é – literalmente – engolir sapo. No caso, pequenos girinos. A sensação é muito parecida com engolir uma aspirina, com a diferença de que, nesse caso, você fica imaginando a aspirina sacudindo a cauda dentro do seu estômago.

Também descobri, andando pelo gramado onde havia uma quadra de tênis, que cobras fazem buracos no chão, não por acaso chamados “buracos de cobra”. E que a presença de cobras ali estava intimamente ligada à presença dos sapos, pais do girino que eu havia engolido. “Onde tem sapo, tem cobra”. E pior, que eu não deveria pisar nos sapos, visto que eles lançariam um líquido venenoso que prontamente me deixaria cego.

Minha crença na precisa mira dos sapos foi total e instantânea. Idem para a constatação de que todo e qualquer buraco tinha uma cobra dentro (sem duplo sentido, por favor, eu mal tinha 12 anos).

Com a noite caindo, e todos recolhidos ao interior da grande casa, aprendi a jogar paciência (sim, achei extremamente divertido). Mas minha cabeça estava lá fora. Mais exatamente, no céu que gradativamente escurecia.

Tinha grande esperança de ali, longe da cidade, finalmente contemplar a Via Láctea, mancha branca que deveria cobrir boa parte do céu em noites sem lua e sem a poluição das cidades. Aquela era minha grande oportunidade de, como bom cientista, comprovar com meus próprios olhos o que as enciclopédias diziam.

Mas então a ciência foi derrotada pelos sapos. Ao abrir a porta da casa, já envolta num breu absoluto, eu pude ouvir os coaxares, vindo de toda parte. Não sabia se eles estavam perto, ou longe. E, pior, não fazia idéia de onde estavam todas aquelas cobras à caça de sapos. A escuridão fez do gramado em torno da casa uma savana selvagem.

Não tive coragem de sair, e da porta, sob as telhas da varanda, não dava para ver o céu. Tive que esperar muitos anos ainda para descobrir que os livros não mentiam.

Mas a grande e mais fantástica descoberta ainda estaria por vir. Mais exatamente, no almoço do dia seguinte. Quando elas chegaram, olhei com estranheza. Afinal, tinham aquelas bordas queimadinhas, em leve tom de marrom, exatamente como as fritas. Tinham aquela superfície mais áspera, seca, também como as fritas. Mas eram redondinhas, como uma batata na manteiga. Era um conjunto de forma, aparência e textura novo para mim. Eram minhas primeiras batatas coradas.

Àquela altura eu era um homem rodado de batatas. Já tinha comido várias, de muitos tipos. Fritas, palha, palito, purê, de forno… mas coradas, meio assadas meio fritas, crocantes por fora e macias como um purê por dentro… ah… foi minha primeira vez.

Acho que se me dissessem que havia mais um prato cheio de batatas coradas no meio da grama, à noite, eu enfrentaria sapos e cobras pelo direito de repetir no jantar a descoberta do almoço.

Isso tem uns vinte anos. Mais, talvez. Mas consigo reviver cada detalhe. Da sala com vigas e teto de madeira, de iluminação suave, do sabor daquela nova batata, do coaxar dos sapos.

E do aprendizado: o mágico, o fantástico, o maravilhoso da ignorância é a alegria incomparável quando percebemos que acabamos de descobrir algo. Que não precisa ser o fogo, a roda, a penicilina. Pode ser as regras do jogo de paciência. Ou o sabor de uma batata corada. Basta ser algo que não sabíamos que existia e que agora conhecemos bem.

Quando se tem 12 anos, o mundo inteiro é um laboratório e tudo são grandes descobertas. Felizes aqueles que têm 12 anos para sempre.