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19 Junho, 2005
Seja legal. Só um pouquinho. Por favor...
O Ser Humano foi detalhadamente projetado para o fracasso. E digo isso sem recorrer ao Holocausto, ao Titanic ou à música baiana. Afirmo com base em nossa subserviência à todo tipo de publicidade exceto àquela que valeria realmente a pena seguirmos. Adoramos propaganda. E acreditamos nelas. E isso ecoa de um passado distante, muito anterior ao coma-beba-use-fume de nossa civilização capitalista. Vem desde as cavernas.
Afinal, nossos antepassados entenderam a autopromoção do tigre dente-de-sabre, que anunciava “estraçalho qualquer um”. Os humanos que não compraram a idéia foram devidamente estraçalhados e a propaganda teve seu papel na seleção natural.. Mesma teoria de Darwin que tornou as tartarugas de Galápagos um dos seres dos quais sentimos mais pena. Enormes, lerdas, solitárias e ameaçadas de extinção, as tartarugas só chegaram a nosso inconsciente coletivo por puro marketing. A propaganda sempre foi a alma do negócio, mas nossa alma nunca foi o negócio da propaganda.
Está sendo veiculada na TV a nova peça da campanha “Sou brasileiro e não desisto nunca”. Ela prega, de forma bem bacana, que devemos dar o exemplo e sermos legais. Coisas simples como não jogar papel no chão, ajudar velhinhas a atravessar a rua e não decapitar nossos vizinhos com uma serra elétrica. Coisas que todos nós, teoricamente evoluídos membros da espécie reinante sobre a galáxia, deveríamos fazer sem que fosse preciso uma propaganda na tevê para tal.
Entendem o paradoxo? Criamos tantas coisas, fazemos tanto do mais complicado, e não conseguimos o mais simples: “ser legais”. O Homem, definitivamente, não é gente boa. É preciso anunciar na tevê o respeito ao próximo. O curioso é que nem assim a coisa funciona. Somos suscetíveis a todas as propagandas, menos àquelas que nos dizem para sermos simples e bacanas.
Há milênios as igrejas ocidentais dedicam quase todo seu tempo a vender para as pessoas um “jeito cristão de ser”. O Just pray it da fé parte de um slogan simples, “amai-vos uns aos outros”. Amar ao próximo, antes de significar que devemos passar a mão em nosso colega de ônibus, quer dizer que devemos ser “do bem”. Dar o exemplo, como propõe a propaganda.
Mas se dois mil anos do marketing cristão parecem ter surtido pouco efeito, não dá para esperar muito de uma efêmera (porém bem-intencionada) campanha de tevê. Numa hora dessas é que nos perguntamos: Onde estão os alienígenas que deveriam estar aqui nos ensinando a respeitar uns aos outros e a nos unir antes que aquele canhão laser enorme pulverize nossa cidade?
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