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14 Outubro, 2005
Sim, não ou depende: o engodo do referendo
Uma vez, escrevendo um polêmico artigo sobre utópicos wikibancos, me vi discutindo com um amigo historiador sobre como seria interessante adotarmos a democracia direta, hoje já viável, graças à tecnologia.
 Numa democracia direta, ao invés (ou além) de votarmos para eliminar alguém do Big Brother, exerceríamos nosso dever de cidadãos dando nós mesmos nossos votos sobre as principais questões do país, de casa mesmo, pelo telefone, celular ou internet, ou das agências dos Correios, por exemplo.
Isso nos forçaria a reduzir a pauta de votações a temas realmente importantes, e não aquelas emendas estapafúrdias que surgem no Congresso. Na democracia direta, não existiria nem câmara de vereadores, nem deputados, nem senadores. Talvez um reduzido número de representantes que organizariam a pauta para nós, a patuléia, darmos a palavra final.
É claro que teríamos novos problemas a resolver. Um deles, conhecemos bem. É o pão e circo. O que impediria que o mesmo povo ignorante, ingênuo e honesto que elege crápulas e suas esposas para governos estaduais não fosse comprado por esmolas de 1 real e aprovasse leis tão cínicas como seus criadores? Infelizmente, o histórico descaso com a educação faz do povo brasileiro incapaz de conduzir satisfatoriamente uma democracia.
Nos falta condições de discernir o certo e o errado, e enxergar o enorme oceano cinza que existe entre o branco e o preto. E, por isso, o povo, tão inculto e ocupado com a difícil tarefa de sobreviver, não consegue ver o mar de dependes entre o SIM e o NÃO no último engodo lançado sobre nós, o referendo do desarmamento.
Além de oportuna cortina de fumaça que empurrará o início da sucessão presidencial para depois do carnaval, o referendo joga em nossos colos uma responsabilidade que é dos legisladores que nós escolhemos para nos representar, e que recebem (fora malas), lascivos salários para tanto.
Ora, já vivemos na democracia direta? Ou ainda temos um Estado por democracia representativa, em que cidadãos “de bem” representam os interesses da população? Ao apertarmos o verde na urna eletrônica estamos, de fato, assinando uma procuração para que o deputado “X” fale e lute em nosso nome. Não caberia a ele, então, decidir sobre a proibição ou não da venda de armas? Será essa uma questão tão acima das demais que tramitam todos os meses pelo Congresso? Se é para sermos uma democracia direta, que se dissolva o parlamento e aplique-se os milhões de reais que sobrarão em educação.
Além disso, ao empurrar para cima de nós a responsabilidade por essa escolha inócua, o governo nos transfere a culpa pela inevitável continuação e agravamento da violência. “Ah, vocês votaram sim? Agora agüenta”. Ou “quem mandou votar não?”.
O referendo não mudará nada, infelizmente. Não tenho uma arma, não teria, e desencorajo que tente ter. É um objeto que, unicamente, serve para matar. E matar não é, em essência, uma coisa boa. E há armas das “pessoas de bem” que possibilitam suicídios, assassinatos estúpidos ou alimentam o vício de seus filhos mal-amados. Mas para um traficante é muito menos vantajoso tentar obter um 38 legal do que ir pessoalmente aos atacadões, depósitos do exército onde pode-se comprar fuzis e o que mais quiserem.
Quer coibir a violência? Dificulte ainda mais a compra de armas (mas não a proíba), reduza as diferenças sociais, fiscalize de perto o estoque legal de armas, fiscalize a sério as fronteiras, cuide bem dos arsenais militares, atue nas ruas retirando as armas que estão circulando, quando não poderiam sair das casas.
Votarei 3. Não porque sou contra ou a favor do comércio (meu coração, inculto, honesto e ingênuo, votaria SIM, 2, sem titubear), mas porque sou contra esse referendo de voto obrigatório, que força o povo a tomar posição em uma questão que ele racionalmente desconhece e que é, em essência, mentirosa. Votarei 3 porque os dois lados nessa briga se valem de uma baixa chantagem emocional para influenciar nosso voto. Os dois lados mentem e distorcem a realidade. Estamos vendendo ao povo uma esperança vã, de que uma lei sozinha mudará o país. Aqui, executivo e legislativo ignoram a Constituição. Algum bandido vai respeitar uma única lei?
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