Brogue do Cassano
 

10 Fevereiro, 2006  

Foi bom para você?

Repare só. Nunca o tempo andou tão rápido. Nenhuma geração na história deste pequeno pedaço de rocha perdido numa galáxia com nome de leite de caixinha testemunhou tantos fatos marcantes ao mesmo tempo. Só as últimas duas décadas do século XX rendem mais páginas em livros de história do que séculos inteiros do passado. Foram saltos, rupturas, evoluções e revoluções na cultura, no conhecimento humano, na ciência, na guerra, nas doenças (e nas curas), nas tragédias naturais.

Passamos a entender que este é um planeta que pode morrer. Mas descobrimos isso somente quando ele parece estar mesmo morrendo. Descobrimos que não conseguimos viver sem guerras – mesmo quando isso só serve para nos matar. Percebemos que podemos fazer grandes coisas. Só para a natureza nos jogar uma tsunami de água fria na cabeça. E nos resta esperar o grande terremoto, ou o dia em que, cansada de tanta falta de vergonha na cara, a natureza vai desistir de dar um país tão tranqüilo a um povo que às vezes falta por merecer um Brasil fértil e tectonicamente pacato. Já temos furacões! Que surja o Godzilla que vive sob a Baía de Guanabara.

A longa introdução é para apresentar minha tese. Quem escreve ou ao menos assiste telenovelas sabe que é comum que, quando se vai chegando ao fim da história, seja preciso dar uma acelerada no ritmo, fechar as pontas que estão abertas e encaminhar todos os personagens da trama para aquela mega-festa de casamento coletivo onde, após o “FIM”, o elenco pode erguer taças de champanhe para as câmeras e dar adeus aos telespectadores. É um clímax, em que a coisa toda se acelera quanto mais ele se aproxima.

Pois me parece que vivemos o clímax do mundo. Coisa de “Últimos capítulos”. Como meros personagens nessa trama global (sem trocadilho com a Rede Globo, por favor), desse folhetim de enredo caótico, nada nos resta além de ajudar o autor e fechar todas as pontas abertas, punir todos os vilões (ou fazê-los dar uma banana para o povo dentro de um avião), encontrarmos nossa mocinha ou galã e rumarmos para o grande casamento coletivo.

E que ninguém se assuste quando as ondas fizerem da Urca uma Atlântida, quando o Grande Condor descer dos Andes, seguido por um Quetzalcoatl asteca e vingar nossa origem indígena. Ninguém se assuste quando a intolerância, a ganância e o fanatismo religioso não fizerem sentido – fizerem vítimas. Faz parte do Deux ex Machina, da mão de Deus de que autores menos habilidosos se valem para dar fim àqueles personagens ou situações para os quais faltou imaginação para criar um desfecho coerente.

Se um dia você se deparar com um pôr-do-sol cinematográfico, um trem lotado rumando para o horizonte, pássaros em revoada e um estranho letreiro branco subindo do horizonte, não se assuste. Erga sua taça de champanhe e dê adeus ao Grande Telespectador. No fim, tudo deve ter valido a pena. Foram 4,5 bilhões de anos no ar. E um final que não pode ser feliz nem triste. Porque ele é apenas fim. E fins não precisam de adjetivos. Fins precisam apenas de um começo.

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