Seis bebês para o fim do mundo – capítulo 3
A saga coletiva sobre o fim do mundo e seis bebês nascidos em junho continua:
Capítulos anteriores:
Capítulo 3– Respire… Respire…
– Eu estou respirando, caramba! Não precisa me dizer para fazer isso…
– Mas tem que respirar. Faz cachorrinho!
– Quê?
– Respira cachorrinho! Ou é gatinho?
– Só dirige, peloamordedeus… só dirige essa porra…Vanildo Helsing acelera seu Lada 1986 na velocidade máxima que um Lada 1986 consegue chegar. Isso é bem pouco, entenda-se. Costura pelo trânsito complicado de Belgrado, gotas de suor se acumulando na ampla testa e na corajosa calvície que desbrava seu couro cabeludo.
No banco de trás, respirando cachorrinho sem dar o braço a torcer, Amarilda Stocker, sua esposa, conta o tempo entre cada contração. Para se distrair, tenta se lembrar qual seria o signo de alguém que nasce na primeira semana de junho.
Dentro de Amarilda, o bebê luta contra a placenta gosmenta. Resmunga com alguém, critica o serviço de bordo e o atraso. Afinal, ele já deveria estar no mundo há semanas, e só agora a Torre de Controle deu permissão para ele descer. Então o bebê está com toda pressa do mundo.
Enquanto dirige, Vanildo mantém os olhos divididos entre as ruelas e uma maleta de madeira desgastada no banco do carona. Dirigir em alta (quer dizer, baixa) velocidade em direção à maternidade não estava em seus planos para essa manhã.
Na verdade, aquele dia culminaria duas décadas de preparação. Teoricamente, naquele dia ele estaria salvando o mundo e honrando a memória de seus antepassados romenos. Só que duas garrafas de Heineken foram suficientes para que ele estragasse todo o planejamento, com a ajuda da bela, estonteante, sedutora e como-é-que-uma-mulher-dessas-foi-me-dar-mole Amarilda. Isso foi há nove meses.
– Falta muito Van?
– Tá chegando… tá chegando…Na verdade não está. Faltam cinco quarteirões. E por algum motivo Vanildo acha que não chegará à maternidade à tempo. Talvez seja pela carreta da Shell tombada à sua frente, fechando de uma só vez as duas principais avenidas de Belgrado e cercada por caminhões dos bombeiros e por ambulâncias.
Engole em seco. Amarilda grita, e volta a respirar cachorrinho. Vanildo enxuga o suor da testa e olha para o lado. Vê uma casa velha, com janela quebrada, coberta de teias de aranha. Sob a porta entreaberta, um tapete surrado e bem sujo. Na porta, uma placa “Rose Shelley – Parteira”. Vanildo olha para Amarilda. Amarilda olha para Vanildo. O bebê olha para baixo e vê uma luz no fim do túnel que se alarga. Vanildo desliga o carro e corre para abrir a porta de trás. A chave quebra na fechadura. Então ele chuta o Lada com força e a porta cai. Uma senhora com uma verruga enorme no nariz sai da casa velha e vem ajudar Vanildo a levar Amarilda para dentro.




