Brogue do Cassano
 

26 Junho, 2006  

Seis bebês para o fim do mundo - capítulo 3

A saga coletiva sobre o fim do mundo e seis bebês nascidos em junho continua:

Capítulos anteriores:

  • Prólogo
  • Capítulo 1
  • Capítulo 2



    Capítulo 3

    – Respire... Respire...
    – Eu estou respirando, caramba! Não precisa me dizer para fazer isso...
    – Mas tem que respirar. Faz cachorrinho!
    – Quê?
    – Respira cachorrinho! Ou é gatinho?
    – Só dirige, peloamordedeus... só dirige essa porra...

    Vanildo Helsing acelera seu Lada 1986 na velocidade máxima que um Lada 1986 consegue chegar. Isso é bem pouco, entenda-se. Costura pelo trânsito complicado de Belgrado, gotas de suor se acumulando na ampla testa e na corajosa calvície que desbrava seu couro cabeludo.

    No banco de trás, respirando cachorrinho sem dar o braço a torcer, Amarilda Stocker, sua esposa, conta o tempo entre cada contração. Para se distrair, tenta se lembrar qual seria o signo de alguém que nasce na primeira semana de junho.

    Dentro de Amarilda, o bebê luta contra a placenta gosmenta. Resmunga com alguém, critica o serviço de bordo e o atraso. Afinal, ele já deveria estar no mundo há semanas, e só agora a Torre de Controle deu permissão para ele descer. Então o bebê está com toda pressa do mundo.

    Enquanto dirige, Vanildo mantém os olhos divididos entre as ruelas e uma maleta de madeira desgastada no banco do carona. Dirigir em alta (quer dizer, baixa) velocidade em direção à maternidade não estava em seus planos para essa manhã.

    Na verdade, aquele dia culminaria duas décadas de preparação. Teoricamente, naquele dia ele estaria salvando o mundo e honrando a memória de seus antepassados romenos. Só que duas garrafas de Heineken foram suficientes para que ele estragasse todo o planejamento, com a ajuda da bela, estonteante, sedutora e como-é-que-uma-mulher-dessas-foi-me-dar-mole Amarilda. Isso foi há nove meses.

    – Falta muito Van?
    – Tá chegando... tá chegando...

    Na verdade não está. Faltam cinco quarteirões. E por algum motivo Vanildo acha que não chegará à maternidade à tempo. Talvez seja pela carreta da Shell tombada à sua frente, fechando de uma só vez as duas principais avenidas de Belgrado e cercada por caminhões dos bombeiros e por ambulâncias.

    Engole em seco. Amarilda grita, e volta a respirar cachorrinho. Vanildo enxuga o suor da testa e olha para o lado. Vê uma casa velha, com janela quebrada, coberta de teias de aranha. Sob a porta entreaberta, um tapete surrado e bem sujo. Na porta, uma placa “Rose Shelley – Parteira”. Vanildo olha para Amarilda. Amarilda olha para Vanildo. O bebê olha para baixo e vê uma luz no fim do túnel que se alarga. Vanildo desliga o carro e corre para abrir a porta de trás. A chave quebra na fechadura. Então ele chuta o Lada com força e a porta cai. Uma senhora com uma verruga enorme no nariz sai da casa velha e vem ajudar Vanildo a levar Amarilda para dentro.

  • Web Este site
     

    Posts por categorias:
    Arte | Humor | Contos | Poesia | Filosofia | Trabalho | Cotidiano

     

    Março 2005 Abril 2005 Maio 2005 Junho 2005 Julho 2005 Agosto 2005 Setembro 2005 Outubro 2005 Novembro 2005 Dezembro 2005 Janeiro 2006 Fevereiro 2006 Maio 2006 Junho 2006 Julho 2006 Agosto 2006 Setembro 2006 Outubro 2006 Novembro 2006 Dezembro 2006 Janeiro 2007 Fevereiro 2007 Março 2007 Abril 2007 Maio 2007 Junho 2007 Julho 2007 Agosto 2007 Setembro 2007 Outubro 2007 Novembro 2007 Dezembro 2007 Janeiro 2008 Fevereiro 2008 Março 2008 Abril 2008 Maio 2008 Junho 2008 Julho 2008 Agosto 2008 Setembro 2008

     
      O Brogue no Twitter
       


      RSS

      Add to Google Reader or Homepage

      Add to My Yahoo!

      Adicionar aos Favoritos BlogBlogs

      Adicione ao Delicious


      This page is powered by Blogger. Isn't yours?



       
    • Tock´s do Ock-Tock
    • Boing Boing
    • Web Insider
    • Malvados
    • FutureLab
    • Bruno Parodi
    • Cucamonga
    • Horácio Soares
    • Creative Commons
    • CrisDias.com
    •  

      Quem sou eu?
      (c) 1998,2007 Roberto Cassano. Nem todos os direitos reservados.