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01 Julho, 2006
A Seleção de um país que não entrou em campo
 Escrevo após mais uma melancólica derrota da Seleção Brasileira para a França, comandada por um inspirado mago da bola chamado Zinedine Zidane. Se a derrota tivesse vindo de um arroubo de genialidade do mestre francês para desequilibrar uma partida equilibrada, as lágrimas teriam escorrido do mesmo jeito, mas de cabeça erguida.
Mas não foi o que o mundo viu. O mundo viu um Brasil apático. Um Brasil que não sabe o que significa lutar. Um Brasil que desconhece o sentido do coletivo. Que não honra a camisa. Que vê o outro somente como isso: o Outro.
De quem estamos falando? Dos onze jogadores de futebol em campo ou dos 180 milhões de técnicos que ficaram no Brasil? Porque o futebol apresentado em campo na Alemanha reflete muito bem o jogo sem objetividade que temos desenvolvido nestes últimos 500 anos. O Brasil é uma ex-colônia que nunca chegou a ser nação. Uma terra de sem-terras sem pátria, onde zidanes nada talentosos roubam alegria, pão, saúde e esperança do povo, enquanto nossa zaga de pacatos cidadãos assiste inerte ao roubar da bola e ao rolar do dólar.
Esse Brasil minúsculo, que não olha o adversário nos olhos, que é Golias e se faz um David sem funda, aparece no gramado e nesses campos de Norte a Sul. Como no futebol, somos uma nação de talentos individuais, de Marcos, Vinícius, Edsons, reconhecidos lá e cá como “brasileiros que deram certo”. Tirando um que brilhou no espaço e outros tantos (Vinte? Cinqüenta? Mil?) que fazem bonito neste planeta, todo o resto somos 179 milhões e 900 mil anônimos fracassados, se regozijando com nossas modestas conquistas individuais, pulando carnaval e festejando nossas copas. Nesse caso, apenas quando o Brasil proto-nação não resolve entrar em campo.
A indignação e tristeza, nosso ar embasbacado cara-a-cara com um Galvão Bueno de olhos mareados salivantes, bem que poderia persistir ao longo dos anos. A empáfia e inépcia de brasileiros como Roberto Carlos contribuem para que sejamos um bando, nunca um time. Somos governados por Robertos Carlos sem visão de conjunto, sem amor à camisa e, principalmente, sem se importar com nossos corações, nossos futuros.
Enquanto se rouba lá e cá, enquanto passamos nossos dias sem levar a sério o que fazemos, enquanto assistimos a nossos adversários internos tocarem a bola, tão ignorantes de cultura e da vida como somos das conversas de vestiário, esticamos essa longa transição de quase duzentos anos entre a colônia e a nação. Um dia o Brasil será um país, uma nação, uma pátria. Ser brasileiro um dia significará mais que um estereótipo sorridente a fazer piruetas com a bola. Até lá, quem sabe já não seremos hexa, hepta, ou octa no futebol? Por que no ritmo lento e no toque de bola pro lado de nossa nação, essa vitória contra nossa própria vocação para o fracasso vai demorar a chegar.
P.S. Esse texto quase não foi para o ar, por censura de minha mais importante crítica, minha esposa. Uma brasileira de verdade, que não anda em campo, mas corre atrás da bola com fome feroz de virar esse jogo em que perdemos de goleada. A ela, como a muitos leitores, incomoda sermos chamados de pequenos, pertuba nosso centenário complexo de inferioridade, que pode sim estar me acometendo nesse dia de derrota. Por que estes Lúcios e Zé Robertos da vida são Golias que se agigantam. Pena que sejam poucos. Ou que estejam presos na zaga, no meio-campo, no ataque. Recebem bolas quadradas, ou vêem seus colegas entregando a redonda de bandeja para os adversários. Eu queria muito saber que estou errado. Que esse jogo dá para virar sim. Que essa torcida não fica apática. Quem vai, como gosta de dizer o Galvão, “chamar o jogo para si”? Ainda dá tempo.
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