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Eu ainda sonho

4 de setembro de 2006

Eu estou morto
Mas já vivi

Eu estou morto
Mas já amei

Eu estou morto
Mas já senti o álcool queimar minha garganta como serpente de fogo
E gostei disso.

Estou morto
Mas já investiguei gotas de chuva na janela

Já vi Deus no farfalhar das folhas ao vento

Já soei o nariz para esconder lágrimas no cinema

Já confiei e me decepcionei, para tornar a confiar

Já desci de ônibus andando. Já subi em ônibus andando

Já dormi e passei do ponto. Já falei demais e passei do ponto

Já falei de menos e deixei o silêncio ensurdecer a vida

Já tive fé. Já tive dúvida.

Já almocei de pé. Já jantei prato feito, requentado no forno

Já acordei cedo. Já dormi tarde. Já dormi cedo. Já acordei tarde.

Já cantei errado, conheci o cerrado, a Mata Atlântica e a Avenida Atlântica

Já nadei no mar. Já tive medo das ondas. Já me queimou uma água-viva

Já coloquei dedo em vela para ver se era quente

Já chupei gelo, estiquei corrente. Tive medo de altura. Subi mais alto

Já disse adeus. Já disse olá. Já disse bom dia, já disse como vai.

Falei mentiras. Contei verdades.

Eu estou morto.
Mas ainda sonho.

Eu estou morto.
Mas eu ainda sonho!

Eu ainda sonho.
Eu estou morto.
Mas posso viver de novo.
Porque eu ainda sonho.

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