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01 Setembro, 2006
O dono da bola
Todos sabem que os filósofos, quando se cansam de divagar sobre o Cosmos em seus escritórios empoeirados, pegam seus carros amarelos e saem por aí disfarçados de taxistas. Pois bem. Outro dia fiz sinal para um filósofo no Centro do Rio de Janeiro, e ele me levou para uma viagem até minha casa, passando pelo real sentido da inclusão social.
Ao parar em um sinal do Centro, já quase deserto e recebendo os primeiros habitantes da sinistra noite urbana, fomos abordados por um senhor gordo, de longa barba branca. Ele parecia um Papai Noel maltrapilho, e vendia bolas de futebol. Ofereceu uma ao taxista, por R$ 10. Este recusou educadamente e o vendedor respondeu, sorridente, no mesmo tom. E partiu para oferecer suas bolas para outros motoristas. Então meu filósofo particular entrou em campo.
-- Ora, veja só -- disse ele. -- Antigamente quem tinha uma bola era rei. Era o dono da bola. O cara podia ser um perna-de-pau danado, mas se tivesse uma bola, tinha o poder. Era escalado em qualquer time. Afinal, sem ele não tinha jogo. Hoje não. Qualquer um tem uma bola.
Ele não se deu conta, mas havia identificado a maior inclusão social já ocorrida no Brasil. Maior que a inclusão digital, telefônica ou educacional, vivemos a inclusão bolotal. Agora todo mundo é dono da bola.
O que se conclui disso? Que é realmente verdade que quando todos têm o poder, ninguém tem de fato poder algum. Nenhum pereba se escala na pelada de domingo por ser dono da pelota. É preciso talento ou, ao menos, amigos influentes.
Isso quer dizer que muito mais gente pode jogar futebol agora. E que, aos ruins de bola, cabe a triste sina de ficar na arquibancada ou, no máximo, marcar o Alam(brado). Esses pernetas podem ocupar seu tempo estudando. E de zagueiros medíocres acabarão virando grandes cientistas. Ou símbolos da revolução maior que se materializa sobre nós: o fim dos donos da bola.
A indústria das telecomunicaÇões ainda é dominada por alguns donos da bola. Incluo aí os grupos de mídia. Num país de 180 milhões de pessoas, contamos nos dedos da mãos aqueles que definem os que os demais assistirão na tevê, por exemplo. Como o modelo da TV Digital foi escolhido por estes mesmos donos da bola, é possível que percamos a enorme oportunidade de distribuirmos bolas às pessoas. Se ficarmos como telespectadores passivos deste cenário, tudo o que teremos é um Vale a Pena Ver de Novo com a Narjara Tureta em altíssima resolução.
A esperanÇa pode estar na iptv, comandada pelos donos da bola das telecomunicações. Como eles não se forjaram em cima de um oligopólio das idéias (mas sim num oligopólio das redes de comunicação), estes grupos estão aptos a permitir uma internetizaÇão da TV.
A inclusão digital no Brasil não se dará por computadores. No Japão foram celulares. Aqui serão os televisores. Então nosso Youtube não nascerá na internet. Quando pudermos "ser", e não apenas "ver" nossa própria programação de tevê, aí sim seremos os donos da bola da mídia. E quando todos são os donos da bola, ninguém será "O" dono da bola. Parafraseando Renato Russo, para uma sociedade, o maior poder é quando ela se permite que ninguém tenha poder algum. Essa revolução não cairá sobre nosso colo, da mesma forma que ninguém nunca me escolheu para a lateral direita de seu time. Nós precisamos fazê-la acontecer. O momento é esse, e não dá para ficar ajeitando o meião, nem marcando o alambrado.Marcadores: cotidiano, filosofia, internet, trabalho
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