Minha gênese musical – Parte 1:a pré-história

“Tô trancado aqui no quarto
De pijama
Porque tem visita estranha na sala
Aí eu pego e passo a vista no jornal
Um piloto rouba um Mig
Gelo em Marte diz a Viking
Mas no entanto não há galinha em meu quintal
Compro móveis estofados
Me aposento com saúde
Pela assistência social”

Capa de Há 10 mil anos atrás, de Raul SeixasEnquanto eu saía do líquido quentinho de minha barriga-natal, Raul Seixas e Paulo Coelho pegaram um jornal e compuseram Eu também vou reclamar, música do álbum Eu nasci há dez mil anos atrás, lançado no mesmo ano, 1976. Descobri isso anos mais tarde, quando já ouvia Raul Seixas e pus as mãos em um exemplar do JB do dia de meu nascimento.

Pois olhe que curioso. As manchetes do Jornal do Brasil no dia em que nasci se tornaram versos que definiriam aquilo em torno do qual minha vida giraria:

  • Música
  • Jornalismo
  • Aventuras fantásticas: pilotos arrojados, sonhos, mocinhos e vilões
  • Ciência e tecnologia

    Sou filho dessa época. Da Guerra Fria, Comandos em Ação, Caverna do Dragão, da luta do “bem” contra o “mal”, seja lá quem incorpore cada alcunha.

    É realmente um tanto estranho ter seu nascimento e seu destino registrados numa letra de Raul Seixas e Paulo CoelhoÉ realmente um tanto estranho ter seu nascimento e seu destino registrados numa letra de Raul Seixas e Paulo Coelho. Especialmente se levarmos em conta o destino de ambos: um cemitério precoce e uma gorda conta-bancária capitalista para quem sonhava com uma Sociedade Alternativa. Não são exatamente dois tipos que você identifica como oráculos confiáveis.

    Na verdade, só fui começar a ouvir Raul bem depois do lançamento de Eu nasci… Não tenho qualquer recordação de meu universo musical nos anos 70. Mas os 80… ah, os 80. Eu fui criança na década de 80. E nessa fase, música não é a trilha sonora de nossa vida. É mais uma brincadeira, junto com o playmobil e o matchbox.

    Assim, tive meus discos de vinil da Xuxa, Balão Mágico, Clube da Criança. O favorito era a trilha sonora de Os Saltimbancos trapalhões.

    “Uma pirueta
    Duas piruetas
    Bravo, bravo
    Superpiruetas
    Ultrapiruetas
    Bravo, bravo
    Salta sobre
    A arquibancada
    E tomba de nariz
    Que a moçada
    Vai pedir bis
    Que a moçada
    Vai pedir bis”

    (Piruetas, Chico Buarque, 1981)

    Os pontos fora da curva nesta fase pré-musical são Perigo, de Zizi Possi (não me pergunte por que eu gostava tanto desta música. Não sei dizer) e os álbuns de meu pai (especialmente Queen e a trilha sonora de Roda de Fogo, aquela novela em que Tarcísio Meira tinha um coágulo no cérebro.)

    Eu tinha alguns compactos. Três, porém, eram os favoritos:

  • Bicicleta, de Marcos Valle (1984)
  • Um compacto flexível com os jingles do Big Mac e da Coca-Cola.

    “Não tem sabor como esse aqui, é demais!
    Refresca muito, muito mais!
    Mais e Mais!
    Pra sede logo desistir!
    É isso aí!
    Coca-cola é isso aí!”

  • E o compacto de Você não soube me amar, da Blitz (1982). O lado A tinha a música e o lado B não tinha nada. Assim, se você o botasse para tocar, podia ouvir o Evandro Mesquita falando “nada, nada, nada, nada…”.

    Minha relação com a música começou a mudar quando as prateleiras de discos infantis deixaram de me atrair, a palavra rádio passou a fazer parte de meu vocabulário e as festas de aniversário deixaram de ter temas, chapeuzinhos e correria pelo quintal.

    Na próxima parte desta autobiografia musical: os primeiros vinis de Rock, a descoberta de Michael Jackson, RPM e Fausto Fawcett, como a Guerra Fria trouxe minha primeira música de dor-de-cotovelo e as primeiras fitas K7.

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