Brogue do Cassano
 

10 Julho, 2006  

Capítulo 5: Seis bebês para o fim do mundo

No quinto capítulo do apocalipse mais doido de todos os tempos, as peças começam a se juntar. Nesta trama com mais personagens do que Duna e mais rocambolesca que novela de Silvio de Abreu, tudo pode acontecer. Até mesmo o dia mais esquisito da história.

Perdeu os capítulos anteriores? Então leia aqui:
- Prelúdio
- Capítulo 1
- Capítulo 2
- Capítulo 3
- Capítulo 4
Capítulo 5:

Helix fala:

Como pudemos ver até agora, o dia 6 do 6 de 2006 foi muito confuso, repleto de nascimentos e acontecimentos misteriosos. Há estudiosos que consideram o 06/06/2006 o dia mais esquisito da história, recorde que somente seria quebrado 24 horas depois, no dia 07/06/2006. Relato a seguir os principais acontecimentos daquela data, todos eles fundamentais no processo de “format c:” da terceira esfera ao redor do Sol.

05:33 – O Sol nasce sobre o Kilimandjaro. Yohana Lauwo penteia seu cabelo grisalho e o prende em longas tranças que vão até a cintura.
05:37 – Yohana Lauwo termina de pentear o cabelo, pega sua lança, coloca uma sacola feita de pele de gnu sobre seu bravo leopardo e parte rumo ao norte, encosta abaixo.
06:06 – Em Belgrado, Vanildo Helsing tenta reanimar sua esposa Amarilda, que insiste em desmaiar cada vez que vê seu pequeno filho recém nascido. Tudo isso porque o pequenino, no colo da parteira Rose Shelley, recita alguns cânticos em esperanto, lança impropérios contra a seleção húngara de 1954 e grita o nome de um tal de Damien.
06:08 – Em Knoxville, Tennessee, Estados Unidos, vinte milhões de pombos surgem no horizonte. Eles defecam sobre todos os carros da cidade, exceto sobre um velho Chevette mexicano caindo aos pedaços e estacionado ao lado de um celeiro abandonado. Lá dentro, cercado pelo aroma inconfundível de tacos e burricos, chora um neném recém-nascido. Um telefone celular toca.
08:15 – Yohana Lauwo e seu leopardo caminham resolutos e muito rapidamente pela savana africana, o vento do mediterrâneo acariciando as tranças do africano.
09:30 – Um repórter do Daily Telegraph é encontrado morto na casa de Suzanne Cooper. Em seu gravador ficaram registradas suas últimas palavras: “Tanzânia? O que a senhora vai fazer com seu filho na Tanzânia?”
10:15 – O departamento de Cobranças e Penitências informa por meio de nota oficial que Yohana Lauwo não consta em sua folha de pagamentos.
12:20 – O recém-nascido de Vanildo e Amarilda pede carne de carneiro para o almoço. E grita com voz esganiçada os nomes das 45 estrelas mais próximas do Sol.
13:53 – Todos os carros de Knoxville fervem misteriosamente. Exceto um velho Chevette.
14:59 – Apavorado, Vanildo Helsing deixa Amarilda desmaiada na cama e vai lavar o rosto no banheiro. Percebe que sua barba está mal-feita, que suas olheiras estão enormes e que ele não está na Tanzânia impedindo o fim do mundo, como havia planejado meses antes.
14:43 – O departamento de Ordem e Segurança, por meio de memorando timbrado em duas vias protocoladas, diz que Vanildo Helsing e Amarilda Stocker também não constam em suas folhas de pagamento.
15:07 – Um leopardo estaciona na porta de uma casa velha em Belgrado. É incrível como animais congelados e homens de mais de duzentos anos conseguem andar rápido quando a reformatação da esfera está em jogo.
15:09 – Vanildo Helsing percebe algo de estranho no espelho. Primeiro, algumas galáxias começam a se formar, e depois a se afastar uma das outras, produzindo um agradável efeito Doppler. Isso já teria sido sobrenatural o suficiente se não tivesse surgido no espelho, no meio das galáxias, um cara topetudo e desesperado, que golpeava o espelho (por dentro), querendo sair e gritando algo que Vanildo interpretou, fazendo uma rápida leitura labial, como: “Me tirem daqui! Está havendo um grave engano! Eu já deveria ter voltado para dar início à programação apocalíptica 23b, inciso J!”. Ou pelo menos foi o que Vanildo deduziu.
15:10 – Suzanne Cooper desembarca na Tanzânia com seu recém-nascido no colo. No aeroporto, um mexicano de camisa florida e chapéu panamá a espera, falando ao telefone com um primo em Knoxville, Tennessee. Ao ver Rose, desabafa: “Ah não, outro bebê!”
15:11 –Vanildo Helsing sai correndo do banheiro e se arrepende enormemente de ter deixado as galáxias do espelho para trás quando praticamente esbarra em um africano de 1,95, em trajes africanos, com uma bem-penteada trança até a cintura e uma lança numa das mãos.
– Yohana esperando você estava – Diz o africano, dando tapinhas no ombro de Vanildo.
Amarilda acorda. Olha para o neném, depois para Yohana, e desfalece. Enquanto isso, Rose Shelley sai da cozinha com uma cesta cheia de urubus, que oferece ao leopardo.
– Que gatinho bonitinho... – diz a parteira, acariciando o felino.
16:10 – Falta luz em Paris. 700 pessoas ficam presas no metrô.
17:15 – Toca o telefone na casa de Ruan Amaroto, em Barcelona. É telemarketing.
18:00 – Fim do expediente



09 Julho, 2006  

Sentido ou direção

Eu só procuro
Sentido
Eu só procuro
Sentido
ou direção

Sinto muito
Por favor, obrigado
De nada, volte sempre
Palavrinhas mágicas
Cartão de crédito
Imposto de renda
E nada faz sentido

Procuro instruções
Letras miúdas, contratos
Anexos, adendos
Cláusulas, clausuras
Oração e desespero
Ecstasy e hóstia
E nenhuma placa me indica a direção

Devolvo essa existência
Por defeito de fabricação
Ela veio sem manual,
Vivo sem instrução

Veio com peças que não se encaixam
Desaconselhável para menores de 83 anos
Se ao menos eu soubesse
Se ao menos eu soubesse
A direção

Eu só procuro
Eu só procuro
Sentido
ou direção

Pergunto a turistas perdidos na praça
Imersos em seus mapas e dicionários
e aos pivetes perdidos na praça
que dividem o espólio dos turistas

Pergunto a livros perdidos na praça
Ignorados, pegando chuva
Suas tintas se tingem, palavras escorrem
Poesia pelo ralo. Poesia no esgoto.
Palavras aos ratos.

Pergunto aos ratos,
Eles me falam em rima
E riem da ignorância
Dos que vivem cá em cima

Eu só procuro
Eu só procuro
Sentido
ou direção

Enquanto não acho sigo em frente
Sigo em frente e vivo em círculos
Na certeza de que parar é recuar
E que recuar é voltar ao começo
Onde não havia dúvidas
e eram poucas as esperanças

Bifurcações são o preço que paga
aquele que avança na estrada
Enquanto me perco espero
A luz salvadora e guia
Que me mostre o sentido
Que faça sentido
Ou direção

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04 Julho, 2006  

A quantas anda o fim do mundo?Permalink

A coisa nem chegou ao quinto capítulo e o "samba do Apocalipse doido" já está com o meio-de-campo todo embolado! Está na hora de amarrar algumas pontas soltas deste conto colaborativo escrito por mim e por Leonardo Paiva, antes que o mundo acabe mesmo e a história não chegue ao fim. Para isso, ninguém melhor que Hélix, que está tão preocupado com o andar da carruagem quanto a gente. Confira o quarto capítulo clicando aqui e veja só que conclusões o observador tirou de tudo isso:

Se você perdeu algum capítulo anterior, clique nos links abaixo:
- Prelúdio
- Capítulo 1
- Capítulo 2
- Capítulo 3



01 Julho, 2006  

A Seleção de um país que não entrou em campo

Como nós brasileiros, Ronaldinho Gaúcho lamenta, mas não faz nada para mudar
Escrevo após mais uma melancólica derrota da Seleção Brasileira para a França, comandada por um inspirado mago da bola chamado Zinedine Zidane. Se a derrota tivesse vindo de um arroubo de genialidade do mestre francês para desequilibrar uma partida equilibrada, as lágrimas teriam escorrido do mesmo jeito, mas de cabeça erguida.

Mas não foi o que o mundo viu. O mundo viu um Brasil apático. Um Brasil que não sabe o que significa lutar. Um Brasil que desconhece o sentido do coletivo. Que não honra a camisa. Que vê o outro somente como isso: o Outro.

De quem estamos falando? Dos onze jogadores de futebol em campo ou dos 180 milhões de técnicos que ficaram no Brasil? Porque o futebol apresentado em campo na Alemanha reflete muito bem o jogo sem objetividade que temos desenvolvido nestes últimos 500 anos.
O Brasil é uma ex-colônia que nunca chegou a ser nação. Uma terra de sem-terras sem pátria, onde zidanes nada talentosos roubam alegria, pão, saúde e esperança do povo, enquanto nossa zaga de pacatos cidadãos assiste inerte ao roubar da bola e ao rolar do dólar.

Esse Brasil minúsculo, que não olha o adversário nos olhos, que é Golias e se faz um David sem funda, aparece no gramado e nesses campos de Norte a Sul. Como no futebol, somos uma nação de talentos individuais, de Marcos, Vinícius, Edsons, reconhecidos lá e cá como “brasileiros que deram certo”. Tirando um que brilhou no espaço e outros tantos (Vinte? Cinqüenta? Mil?) que fazem bonito neste planeta, todo o resto somos 179 milhões e 900 mil anônimos fracassados, se regozijando com nossas modestas conquistas individuais, pulando carnaval e festejando nossas copas. Nesse caso, apenas quando o Brasil proto-nação não resolve entrar em campo.

A indignação e tristeza, nosso ar embasbacado cara-a-cara com um Galvão Bueno de olhos mareados salivantes, bem que poderia persistir ao longo dos anos. A empáfia e inépcia de brasileiros como Roberto Carlos contribuem para que sejamos um bando, nunca um time. Somos governados por Robertos Carlos sem visão de conjunto, sem amor à camisa e, principalmente, sem se importar com nossos corações, nossos futuros.

Enquanto se rouba lá e cá, enquanto passamos nossos dias sem levar a sério o que fazemos, enquanto assistimos a nossos adversários internos tocarem a bola, tão ignorantes de cultura e da vida como somos das conversas de vestiário, esticamos essa longa transição de quase duzentos anos entre a colônia e a nação. Um dia o Brasil será um país, uma nação, uma pátria. Ser brasileiro um dia significará mais que um estereótipo sorridente a fazer piruetas com a bola. Até lá, quem sabe já não seremos hexa, hepta, ou octa no futebol? Por que no ritmo lento e no toque de bola pro lado de nossa nação, essa vitória contra nossa própria vocação para o fracasso vai demorar a chegar.

P.S. Esse texto quase não foi para o ar, por censura de minha mais importante crítica, minha esposa. Uma brasileira de verdade, que não anda em campo, mas corre atrás da bola com fome feroz de virar esse jogo em que perdemos de goleada. A ela, como a muitos leitores, incomoda sermos chamados de pequenos, pertuba nosso centenário complexo de inferioridade, que pode sim estar me acometendo nesse dia de derrota. Por que estes Lúcios e Zé Robertos da vida são Golias que se agigantam. Pena que sejam poucos. Ou que estejam presos na zaga, no meio-campo, no ataque. Recebem bolas quadradas, ou vêem seus colegas entregando a redonda de bandeja para os adversários. Eu queria muito saber que estou errado. Que esse jogo dá para virar sim. Que essa torcida não fica apática. Quem vai, como gosta de dizer o Galvão, “chamar o jogo para si”? Ainda dá tempo.

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