Decolo sob nuvens plúmbeas de São Paulo
A cidade a esgueirar-se em pseudópodes de luz.
Não termina. Seu concreto negro invade o horizonte
por onde quer que olhe meu olhar ovalado da janela do avião.
A cidade não tem fim. Nem começo.
Não esbarra no sopé de uma montanha.
Não se banha numa espuma de mar.
Não abraça uma lagoa, um lago, um delta.
Simplesmente a cidade se espalha.
A cidade simplesmente resplandece.
Colméia de luzezinhas que piscam.
De artérias de elétrons que pulsam.
Que se ramificam, se entrelaçam.
Neurônios nervosos numa massa cinzenta
que escorre pelo horizonte,
Crânio rompido à bala. Estilhaço. Foguete. Doce no sinal.
Milhares de metros abaixo, a cidade-monstro brilha.
Inofensiva. Gigante.
Quilômetros de paulistas, de concreto, de travessas, de imigrantes, de marginais, de metáforas, de dólares, de sangue, de dores, de risos, de sotaques, de cores.
Quilômetros paulistas transbordando na pequena janela.
Sendo aos poucos devorados pelas nuvens de chumbo.
O gigante devorado pelo ar cinza que expira.
A luz se acende. Me servem um sanduíche.
Logo a Coca-Cola no copo denuncia a inclinação.
O Rio de Janeiro se aproxima.Marcadores: literatura, poesia