Tinha uma nuvem no meu quintal
Tinha uma nuvem no meu quintal.
Acordei e lá estava ela, do outro lado da janela.
Não chovia, nem trovejava ou relampeava – essas coisas que nuvens fazem.
Apenas nuveava, suave e delicada, se esgueirando por entre árvores, o cachorro do vigia e os esqueletos de prédios que alguém que nunca teve a cabeça nas nuvens vendeu mas não terminou de construir.
Do outro lado da janela, a nuvem nuveava.
E era estranho olhar para baixo e ver aquela cena que guardamos para o alto. Olhei para o alto e busquei gatos, grama, coisa de baixo. Nada. Apenas outras nuvens, que nuveavam no alto como minha nuvem nuveava no baixo.
Então surgiu o sol. E a nuvem se deu adeus. Dissipou-se sobre o cachorro, as árvores e os prédios sem gente e sem alma.
E assim terminou a história da nuvem que cansou do alto e veio nuvear aqui em baixo, do outro lado da janela.




