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04 Julho, 2008
O papel social dos blogs e a polêmica do "blog de aluguel"
O papel do jornalismo é levar informação e opinião para as pessoas.
Blogs não são jornalismo. Ou pelo menos não têm a menor obrigação de ser. Mas cada vez mais pessoas confiam nos blogs como fonte de informação.
Vocês se lembram por que os blogs cresceram? “Porque eram feitos por pessoas apaixonadas e não estavam sujeitos ao viés editorial da grande imprensa”. Foi a liberdade, a autonomia, que fez a blogosfera crescer.
Não porque traz reportagens apuradas por isenção, mas porque o blog é, em essência, opinativo.
E você confia numa opinião de uma pessoa física (vulgo ser humano), mas não de uma pessoa jurídica. Por quê? Não sei. Algum complexo capitalista/colonizado de que “pessoas são boas” e “empresas são más”.
Mas fato é que as pessoas pensam assim, concordemos ou não. E isso fez a blogosfera florescer, com sua enorme gama de gente incrível falando coisas fantásticas e gente idiota falando bobagem.
Mas aí uma coisa aconteceu. Os blogs - tão sem querer como artistas que de repente viram celebridades e se fascinam/espantam com o assédio – tomaram o papel social da imprensa de formadora de opinião.
O que faz um jornal ser um jornal? A estrutura administrativa da empresa? O poder de escrever coisas e imprimir em papel que suja a mão? Ou uma instituição com um papel definido na sociedade?
Quem assume – querendo ou não – um papel na sociedade arca com os ônus e os bônus disso. Preservar a integridade dessa relação é um deles.
Isso significa que devemos todos ser blogueiros filantrópicos-budistas-marxistas? Que devemos nos benzer ao ver uma nota de R$ 100? Chamar a polícia cada vez que um “mimo” chega na caixa de correio?
Não. Todo mundo tem o direito de ser reconhecido (financeiramente, inclusive) por aquilo que faz bem. E se isso acontece com um blogueiro, é porque ele passou a fazer parte de um mundo não de pessoas físicas, mas de pessoas jurídicas. Um mundo de transações. Com sua ética própria. Ônus e bônus próprios.
O que me parece é que adoramos o flash dos fotógrafos mas ficamos p* quando os fãs vêm pedir autógrafos. Nada contra quem quer brincar. Mas ou segue as regras ou nem desce pro play.
Receber um presente e fazer um post sem dizer que ele foi motivado pelo presente é trair o vínculo de confiança estabelecido com o leitor. Num blog meramente pessoal, ok. É seu “personal weblog”, você escreve o que quiser nele. Mas se ele passa a ter papel econômico (gera “receita”) e social (forma opinião), a coisa muda de figura. Reforço aqui que não sou contra os mimos, especialmente quando ele é o produto em si, enviado para ser degustado/resenhado. Mas se você ganha um produto B de presente e fala bem do produto A sem dizer a motivação para o “elogio”, isso não é opinião. É permuta. Jabá. Mesmo dizer discretamente, como os “publieditoriais”, é meio estranho.
Notaram? Há uma diferença sutil entre enviar seu produto para formadores de opinião (dar um livro, um ingresso para uma pré-estréia, convite para uma apresentação, test-drive exclusivo etc) e dar algo de valor monetário que não é o produto em si.
Receber a bacaninha geladeira da Coca-Cola não é pecado nenhum. É sinal de que o papel social como formador de opinião está sendo bem cumprido. Fazer um post, sem problema. Elogiar o produto sem falar do presente? Estranho. É se arriscar a receber, sim, a alcunha de “blog de aluguel”. Ou de "varal de release", como se diz na imprensa. O problema é quando se generaliza e rotula-se toda a blogosfera por alguns gatos pingados.
Mas isso só acontece porque estamos no meio de um processo, em um mercado imaturo ainda, que tem muito a crescer. As mídias geradas por usuários e as redes sociais são o fantástico e inevitável caminho da propaganda. Não fosse não teria eu mesmo migrado para uma empresa especializada nisso, e não distribuiria produtos a blogueiros (sim, eu faço isso) na esperança de que blogueiros gostem dos produtos que enviamos e resolvam falar bem deles. Ou que falem mal. Ou que não falem nada.
Como profissional de comunicação, faz sentido que eu queira mandar pro editor de um blog um produto bacana de um cliente meu que tenha tudo a ver com um blog de produtos bacanas. Faz sentido que eu imagine que o editor de um blog de coisas bacanas possa ter interesse em compartilhar essa coisa bacana com seu público. Se ele achar bacana. Se ele estiver a fim de postar.
Mas não deixa de assustar quando tentamos nos aproximar da área editorial de um blog e recebemos um mídia kit com o preço do post tabelado. Se esse é o futuro, é bom que isso seja combinado com todo mundo, até para que eu, como leitor, saiba quem é veículo de conteúdo e quem é “Páginas Amarelas”.
Pra terminar esse longo post, ressalto que blogueiro não tem que ter vergonha de ser formador de opinião e receber os louros e arpões inerentes a isso. Não temos que ver os blogs como terreno sagrado onde publicidade é pecado. Quero ganhar dinheiro pelo lado da agência e quero ver meus amigos blogueiros ricos. Mas todo poder traz sua devida dose de responsabilidade.
Está na hora de nos unirmos para fortalecer cada vez mais as redes sociais. Até porque, se a gente mata justamente aquilo que fez a blogosfera crescer (a ousadia, a personalidade, a identidade fragmentada em zilhões de blogs que se cruzam o tempo todo), ela morre. Estamos vendendo a raiz para pagar o adubo da planta!Marcadores: cotidiano, filosofia, internet, trabalho
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