O papel social dos blogs e a polêmica do "blog de aluguel"
O papel do jornalismo é levar informação e opinião para as pessoas.
Blogs não são jornalismo. Ou pelo menos não têm a menor obrigação de ser. Mas cada vez mais pessoas confiam nos blogs como fonte de informação.
Vocês se lembram por que os blogs cresceram? “Porque eram feitos por pessoas apaixonadas e não estavam sujeitos ao viés editorial da grande imprensa”. Foi a liberdade, a autonomia, que fez a blogosfera crescer.
Não porque traz reportagens apuradas por isenção, mas porque o blog é, em essência, opinativo.
E você confia numa opinião de uma pessoa física (vulgo ser humano), mas não de uma pessoa jurídica. Por quê? Não sei. Algum complexo capitalista/colonizado de que “pessoas são boas” e “empresas são más”.
Mas fato é que as pessoas pensam assim, concordemos ou não. E isso fez a blogosfera florescer, com sua enorme gama de gente incrível falando coisas fantásticas e gente idiota falando bobagem.
Mas aí uma coisa aconteceu. Os blogs – tão sem querer como artistas que de repente viram celebridades e se fascinam/espantam com o assédio – tomaram o papel social da imprensa de formadora de opinião.
O que faz um jornal ser um jornal? A estrutura administrativa da empresa? O poder de escrever coisas e imprimir em papel que suja a mão? Ou uma instituição com um papel definido na sociedade?
Quem assume – querendo ou não – um papel na sociedade arca com os ônus e os bônus disso. Preservar a integridade dessa relação é um deles.
Isso significa que devemos todos ser blogueiros filantrópicos-budistas-marxistas? Que devemos nos benzer ao ver uma nota de R$ 100? Chamar a polícia cada vez que um “mimo” chega na caixa de correio?
Não. Todo mundo tem o direito de ser reconhecido (financeiramente, inclusive) por aquilo que faz bem. E se isso acontece com um blogueiro, é porque ele passou a fazer parte de um mundo não de pessoas físicas, mas de pessoas jurídicas. Um mundo de transações. Com sua ética própria. Ônus e bônus próprios.
O que me parece é que adoramos o flash dos fotógrafos mas ficamos p* quando os fãs vêm pedir autógrafos. Nada contra quem quer brincar. Mas ou segue as regras ou nem desce pro play.
Receber um presente e fazer um post sem dizer que ele foi motivado pelo presente é trair o vínculo de confiança estabelecido com o leitor. Num blog meramente pessoal, ok. É seu “personal weblog”, você escreve o que quiser nele. Mas se ele passa a ter papel econômico (gera “receita”) e social (forma opinião), a coisa muda de figura.
Reforço aqui que não sou contra os mimos, especialmente quando ele é o produto em si, enviado para ser degustado/resenhado. Mas se você ganha um produto B de presente e fala bem do produto A sem dizer a motivação para o “elogio”, isso não é opinião. É permuta. Jabá. Mesmo dizer discretamente, como os “publieditoriais”, é meio estranho.
Notaram? Há uma diferença sutil entre enviar seu produto para formadores de opinião (dar um livro, um ingresso para uma pré-estréia, convite para uma apresentação, test-drive exclusivo etc) e dar algo de valor monetário que não é o produto em si.
Receber a bacaninha geladeira da Coca-Cola não é pecado nenhum. É sinal de que o papel social como formador de opinião está sendo bem cumprido. Fazer um post, sem problema. Elogiar o produto sem falar do presente? Estranho. É se arriscar a receber, sim, a alcunha de “blog de aluguel”. Ou de “varal de release”, como se diz na imprensa. O problema é quando se generaliza e rotula-se toda a blogosfera por alguns gatos pingados.
Mas isso só acontece porque estamos no meio de um processo, em um mercado imaturo ainda, que tem muito a crescer. As mídias geradas por usuários e as redes sociais são o fantástico e inevitável caminho da propaganda. Não fosse não teria eu mesmo migrado para uma empresa especializada nisso, e não distribuiria produtos a blogueiros (sim, eu faço isso) na esperança de que blogueiros gostem dos produtos que enviamos e resolvam falar bem deles. Ou que falem mal. Ou que não falem nada.
Como profissional de comunicação, faz sentido que eu queira mandar pro editor de um blog um produto bacana de um cliente meu que tenha tudo a ver com um blog de produtos bacanas. Faz sentido que eu imagine que o editor de um blog de coisas bacanas possa ter interesse em compartilhar essa coisa bacana com seu público. Se ele achar bacana. Se ele estiver a fim de postar.
Mas não deixa de assustar quando tentamos nos aproximar da área editorial de um blog e recebemos um mídia kit com o preço do post tabelado. Se esse é o futuro, é bom que isso seja combinado com todo mundo, até para que eu, como leitor, saiba quem é veículo de conteúdo e quem é “Páginas Amarelas”.
Pra terminar esse longo post, ressalto que blogueiro não tem que ter vergonha de ser formador de opinião e receber os louros e arpões inerentes a isso. Não temos que ver os blogs como terreno sagrado onde publicidade é pecado. Quero ganhar dinheiro pelo lado da agência e quero ver meus amigos blogueiros ricos. Mas todo poder traz sua devida dose de responsabilidade.
Está na hora de nos unirmos para fortalecer cada vez mais as redes sociais. Até porque, se a gente mata justamente aquilo que fez a blogosfera crescer (a ousadia, a personalidade, a identidade fragmentada em zilhões de blogs que se cruzam o tempo todo), ela morre. Estamos vendendo a raiz para pagar o adubo da planta!

Um exagereiro de palavras certas no momento certo.
Temos apenas que respeitar a individualidade, o direito de pensar e de formar opniões de cada um, sem rótulos e/ou qualquer outra coisa semelhante.
O importante é suprir esse necessidade de informações que temos.
Muito bom o artigo.
Abras,
Esse foi o melhor de muitos posts que já li sobre o assunto. Parabéns. Não conhecia o blog, cheguei aqui por um link do Twitter. Provavelmente do @crisdias.
Elogio dado (sincero, acredite), não posso deixar passa a oportunidade de te apresentar o meu blog. Falo sobre games no http://www.continue.com.br. Espero que goste dele e me mande presentes.
Ei, você disse que não era pra ter verhonha.
Boa.
Ok, mas tem uma coisa que eu acho absolutamente hipócrita e repetição da publicidade burra: tecer um comentário porque FOI PAGO para fazê-lo e não “porque é um produto legal”. Eu não vou legislar sobre o direito de ninguém fazer isso, todos são livres, mas pra mim é um demérito à qualidade de um blog, de um jornal, de uma pessoa, vender a opinião.
Esta dualidade pessoa natural (ou física) x pessoa jurídica é interessante.
Pretendo abordar isso futuramente, embora sob um outro enfoque. No entanto embora eu ande pensando sobre isso até agora não tinha lido nada.
Um abraço!
Roberto,
Pena você disponibilizar seus FEEDs apenas parcialmente. Assim é complicado de acompanhar seu blog.
Ainda assim parabéns.
EXCELENTE.
amplo, bem compreendido e bem dito. parabéns, e obrigado!
Melhor post sobre o assunto, parabéns.
Dica no @inagaki no twitter :)
Ei, o seu trabalho é mandar mimos pros blogueiros? Eu sou blogueiro! :-D Também quero mimos, USB ou não.
Falando sério, muito sensata a tua opinião. Eu iria escrever a respeito, mas honestamente enchi o saco dessa polêmica boba.
Assinei o feed.
Cassano você foi perfeito nas colocações. O único problema de tudo isso foi o BlueBus levantar a polêmica quando os blogs NÃO OCULTARAM o “presente”. Fomos injustamente acusados de “blogs de aluguel”, mesmo deixando claro que ganhamos o fruto da discórdia (mini-geladeira).
É importante salientar também que o conteúdo foi totalmente condizente e relevante para os blogs abordados. Não foi um post patrocinado, pois não foi pela geladeira que postamos, mas pela relevância.
O case vai além disso, basta ler um dos blogs pra entender toda a ação. SimViral, Comunicadores, Brainstorm, todos focaram o post no case, que por sinal é muito criativo e nos deu um conteúdo inédito.
O grande problema aqui não foi essa ação em específico, mas essa ferida aberta chamada posts publieditoriais ou patrocinados, que seja. Esse medo do assunto é que gerou (de novo) toda essa polêmica. Enquanto a ferida não for cicatrizada, vai continuar assim. A qualquer possível sinal de brindes ou dinheiro vão malhar o pau. Mesmo em quem não tem nada a ver com isso.
Abraço Cassano, parabéns pelo blog.
Show Cassano!
Hoje o dia foi uma loucura, tive que acompanhar a polêmica de longe. Mas o que eu queria dizer já foi escrito por você, e de maneira brilhante.
Perfeita a colocação, não poderia ter sido explicado de forma melhor essa situação toda.
Acertou no ponto… (e terminou com uma metáfora perfeita para a ocasião)
Ajudou muito a esclarecer, Roberto. Deixei meu ‘manifesto’ também, na forma de tirinha lá no site. E com link pra cá. Abraços,
Penso que toda iniciativa voltada para a divulgação dos Blogs é bem vinda, visto que, os blogs, a meu ver, serão no futuro próximo, o palanque das discussões das grandes questões que permeiam a história da humanidade no espaço /tempo, onde a argamassa do pensamento humano será problematizada de forma abusiva, intensiva, contínua, dentro de parâmetros, muitas vezes, diametralmente opostos, para um mesmo foco. Entendo que essa visão de futuro é por demais oportuna, pois o filtro ideológico de cada ser humano com certeza ficará mais aprimorado e a epistemologia genética da humanidade mais elastecida. Porém se existe grandes marcas do capitalismo interessada em divulgar seu produto, entendo como um ato positivo e Louvável, pois a internet deve atender a todos os segmentos da sociedade, o direito de todos de expressar suas opiniões, sugestões, comentários é tão somente a expressão da liberdade plena. Não vejo por que a resistência, pois os blogueiros s
erão sempre maioria, não uma maioria simples, não uma maioria aritmética, mas uma maioria atuante, combativa, atuante, mas com certeza uma maioria democrática. Assim compreendo que devemos primeiro “esparar as águas baterem para que todos nós possamos estudar as espumas”
Luiz Domingos de Luna, Mestre de Ordem, Ordem Santa Cruz-Penitentes-forania de Aurora ceará aos 21 dias do mês de Julho,2008
http://www.meninodeusaurora.com.br
http://www.revistaaurora.com
Muito elucidativa esta postagem. Garotas do Projeto Passos da Natureza diriam: Tocou na “ferida”. Blogs são uma revolução como o Super-Man era para a América; i.é., o direito de livre expressão, ou de comunicação por gosto, por reflexão. Até os grilos e preás se comunicam para “sentirem-se” vivos e fugirem da solidão e da pressão do viver.