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Ciborgues em rede – as redes sociais e o mito do homem-máquina

8 de fevereiro de 2010

Lá está ela sobre a mesa, o encarando. Branca, pálida, com enunciados que zombam de você. Eles sabem a verdade. Sabem que você não sabe o que eles sabem. No caso, eles sabem a resposta, e você não. A professora caminha por entre as fileiras de carteiras de madeira, seus colegas concentrados, o barulho do grafite rascunhando somas, multiplicações, divisões. E os enunciados das questões zombando de você.

Você trava. “Quanto é 8 vezes 7?”. A resposta não vem. Você repassa mentalmente a tabuada, mas se perde antes de chegar lá. A professora passa por você. Desta vez, o cálculo vem rápido: “faltam umas cinco carteiras até ela se virar novamente. Dá tempo.” Você força o lápis contra a mesa. A ponta se quebra. Então, discretamente leva os dedos até o estojo. Puxa o zíper com cuidado para não fazer qualquer barulho. Enquanto os dedos tateiam sem pressa pelo apontador, os olhos vasculham o interior do estojo, em busca do lápis-tabuada. Lá está a resposta. Você aponta seu lápis e escreve “56” na prova.

Quase todo mundo já recorreu aos préstimos do lápis-tabuada, ou do colega da carteira da frente. O que fizemos, nessas situações, foi recorrer a uma ferramenta externa – o lápis ou os neurônios do colega – para ampliar nossos sentidos, nossas habilidades ou capacidades físicas.

Macacos e humanos possuem cérebros mais desenvolvidos que a maioria dos seres vivos. Some o cérebro a polegares opositores e você tem espécies animais plenamente adaptadas à invenção e ao uso de ferramentas. O monolito de 2001 – Uma Odisséia no Espaço, que motiva os saltos evolutivos, faz com que o neanderthal perceba que ossos de mamute podem dar excelentes porretes e, com isso, ele ganha vantagem na luta pela sobrevivência. O lápis-tabuada, no dia da prova de matemática, cumpriu exatamente o papel do osso pré-histórico em 2001. A diferença é que você não precisou golpear a professora com o lápis até ela te dar uma nota 10.

Costumamos associar tecnologia a coisas que piscam, têm fios e custam caro. Na prática, quaisquer ferramentas que ampliam nossos sentidos e capacidades – de ossos de mamute a iPhones – são tecnologias. E quando a tecnologia e a ferramenta se tornam tão íntimas de nós, tão ligadas a nossos cérebros, ela se torna parte de nós. Nós viramos ciborgues.

Todo taxista é um Robocop
Se você dirige, parabéns, você é praticamente um Robocop. Você não pensa: “vou girar o volante 30 graus, pressionar o pedal direito uns quatro centímetros, soltar o pé dois centímetros, pisar com o pé esquerdo o máximo que puder e mover esta alavanca da posição superior esquerda para esta imediatamente à direita e inferior”. Você simplesmente faz a curva e engata a segunda. O carro é uma extensão de seu corpo.

O mesmo vale para lápis, canetas, o mouse e, agora, a internet e as redes sociais.

Eu tenho uma memória horrível. Ruim mesmo. Há tempos brinco que terceirizei meu cérebro com o Google para livrar neurônios para coisas mais importantes. E é meio que verdade. Eu já não preciso saber dados exatos, números de telefone, endereços. Só preciso saber usar a discreta caixa sobre fundo branco, de onde surgem todas as respostas.

Se você não está no Orkut, você não faz aniversário
Dia desses ouvi uma frase que achei tão divertida quanto simbólica: “Se você não está no Orkut, você não faz aniversário”. Faz sentido. Quando decidimos nos tornar dependentes dos telefones celulares, passamos a não saber mais nenhum número de telefone de cor. Agora, as agendas de papel foram definitivamente enterradas, já que recorremos aos avisos do Orkut – e de outras redes sociais – para saber quando é o aniversário de nossos amigos. Terceirizamos com o Google inclusive nossa memória afetiva. E quanto mais nos sentirmos à vontade com esta relação, mais ciborgues seremos.

O celular é um excelente exemplo da simbiose homem-máquina. Os heavy users manipulam seus aparelhos sem sequer olhar para eles. Sabem exatamente onde está cada coisa e liberam importantes áreas do cérebro para raciocinar sobre outras coisas. Usar o celular se torna um processo mecânico, como caminhar, descascar uma banana ou amarrar os sapatos.

Será que, além de alertar aniversários dos amigos, as redes sociais produzem a mesma relação? O que acontecerá conosco conforme deixarmos de terceirizar nossos cérebros com máquinas e passarmos a terceirizar nossos cérebros mais e mais com outras pessoas – algumas próximas como os colegas da escola, outras desconhecidas no outro lado do planeta?

Nasce o homem-humano?
Será de fato o nascimento de um novo ciborgue? Não um homem-máquina, mas o ciborgue homem-humanidade? Será que precisamos mergulhar de cabeça numa Matrix tecnológica para nos conectarmos aos outros humanos?

Pois há indícios que nos ajudam a pensar desta forma.

No RPG Dungeons & Dragons, o Observador (Beholder) é um monstro dos mais cascudos. Ele é uma esfera flutuante com centenas de olhos, e essa capacidade de ver em todas as direções, além de um raio petrificante, fazem dele um inimigo cruel. Em O Senhor dos Anéis, inspiração para o próprio D&D, as palantíri eram espécies de bolas de cristal, usadas apenas por reis e grandes magos, para, entre outras coisas, poder observar o que se passava em terras distantes.

As redes sociais fizeram com que nossos computadores mais triviais, que nossos celulares e videogames se transformassem em palantíris. A cada instante, milhares de fotos são tiradas em câmeras digitais e celulares ao redor do mundo. E uma parcela cada vez maior dessas fotos têm destino certo: a “nuvem”, como é chamada a camada de serviços em rede que disponibilizam acesso a conteúdo de e para qualquer lugar.

O Olho do Observador
As fotos que são capturadas e enviadas para redes sociais como o Twitter, por exemplo, tem por característica o imediatismo. Não são fotos elaboradas e artísticas, comuns às comunidades de imagem, como o Flickr. São registros – muitas vezes sem foco ou enquadramento adequado – do agora. Aqui, hoje, ao vivo. Quando se resolve acompanhar a timeline – seqüência de imagens postadas a cada instante, independentemente do autor –, o resultado é um sentimento de voyerismo extremo, mágico como numa bola de cristal. Temos a sensação – quase real e acertada – de estarmos vendo o mundo todo, agora, ao vivo. Não por câmeras instaladas em monumentos e praças, mas na intimidade de gente de toda a parte. Polaróides daquilo que pessoas de todo tipo julgaram relevante de ser compartilhado, de ser registrado, de ser preservado.

Também ligado ao Twitter e reforçando o famoso “jeitinho brasileiro” está um serviço informal de alertas que se utiliza da agilidade dos microblogs e da possibilidade de atualização da rua, por meio de celulares, para compartilhar a localização de blitzes policiais com bafômetros. Desta forma, pessoas dispostas a correr o risco de consumir álcool e dirigir podem evitar os bloqueios policiais da Operação Lei Seca.

É claro que o exemplo aqui é de algo no mínimo irresponsável e ilegal. Espancar pessoas com ossos de mamutes também não devia ser algo bacana nem na pré-história. Bombas atômicas nunca foram divertidas. Seria leviano achar que só usaríamos tecnologia para fins benéficos e altruístas. O fato é que, usando redes sociais e os neurônios dos amigos, estamos adquirindo poderes, como a famosa Percepção Extra-sensorial (PES), um sexto sentido que nos torna homens-aranha, capazes de notar quando um perigo se aproxima. Mesmo que esse perigo seja justamente a Lei.

Usaremos a simbiose homem-humanos para o mal? Para a criação de uma sociedade padronizada e pasteurizada? Correremos risco do controle por algum Grande Irmão? Ou seremos capazes de coisas antes restritas aos magos da ficção? Será que um dia, como no livro Neuromancer, de William Gibson, vamos mudar nossa alma para a máquina, como um software buscando um novo hardware, mais potente, durador e com menos bugs e limitações?

Nos idos de 1999, o hiperconectado jornalista Carlos Alberto Teixeira, o C.A.T. antecipava: “Um dia, todo mundo ainda vai implantar um chip no quengo”. A minha dúvida não é se um dia isso vai mesmo acontecer. A questão é: já aconteceu?

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  1. fevereiro 8th, 2010 at 21:32 | #1

    Adorei o post, acho que essa é a fronteira das reflexões dos mais visionários no momento: já viramos ciborgues?

    Outro dia me pediram para falar de ciberpunk e a Internet e acabei me tocando que esse papo de fusão entre carne e bit não é novo. Tem os cilônios modernos, os borgs e até o Pinóquio como o Gil Giardelli sempre lembra.

    Concordo com você. Ainda não implantamos os chips em nossos corpos, mas com certeza a cada dia estamos mais “chipados” e falta muito pouco para se tornar comum ter implantes cibernéticos em nossos corpos… E nem vamos notar que aconteceu, isso é o mais engraçado ;)

    O que eu ainda não tinha pensado é que essa tecnologia toda talvez tenha como objetivo central nos transformar em um tipo de coletividade borg conectando humanos a humanos… Brilhante esse seu insight!

    Tenho procurado uma palavra para os novos humanos porque homociber não soa bem, cibersapiens seriam os cilônios (provavelmente bisnetos do casamento do Google com o WolframAlpha. Talvez homo-conectus fosse um bom nome se não fizesse pensar em cactus ;)

  2. fevereiro 8th, 2010 at 22:56 | #2

    Cassa,
    excelentes reflexões, questões que mostram se de fato se a capacidade humana é superior à tecnologia. Quais são os limites e extensões do nosso corpo? Isso é bem McLuhan e tenho que confessar que te ver escrevendo sobre extensões me enche de orgulho. Eu sempre acredito que não nos tornaremos ciborgues, afinal de contas, como vc mesmo exemplifica no texto, somos muito melhores que eles. Quanto tempo vamos levar para aprimorar nossas sensorialidades e capacidades cognitivas por meio das tecnologias é que é o grande X da questão. Um dia vai acontecer.

  3. Rubens Ghidini
    março 18th, 2010 at 07:32 | #3

    É Beto Barata!
    Eu, assim como você, testemunha da Idade Média da informação, não consigo deixar de me surpreender a cada dia com as mudanças que estão ocorrendo, como explicita seu artigo. Mas você, como sempre, tem a sutileza e a acuidade de conseguir percebê-las e analisá-las de forma clara e objetiva… Show de bola: RPGs, lápis-tabuada, beholders… Memórias felizes. Abraços!

  4. Natasha
    março 18th, 2010 at 11:41 | #4

    Excelente!

  5. Sergio Keller
    junho 1st, 2010 at 15:35 | #5

    Ahhh… tinha esquecido… William Gibson é foda!

  6. Sergio Keller
    junho 1st, 2010 at 18:43 | #6

    É por isso que eu sinto orgulho de ter sido padawan desse cara (não faz muito tempo inclusive). Quase chorei quando cai no seu blog (por search, vide bem), e li um artigo misturando “Olhares sobre a cibercultura”, “D&D”, uma citação subliminar à “Eyes of the beholder”, “Senhor dos anéis”, “Neuromancer” e “2001″… e, claro, lápis tabuada (usei muito em prova e pra calcular ficha de personagem…)

    Mas ainda assim Cassano… no final… só pode haver um.

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