Murais: retalhos que não viram colchas

Sempre que algum projeto inovador surge e toma a dianteira do mercado de forma inegável, suas características mais marcantes deixam de ser um retrato do que pensam seus criadores/executivos para ser uma verdade absoluta, um modelo a ser seguido ao pé da letra por quem quiser triunfar no mercado.

Foi assim com o navegador Netscape, com os maiores sucessos da Apple, com o Yahoo!, com o Google e também com oFacebook. E é o mural sua característica mais forte, e a área que ocupa a maior parte da tela e do tempo de quem entra no site. O mural, assim como a timeline do Twitter, é o espaço onde os fragmentos de informação de cada membro da rede social se juntam.

Isso é a magia da rede social e – como o recurso é cada vez mais copiado – das redes sociais em geral. Mas é também seu grande ponto fraco. Ao se reunirem na tela por critérios diversos, como cronológicos, popularidade ou relevância, os fragmentos continuam sendo apenas isso. Pedaços. O mural não é nem uma colcha de retalhos, é uma cesta cheia deles, esperando para serem costurados. Ou não.

Já se falou muito sobre isso, e longe de mim vir aqui atacar de crítico da comunicação digital, mas ao contrário de fóruns, de alguns blogs, das antigas comunidades do Orkut ou outros ambientes digitais que permitem uma troca constante de informações entre um grupo restrito de pessoas, o formato mural não permite que se construa uma ideia sobre pensamentos de outros de forma simples e natural.

É difícil dar sequencia a um pensamento sobre uma ideia postada por alguem quando, segundos depois, você é bombardeado por setas dizendo que  a pessoa acima jamais fez alguma coisa ou um vídeo com uma repórter de TV sendo expulsa do ar por um bando de idiotas.

Ao contrário dos fóruns, dos antigos BBS ou outros temas onde fugir da pauta era considerado fazer um “off-topic” (literalmente, “fora do tópico”), o mural é essencialmente uma coleção de off-topics.

É claro que muitas coisas bacanas são criadas o tempo todo no Twitter ou no Facebook, mas, especialmente neste último, a mecânica da rede dificulta isso. Como cada vez dedicamos mais tempo a este formato de rede social, que se tornou uma verdade absoluta, o resultado é preocupante para quem defende e acredita que as redes sociais podem ser fundamentais para a consolidação de uma cultura de colaboração, participação e igualdade.

O modelo mural é rico para a disseminação de informações, de bandeiras ideológicas, para convocar adeptos a campanhas, abaixo assinados e ações populares em geral, mas é fraco e inadequado para a construção do conhecimento, autoria coletiva e a construção de fragmentos inacabados de ideias ou conteúdos que em si não tem vida, mas que estão apenas esperando a outra ideia que os completarão em algo inovador.

Mas cada vez mais o Facebook (liderando um batalhão de clones ou outras redes igualmente inovadoras mas que se renderam ao apelo do líder) se vende e é entendido como Uma Rede Para Todos Governar, o que é uma falácia. O Facebook é uma fantástica ferramenta de entretenimento, mas não pode substituir todas as outras ferramentas. Ele pode até se prestar a conteúdos mais aprofundados, mas não é feito para isso. Entretenimento é ótimo, sou, como usuário, apaixonado pelo Facebook, mas diversão não é tudo. A gente também quer comida, arte, fazer amor. Ele é fantástico naquilo a que se destina. O problema somos nós, que teimamos em ver nele a solução para todos os nossos problemas e a cura para a espinhela caída.

O mural é feito para se assistir tentando acompanhar a velocidade das letras, como créditos finais de filmes, só que interessantes e divertidos. Murais são passatempos. Com as mudanças na interface, pode-se apenas sentar em frente à tela e assistir ao vivo à vida e ideias de sua rede de contatos. Como no Twitter. O formato mural permite que sejamos para a internet o que os americanos chamam de couch potato, uma batata de sofá, inerte em frente à tela. Podemos ficar horas consumindo conteúdo e, ao final, não nos lembrarmos de nenhuma informação em especial.

Existe, sim, como criar e consumir conteúdo de forma mais organizada e integrada. As ferramentas para isso estão em todo lugar: hashtags no Twitter, grupos no Facebook e LinkedIn, comunidades no Orkut, fóruns e wikis. O problema é que, para chegar lá, é preciso passar por um buraco negro de tempo e atenção chamado mural. A lâmpada brilhante, divertida e atraente que nós, insetos, aprendemos a amar.

Publicado originalmente no Techtudo, em 01/11/2011.

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