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Arquivo da categoria ‘Filosofia’

Paulo Barros e o mashup como forma de inovar

fevereiro 17th, 2010

Não entendo muito de carnaval (até desfilei uma vez, mas isso é outra história), mas curto acompanhar os desfiles. E desde o carnaval 2007, quando apresentou um enredo sobre fotografia, sou fã da Unidos da Tijuca. Este ano, depois de muito bater na trave, a agremiação faturou o carnaval do Rio de Janeiro. Paulo Barros, o carnavalesco, mais uma vez é incensado por público e pela imprensa. O que ele tem de especial?

Desfile da Unidos da Tijuca / Carnaval 2010Paulo Barros não vive 100% o mundo do carnaval. Isso é visível em seu discurso e em suas referências. Ele vive em diversos mundos, como a maioria de nós. Olha o mundo e suas tendências como inspiração. E, mais que tudo, Paulo Barros entendeu que vivemos a era do mashup.

Seus desfiles saem da mesmice e encantam porque não procuram inovar dentro do repertório repleto de “miscigenação”, índios, e “… é carnaval!”. Ele busca inovar trazendo elementos corriqueiros de outros universos.

Sua premiada comissão de frente com bailarinos fazendo seis trocas de roupa a cada dois minutos nada mais é do que um truque do mundo do ilusionismo. O mesmo caminho levou Jack Sparrow, Batman, Michael Jackson e Homem-Aranha para a Avenida. Seus desfiles trazem elementos do teatro, do cinema, dos quadrinhos.

O enredo foi sugerido por um adolescente, via Orkut. Paulo Barros não fala de internet de forma caricata e desentendida, como fez a Portela este mesmo ano. Ele traz a internet como linguagem, como cultura.

O segredo de Paulo Barros é a mistura. Ele cria a partir não das referências que desenterrou de gravuras da época de Cabral, ou de lendas indígenas desconhecidas. Ele cria a partir das referências que cada um de nós, que não vive 100% carnaval, temos. Paulo descobriu que é muito mais fácil e inovar pelo mashup do que por variações sobre o mesmo tema.

Se você quiser inovar, ser um Paulo Barros na sua indústria, tente descobrir o que é seu carnaval e que elementos você pode trazer dos carnavais dos outros.

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Ciborgues em rede – as redes sociais e o mito do homem-máquina

fevereiro 8th, 2010

Lá está ela sobre a mesa, o encarando. Branca, pálida, com enunciados que zombam de você. Eles sabem a verdade. Sabem que você não sabe o que eles sabem. No caso, eles sabem a resposta, e você não. A professora caminha por entre as fileiras de carteiras de madeira, seus colegas concentrados, o barulho do grafite rascunhando somas, multiplicações, divisões. E os enunciados das questões zombando de você.

Você trava. “Quanto é 8 vezes 7?”. A resposta não vem. Você repassa mentalmente a tabuada, mas se perde antes de chegar lá. A professora passa por você. Desta vez, o cálculo vem rápido: “faltam umas cinco carteiras até ela se virar novamente. Dá tempo.” Você força o lápis contra a mesa. A ponta se quebra. Então, discretamente leva os dedos até o estojo. Puxa o zíper com cuidado para não fazer qualquer barulho. Enquanto os dedos tateiam sem pressa pelo apontador, os olhos vasculham o interior do estojo, em busca do lápis-tabuada. Lá está a resposta. Você aponta seu lápis e escreve “56” na prova.

Quase todo mundo já recorreu aos préstimos do lápis-tabuada, ou do colega da carteira da frente. O que fizemos, nessas situações, foi recorrer a uma ferramenta externa – o lápis ou os neurônios do colega – para ampliar nossos sentidos, nossas habilidades ou capacidades físicas.

Macacos e humanos possuem cérebros mais desenvolvidos que a maioria dos seres vivos. Some o cérebro a polegares opositores e você tem espécies animais plenamente adaptadas à invenção e ao uso de ferramentas. O monolito de 2001 – Uma Odisséia no Espaço, que motiva os saltos evolutivos, faz com que o neanderthal perceba que ossos de mamute podem dar excelentes porretes e, com isso, ele ganha vantagem na luta pela sobrevivência. O lápis-tabuada, no dia da prova de matemática, cumpriu exatamente o papel do osso pré-histórico em 2001. A diferença é que você não precisou golpear a professora com o lápis até ela te dar uma nota 10.

Costumamos associar tecnologia a coisas que piscam, têm fios e custam caro. Na prática, quaisquer ferramentas que ampliam nossos sentidos e capacidades – de ossos de mamute a iPhones – são tecnologias. E quando a tecnologia e a ferramenta se tornam tão íntimas de nós, tão ligadas a nossos cérebros, ela se torna parte de nós. Nós viramos ciborgues.

Todo taxista é um Robocop
Se você dirige, parabéns, você é praticamente um Robocop. Você não pensa: “vou girar o volante 30 graus, pressionar o pedal direito uns quatro centímetros, soltar o pé dois centímetros, pisar com o pé esquerdo o máximo que puder e mover esta alavanca da posição superior esquerda para esta imediatamente à direita e inferior”. Você simplesmente faz a curva e engata a segunda. O carro é uma extensão de seu corpo.

O mesmo vale para lápis, canetas, o mouse e, agora, a internet e as redes sociais.

Eu tenho uma memória horrível. Ruim mesmo. Há tempos brinco que terceirizei meu cérebro com o Google para livrar neurônios para coisas mais importantes. E é meio que verdade. Eu já não preciso saber dados exatos, números de telefone, endereços. Só preciso saber usar a discreta caixa sobre fundo branco, de onde surgem todas as respostas.

Se você não está no Orkut, você não faz aniversário
Dia desses ouvi uma frase que achei tão divertida quanto simbólica: “Se você não está no Orkut, você não faz aniversário”. Faz sentido. Quando decidimos nos tornar dependentes dos telefones celulares, passamos a não saber mais nenhum número de telefone de cor. Agora, as agendas de papel foram definitivamente enterradas, já que recorremos aos avisos do Orkut – e de outras redes sociais – para saber quando é o aniversário de nossos amigos. Terceirizamos com o Google inclusive nossa memória afetiva. E quanto mais nos sentirmos à vontade com esta relação, mais ciborgues seremos.

O celular é um excelente exemplo da simbiose homem-máquina. Os heavy users manipulam seus aparelhos sem sequer olhar para eles. Sabem exatamente onde está cada coisa e liberam importantes áreas do cérebro para raciocinar sobre outras coisas. Usar o celular se torna um processo mecânico, como caminhar, descascar uma banana ou amarrar os sapatos.

Será que, além de alertar aniversários dos amigos, as redes sociais produzem a mesma relação? O que acontecerá conosco conforme deixarmos de terceirizar nossos cérebros com máquinas e passarmos a terceirizar nossos cérebros mais e mais com outras pessoas – algumas próximas como os colegas da escola, outras desconhecidas no outro lado do planeta?

Nasce o homem-humano?
Será de fato o nascimento de um novo ciborgue? Não um homem-máquina, mas o ciborgue homem-humanidade? Será que precisamos mergulhar de cabeça numa Matrix tecnológica para nos conectarmos aos outros humanos?

Pois há indícios que nos ajudam a pensar desta forma.

No RPG Dungeons & Dragons, o Observador (Beholder) é um monstro dos mais cascudos. Ele é uma esfera flutuante com centenas de olhos, e essa capacidade de ver em todas as direções, além de um raio petrificante, fazem dele um inimigo cruel. Em O Senhor dos Anéis, inspiração para o próprio D&D, as palantíri eram espécies de bolas de cristal, usadas apenas por reis e grandes magos, para, entre outras coisas, poder observar o que se passava em terras distantes.

As redes sociais fizeram com que nossos computadores mais triviais, que nossos celulares e videogames se transformassem em palantíris. A cada instante, milhares de fotos são tiradas em câmeras digitais e celulares ao redor do mundo. E uma parcela cada vez maior dessas fotos têm destino certo: a “nuvem”, como é chamada a camada de serviços em rede que disponibilizam acesso a conteúdo de e para qualquer lugar.

O Olho do Observador
As fotos que são capturadas e enviadas para redes sociais como o Twitter, por exemplo, tem por característica o imediatismo. Não são fotos elaboradas e artísticas, comuns às comunidades de imagem, como o Flickr. São registros – muitas vezes sem foco ou enquadramento adequado – do agora. Aqui, hoje, ao vivo. Quando se resolve acompanhar a timeline – seqüência de imagens postadas a cada instante, independentemente do autor –, o resultado é um sentimento de voyerismo extremo, mágico como numa bola de cristal. Temos a sensação – quase real e acertada – de estarmos vendo o mundo todo, agora, ao vivo. Não por câmeras instaladas em monumentos e praças, mas na intimidade de gente de toda a parte. Polaróides daquilo que pessoas de todo tipo julgaram relevante de ser compartilhado, de ser registrado, de ser preservado.

Também ligado ao Twitter e reforçando o famoso “jeitinho brasileiro” está um serviço informal de alertas que se utiliza da agilidade dos microblogs e da possibilidade de atualização da rua, por meio de celulares, para compartilhar a localização de blitzes policiais com bafômetros. Desta forma, pessoas dispostas a correr o risco de consumir álcool e dirigir podem evitar os bloqueios policiais da Operação Lei Seca.

É claro que o exemplo aqui é de algo no mínimo irresponsável e ilegal. Espancar pessoas com ossos de mamutes também não devia ser algo bacana nem na pré-história. Bombas atômicas nunca foram divertidas. Seria leviano achar que só usaríamos tecnologia para fins benéficos e altruístas. O fato é que, usando redes sociais e os neurônios dos amigos, estamos adquirindo poderes, como a famosa Percepção Extra-sensorial (PES), um sexto sentido que nos torna homens-aranha, capazes de notar quando um perigo se aproxima. Mesmo que esse perigo seja justamente a Lei.

Usaremos a simbiose homem-humanos para o mal? Para a criação de uma sociedade padronizada e pasteurizada? Correremos risco do controle por algum Grande Irmão? Ou seremos capazes de coisas antes restritas aos magos da ficção? Será que um dia, como no livro Neuromancer, de William Gibson, vamos mudar nossa alma para a máquina, como um software buscando um novo hardware, mais potente, durador e com menos bugs e limitações?

Nos idos de 1999, o hiperconectado jornalista Carlos Alberto Teixeira, o C.A.T. antecipava: “Um dia, todo mundo ainda vai implantar um chip no quengo”. A minha dúvida não é se um dia isso vai mesmo acontecer. A questão é: já aconteceu?

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Paul: o primeiro e o último

fevereiro 7th, 2010

All the Best!, uma coletânea da carreira-solo de Paul McCartney até meados dos anos 90, foi meu primeiro CD. Lembro de cada segundo de fascinação com o disco prateado, o som sem ruídos, sem risco de a fita embolar. Isso foi em 1992 e eu tinha acabado de ganhar um trambolhudo CD Player CCE. Daí em diante foram anos de consumo quase compulsivo das bolachinhas cintilantes.

Capa do CD Good Evening New York, de Paul McCartney

O último CD que eu compro?

18 anos depois faço algo que há muitos meses não fazia: compro um CD. É Good Evening New York, registro de uma (espetacular) performance de vovô-Paul nos Estados Unidos, em 2009. Chego em casa e repito o ritual de quase duas décadas: Tiro o plástico, vejo o encarte, me delicio com fotos, com a arte, com a experiência do produto físico, real, palpável.

Então me dou conta de que esse pode ser o último CD que eu compro. Salvo em ofertas com preços imbatíveis ou em pacotes atraentes (este Paul é um álbum duplo, mais um DVD do show), já não faz sentido comprar CDs, levar para casa e ripá-los. Mais simples seria baixá-los, legalmente mesmo. O CD físico não é mais de onde a música sai magicamente. É apenas o backup dos arquivos digitalizados que ouvimos no PC, no celular ou nas nuvens, via Last.fm.

Bate uma saudade, uma certa nostalgia. Lá na virada dos anos 90 para os 2000, nos primeiros debates sobre MP3, Bruno Gouveia, líder do Biquíni Cavadão e nerd assumido, escreveu sobre o tema em uma revista que eu editava. Ele levava fé no MP3 mas com ressalvas. “O MP3 não deve substituir o álbum, o CD, em todos os casos. Imagina você perder o álbum branco dos Beatles num crash do HD!”, disse ele.

Hoje o álbum branco está nas nuvens, dos torrents aos serviços legais. Está em videogames. Nenhuma destas experiências substitui a inauguração de um CD recém-comprado. Nenhuma delas substitui o cheiro do álbum guardado décadas, as marcas do tempo, o ingresso do show devidamente guardado ali.

Mas não posso esquecer que construí essas referências no primeiro contato com Paul, 18 anos atrás. No momento em que uma moribunda indústria nascia. No momento em que eu amadurecia como consumidor de música. Por mais que nossa geração tenha triplicado o tempo em que alguém se considera jovem, não dá para negar que, pelo menos no que diz respeito à relação com o produto música, todos da minha idade pra cima são tiozões. Ou vovozões como Paul McCartney. E o futuro da música não será composto por nós.

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Como identificar um dono de smartphone?

novembro 14th, 2009

Smartphones são aqueles celulares que agregam tantas funções que viram poderosos computadores de bolso, demandam uma Itaipu de energia para funcionarem e, em geral, são péssimos telefones. Mas quem tem, não vive sem (rima horrorosa). Tanto que dá para identificar fácil-fácil quem é dono de um iPhone, Android ou afim:

O dono de smartphone:

  1. Ao entrar em qualquer ambiente desconhecido, ele checa todo o perímetro da sala em busca de tomadas onde possa recarregar a bateria;
  2. Ele desenvolve uma incrível capacidade de andar e desviar de objetos enquanto se concentra totalmente em responder a uma piada por e-mail ou procurar por menções a si mesmo no Twitter;
  3. Ele aprende (ou acha que aprende) a dirigir enquanto digita com as duas mãos no aparelho;
  4. Ele não acha seu aparelho grande. As calças é que têm bolsos cada vez menores!
  5. Foi banido de gincanas culturais em bares por uso excessivo de Wikipedia;
  6. Ao conhecer novas pessoas, busca desesperadamente uma desculpa para fazer contas, ver as horas ou checar o trânsito no aparelho. Pode apresentar tremedeiras ou suor frio se, em alguns segundos, ninguém perguntar “Que aparelho é esse?”;
  7. Mesmo com sol forte lá fora, ele sai de guarda-chuva se esta for a previsão do tempo no smartphone;
  8. Não existe horário estranho para responder um e-mail. De preferência com o aviso de “Enviado de meu smarphone”;
  9. Ele tem o telefone do adido cultural de Honduras no Iêmen, mas não tem o telefone da irmã no aparelho (claro, ele nunca trocou cartões de visita com ela);
  10. Ele não fica muito tempo com o mesmo aparelho. Isso o faz retornar constantemente ao item 6 e aumenta a intensidade dos demais.

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Twitter: perdemos tempo demais com nossas regras e etiquetas?

outubro 28th, 2009

Eu sou o homem que falava cassanês. Cassanês, dizem, é meu dialeto particular, que consiste em despejar palavras de maneira extremamente rápida, não raro pela metade e de forma muitas vezes incompreensível. Tento maneirar durante palestras ou entrevistas, mas no dia-a-dia é difícil mesmo segurar o ritmo. Mas acontece algo curioso. As pessoas mais próximas, que convivem comigo, acabam por aprender cassanês. Até onde eu sei, não há cursos, apostilas, gramáticas ou regras de como falar rápido-enrolado como eu. Elas aprendem por osmose. Assim como a gente acaba aprendendo a ouvir/falar um idioma só por estarmos vivendo num país.

O fenômeno que faz com que a convivência nos faça perceber e aprender códigos, regras e éticas de cada meio, vale para o uso da tecnologia e das redes sociais. Percebo isso quando vejo os novatos do Twitter dando RTs, usando tags, falando “corrão”. Como eles aprenderam? Qual foi seu manual?

Se é fato que há regras e etiquetas que sobrevivem ao crescimento do Twitter – e que definem a cultura de quem usa a ferramenta como algo maior que a ferramenta em si –, também é inevitável que muitas das “leis verbais” da rede se percam com seu crescimento. A vida é assim, não adianta fazer #mimimi.

Dá para dizer que quanto menor é a comunidade, quanto mais de nicho, mais regras ela tem. E mais destas regras são respeitadas. Experimente observar um grupo de motoqueiros, tipo Hell’s Angels. São inúmeros rituais, saudações, códigos… o mesmo vale para caminhoneiros, escoteiros, maçons e pioneiros do Twitter. Mas quando abrimos o foco de “caminhoneiros” para “motoristas”, os códigos rareiam e é preciso pôr polícia na rua para garantir que as regras básicas sejam respeitadas.

Conforme o Twitter cresce, reduz-se a sensação de grupo, de tribo. Como já não faz sentido falar em “internautas”, como a “blogosfera” hoje representa mais a panela dos early adopters, daqui a pouco não fará sentido nos percebemos como tuiteiros, twitters, o que for.

O crescimento do Twitter diluirá suas regrinhas. Daqui a pouco USAR SEU JEITINHO E ESCREVER TUDO EM CAIXA ALTA pode deixar de ser falta grave (100 pontos na Carteira Twitteira de Habilitação). Dar RT sem citar a fonte pode não representar mais a apreensão da carteirinha de internauta. Usar script para ganhar usuários deixará de ser um problema. Na verdade, deixará de ser uma solução, quando nós, sub-celebridades digitais, assumirmos nosso posto real num ambiente popular e popularizado. E nada disso é necessariamente ruim.

Quando o Homem instala uma sociedade, um grupo, há três coisas que ele invariavelmente acaba fazendo:

1) Ergue uma Igreja;

2) Extermina os índios;

3) Cria regras.

As igrejas do vilarejo chamado Twitter são os gurus, os pioneiros, aqueles que elegemos como representantes das melhores práticas, líderes espirituais incontestes. Os índios não foram exterminados, mas a verdade é que, para os pioneiros, quanto mais os nativos do Orkut ficarem longe, melhor. Um dos motivos que nos faz adorar os memes é que sabemos que a maioria das pessoas não faz idéia do que eles são. Os memes, por serem exclusivos, nos mantêm ligados como grupo. Conhecer a Susan Boyle, o Zina, seguir o @realwbonner, saber do barraco A, B ou C. É o que nos une. Quando todos conhecem – ou quando o conhecimento está disperso – o grupo se dissipa.

Isso posto, será que faz sentido gastarmos tanta energia discutindo as vaidades de nosso mundinho? Será que não é perder tempo demais explorando só a parte visível do iceberg? Se o Twitter, como nosso ecossistema digital, não sobrevive a um bando de adolescentes clamando pelos Jonas Brothers ou tem sua credibilidade ameaçada por um post pago aqui e uma jovem que usa scripts acolá, o problema não está nem nos Jonas Brothers nem no script. O problema está no Twitter. O problema é dessa “sociedade” que a gente criou, que é frágil demais. Que depende de regras fadadas ao esquecimento. Os índios estão invadindo o forte-apache e queimando a igreja. Quer saber? Deixa invadir. Vai ser bom pra todo mundo.

O Twitter, as redes sociais em geral, são só o começo. Não adianta murar o terreno agora, pois o terreno está se expandindo, crescendo, novas espécies surgindo.  A gente tem mania de ficar discutindo porque o mar está recuando na praia ao invés de se preparar para o tsunami que vem em seguida. #prontofalei.

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10 coisas que o Rio poderia aprender com São Paulo

outubro 19th, 2009

O Rio Sou carioca, do tipo que força o erre de mermão e o chi de “tchia” e “leitche”. Que fala futiból e se emociona com as mesmas paisagens há mais de trinta anos. Mas isso não me impede de reconhecer algumas coisas que, sim, os cariocas podem e precisam aprender com os paulistas.

São Paulo é uma cidade estranha. É gigante, mas ao mesmo tempo provinciana. Julgo crer que muitos paulistas (e paulistanos) ignoram o fato de que existe civilização ao norte de Santos. É um lugar de leitura difícil, que não se explica totalmente na esquina da Ipiranga com São João, nem na deselegância discreta de suas meninas.
São Paulo
São Paulo se revela aos poucos, tímida. Vai mostrando sua face, um certo charme. Uma lógica própria perdida entre concreto e motoboys. Lógica que, como tal, faz sentido. Até o ponto em que você entende São Paulo e consegue ver além do óbvio, além do preconceito.

Há muitas coisas boas em São Paulo. Coisas que não me incomodariam nem um pouco se fizessem parte de uma “paulistização do carioca”. Por exemplo:

1) Paulistas respeitam cruzamentos nas ruas;
2) Os sinais/semáforos/faróis ficam colocados no lado de lá do cruzamento. Assim, ninguém precisa ficar de pescoço torto só porque parou bem embaixo do dito-cujo;
3) Nota Fiscal Paulista. Imagino que isso tenha reduzido horrores a sonegação, e com um benefício palpável para as pessoas (mesmo que simbólico);
4) Futebol profissional;
5) Aquela lombada invertida em alguns cruzamentos. Ok, elas detonam a suspensão, mas forçam o motorista a dar uma paradinha e olhar para os lados antes de avançar;
6) Leis que pegam. Tenho a impressão de que algumas leis pegam em São Paulo (e outras não). Aqui, me parece que nenhuma lei pega, nunca;
7) Metrô que realmente liga o ponto A ao ponto B;
8) Obras. São Paulo está permanentemente em obras. Tem sempre algo subindo, um viaduto, uma nova estrada. Quando se resolve fazer obras no Rio saem monstros bizarros como a Cidade da Música;
9) Friozinho gostoso. Não reclamaria se dias de Rio 40o fossem intercalados com noites de Rio 10o, vendo um filme na TV e acompanhados de boa comida e vinho;
10) Macarrão. Aliás, São Paulo é a prova de que massa e macarrão não são a mesma coisa.

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Seeding é isso: inspirar pessoas a inspirar pessoas

agosto 11th, 2009

Em visita à Infnet, fui abordado por um jovem, cabelo grande, jaqueta azul, aquele olhar determinado de quem quer sugar toda informação que passar por sua frente.

Eu estava sentado em um banco, me dividindo entre o laptop, o celular e o Blackberry. Ele se aproximou, se sentou ao meu lado, pensou duas vezes e perguntou:

- Você palestrou no 12o Encontro de Web Design, não foi?

Respondi que sim e confirmei com ele se tinha sido aquele no Hotel Glória, no Rio. Ele continuou:

- Foi meu primeiro evento desse tipo, nunca tinha ido. Gostei muito de todas as palestras. Elas me motivaram a me esforçar.

Ele contou que começou a trabalhar com web como frila, inclusive com clientes europeus. Com a grana dos frilas, entrou para a graduação no Infnet. Contou também que trabalha em um projeto social, o Kabum, voltado para inclusão digital de jovens carentes.

- É fácil lidar com os alunos, porque eu moro na Rocinha -, revelou o jovem profissional, que nunca tinha ido a um evento da área e que, inspirado pelas apresentações, acreditou que poderia seguir carreira, conquistou clientes e investiu em mais conhecimento. E que não esperou o bolo crescer para começar a dividir.

É uma alegria e uma honra muito grande saber que tenho uma modesta participação nisso, por, junto com outros profissionais, ter subido naquele palco no Hotel Glória e inspirado pessoas a perseguirem sonhos – alguns que eles nem sabiam que tinham até aquele dia.

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(Minhas) grandes descobertas da Humanidade: a batata corada

julho 10th, 2009

Eu devia ter uns 12 anos. Para todos os efeitos, era uma criança. Colecionava bonecos, assistia Transformers na TV, devorava quadrinhos e enciclopédias e, hábito que preservo, adorava batatas.

Passando férias na casa de uns tios, fomos pernoitar em uma fazenda (talvez um sítio, mas para mim era um latifúndio sem fim) em Teresópolis. Foi um fim de semana de muitas descobertas. Por exemplo, ao nadar em uma piscina de água natural, aprendi como é – literalmente – engolir sapo. No caso, pequenos girinos. A sensação é muito parecida com engolir uma aspirina, com a diferença de que, nesse caso, você fica imaginando a aspirina sacudindo a cauda dentro do seu estômago.

Também descobri, andando pelo gramado onde havia uma quadra de tênis, que cobras fazem buracos no chão, não por acaso chamados “buracos de cobra”. E que a presença de cobras ali estava intimamente ligada à presença dos sapos, pais do girino que eu havia engolido. “Onde tem sapo, tem cobra”. E pior, que eu não deveria pisar nos sapos, visto que eles lançariam um líquido venenoso que prontamente me deixaria cego.

Minha crença na precisa mira dos sapos foi total e instantânea. Idem para a constatação de que todo e qualquer buraco tinha uma cobra dentro (sem duplo sentido, por favor, eu mal tinha 12 anos).

Com a noite caindo, e todos recolhidos ao interior da grande casa, aprendi a jogar paciência (sim, achei extremamente divertido). Mas minha cabeça estava lá fora. Mais exatamente, no céu que gradativamente escurecia.

Tinha grande esperança de ali, longe da cidade, finalmente contemplar a Via Láctea, mancha branca que deveria cobrir boa parte do céu em noites sem lua e sem a poluição das cidades. Aquela era minha grande oportunidade de, como bom cientista, comprovar com meus próprios olhos o que as enciclopédias diziam.

Mas então a ciência foi derrotada pelos sapos. Ao abrir a porta da casa, já envolta num breu absoluto, eu pude ouvir os coaxares, vindo de toda parte. Não sabia se eles estavam perto, ou longe. E, pior, não fazia idéia de onde estavam todas aquelas cobras à caça de sapos. A escuridão fez do gramado em torno da casa uma savana selvagem.

Não tive coragem de sair, e da porta, sob as telhas da varanda, não dava para ver o céu. Tive que esperar muitos anos ainda para descobrir que os livros não mentiam.

Mas a grande e mais fantástica descoberta ainda estaria por vir. Mais exatamente, no almoço do dia seguinte. Quando elas chegaram, olhei com estranheza. Afinal, tinham aquelas bordas queimadinhas, em leve tom de marrom, exatamente como as fritas. Tinham aquela superfície mais áspera, seca, também como as fritas. Mas eram redondinhas, como uma batata na manteiga. Era um conjunto de forma, aparência e textura novo para mim. Eram minhas primeiras batatas coradas.

Àquela altura eu era um homem rodado de batatas. Já tinha comido várias, de muitos tipos. Fritas, palha, palito, purê, de forno… mas coradas, meio assadas meio fritas, crocantes por fora e macias como um purê por dentro… ah… foi minha primeira vez.

Acho que se me dissessem que havia mais um prato cheio de batatas coradas no meio da grama, à noite, eu enfrentaria sapos e cobras pelo direito de repetir no jantar a descoberta do almoço.

Isso tem uns vinte anos. Mais, talvez. Mas consigo reviver cada detalhe. Da sala com vigas e teto de madeira, de iluminação suave, do sabor daquela nova batata, do coaxar dos sapos.

E do aprendizado: o mágico, o fantástico, o maravilhoso da ignorância é a alegria incomparável quando percebemos que acabamos de descobrir algo. Que não precisa ser o fogo, a roda, a penicilina. Pode ser as regras do jogo de paciência. Ou o sabor de uma batata corada. Basta ser algo que não sabíamos que existia e que agora conhecemos bem.

Quando se tem 12 anos, o mundo inteiro é um laboratório e tudo são grandes descobertas. Felizes aqueles que têm 12 anos para sempre.

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Sobre rankings, celebridades e a natureza humana

junho 15th, 2009

O brilhante Alex Primo tem feito alguns posts em seu blog discutindo o sentido (ou a falta de) em se falar de celebridades da web. Isso me remeteu a outra boa e velha discussão: por que continuamos obcecados por virais, celebridades, TOP 10s e rankings que, teoricamente, deveriam ter sido banidos com a disseminação da internet e das redes sociais?

Ora, acreditávamos que, livres da ameaça perniciosa da mídia de massa, finalmente poderíamos ver os filmes que quiséssemos, ouvir as bandas mais obscuras, nos informar nas fontes mais diversas. Estaríamos livres dos rankings da Billboard, mais vendidos da Veja ou maiores bilheterias nos EUA. Também estaríamos livres das celebridades ocas da TV.

Antes de entrar nos detalhes dessa discussão, vale um breve exercício. Acho que, cegos e apaixonados pela revolução tecnológica, atribuímos a ela uma responsabilidade além do que a tecnologia (qualquer uma) pode entregar: ousamos pensar que ela mudaria a essência do que somos.

Que me perdoem os ciberpunks, mas a tecnologia não muda o Homem. Darwin muda o Homem. Ou Deus, se preferir, muda o Homem. A internet e as tecnologias em geral mudam COMO fazemos as coisas, mudam O QUE fazemos, mudam até o QUANDO ou QUANTO fazemos. Mas a tecnologia não consegue mudar POR QUE fazemos. Porque o motivador de nossas ações são nossas necessidades e desejos mais íntimos.

Em alguma instância, mais próxima ou remota, comer um Big Mac, esperar o chefe sair da sala para ver o vídeo da Maíra do BBB no computador do trabalho ou baixar o filme dos X-Men são ações solicitadas pelo TCP-IP da existência: nosso DNA.

Partindo-se da premissa de que as tecnologias trazem respostas novas para problemas reformulados a partir de necessidades perenes, celebridades, rankings e TOP 10s são respostas a uma necessidade orgânica e psicológica nossa. Não são invenção maquiavélica e exclusiva da comunicação de massa.

Provavelmente, a gente gosta mesmo de baixaria e violência. Seja em que mídia for.

Sem entrar no mérito da validade ou não de se usar o termo “celebridade” para os fenômenos específicos da blogosfera, acredito que um conceito fundamental para entendermos esse comportamento da mídia de massa no contexto das redes sociais é o da escala: em muitos aspectos (não em todos, é claro), as redes sociais se comportam como um emaranhado de redes massivas em miniatura.

Explico antes que me crucifiquem: no que diz respeito a nossas buscas por referências externas, a internet não veio acabar com rankings, blockbusters, “mais vendidos”etc. Ela apenas fragmentou estes universos. Mudou as fontes. Se antes dependíamos da Billboard para nos dizer quais os 10 melhores discos do mês, hoje formamos nosso próprio ranking no Last.fm.

Se antes a Veja nos dizia que livros ler, hoje vemos que livros as pessoas mais parecidas conosco estão lendo na Amazon ou em redes sociais de livros. Se antes a bilheteria nos EUA era fundamental para definirmos que filmes veríamos no final de semana, hoje esse processo acontece na Net Movies, acontece no Torrent.

Mas os rankings permanecem. Se antes lia-se Paulo Coelho porque ele vendeu milhões de exemplares, hoje se segue o @fulano porque ele já tem 2 mil seguidores. “E não deve ter 2 mil seguidores à toa”.

Os meios, as ferramentas, os formadores de opinião mudaram. Mas a necessidade de termos respaldo na opinião de nossas (agora múltiplas) tribos permanecem. Antes pensávamos: “Um milhão de pessoas não podem estar erradas”. Hoje pensamos: “Todo mundo não pode estar errado.”

E nosso “todo mundo” equivale a 200 pessoas que curtem Zumbi do Mato (eu curto). 50 cineastas amadores de Botucatu. 20 evangélicas lésbicas de Bom Jesus do Itabapoana. O francês Michel Maffesolli retratou com precisão o aspecto tribal da geração das redes sociais… antes de existirem as redes sociais.

Porque isso não vem de Cupertino ou Mountain View, na Califórnia, vem de nosso cérebro. A gente simplesmente não consegue pensar sozinho. “Certo” ou “Errado” são conceitos relativos que dependem da cara de aprovação ou condenação do sujeito a seu lado.

Precisamos da “opinião dos outros”, mesmo que seja para negá-la. E isso gera as sub-pseudo-celebridades da web, isso gera as tag clouds, trending topics, trendhunters e o que mais você disser em inglês que responda a uma pergunta básica: “Isso aqui é bom mesmo ou eu que sou um idiota?”

Isso explica nossa ridícula fascinação por número de seguidores, leitores de feed, amigos no Orkut. Ser uma pessoa tímida offline fazia você ser um forasteiro nas diversas tribos que freqüentava, mas você só era um Zé Ninguém uma tribo por vez. Não ter amigos no Orkut ou seguidores no Twitter faz de você um forasteiro no mundo, um lunático falando sozinho, um segregado, um Botsuana do capital social.

Voltando às celebridades da web, elas podem não ter o mesmo alcance de seus pares tradicionais. Podem não ter a disseminação multi-plataforma, nem ter um altar bacana como o da Paris Hilton. É, pode ser. Mas a motivação para colocá-las no alto desse altar é igualzinha. E a total falta de necessidade de algum conteúdo, ato, feito ou propósito real para se levar a celebridade ao altar também.

As redes são outras, as escalas são outras, as dinâmicas totalmente diferentes. Mas as pessoas… ah, essas são as mesmas. E continuarão sendo.

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Fantasmas na máquina

junho 1st, 2009

Eu me impressiono com algumas coisas. Filmes, acontecimentos. As imagens do tsunami demoraram a sair da minha cabeça. Quase virei terrorista depois de Clube da Luta e nem mesmo o Robin Williams, no papel de uma babá bicentenária interpretando um professor, conseguiu reduzir o efeito que Sociedade dos Poetas Mortos fez em meu espírito candidato a escritor.

E já escrevi aqui, na forma de poemas ou posts, sobre o pavor e fascínio que sinto pelo vazio, pelo desaparecimento. Seja o desaparecimento do que criamos – aprisionado em um suporte digital fadado ao apodrecimento – seja o desaparecimento de quem amamos, ou de nós mesmos.

Este ano já experimentei a perda de várias pessoas. De algumas muito próximas a desconhecidos que, pelas circunstâncias de suas partidas, nos fazem refletir sobre como aproveitamos nossa estada. Quando vejo gente sendo subitamente subtraída deste mundo físico, por acidentes ou fatalidades, não consigo não olhar com estranheza para os fantasmas na máquina que permanecem. Os registros inacabados nos perfis sociais que ficam perdidos, órfãos de nós mesmos, pela internet.

Um perfil é diferente de um texto, de uma foto. Se deixamos cartas, textos, posts, filmes… são coisas que criamos. E que ajudarão os outros a se lembrarem de nós quando partirmos. Mas os perfis, supostamente, não são coisas que criamos. Eles são nós mesmos. Os perfis, teoricamente, são uma representação digital do que somos. Do que pensamos, do que sentimos.

Os perfis pretendem ser a digitalização de nossa alma.

E se partimos sem chance de responder, pela última vez, “o que estou fazendo agora?”, “o que estou ouvindo?” e todas as perguntas que nos forçam a viver cada vez mais presos ao presente, sobrevivem nossos fantasmas digitais, como obras inacabadas.

Que fim eles deveriam levar? Devem ficar ali, congelados no tempo até que sucumbam ao fim inevitável das redes sociais (sim, porque não há empresa eterna, serviço eterno)? Deveriam continuar envelhecendo no Orkut, com sua idade atualizada e suas “fotos recentes”? Deveriam retirar-se de cena? Ou, no fundo, será que nada disso importa?

Tenho conhecidos e amigos que partiram e cujos perfis viveram ainda por muito tempo, recebendo mensagens e comentários, num ritual moderno de celebração aos que se foram. A cada tragédia de comoção nacional, os perfis das vítimas em redes sociais recebem dezenas, centenas de mensagens que nunca serão lidas, como flores deixadas num túmulo. É um gesto tão mórbido quanto singelo e comovente. Como se a pessoa virtual sobrevivesse à sua metade real.

Parece que o cenário de ficção científica onde transferiríamos nossa consciência para a máquina, a fim de nos livrarmos de nossos corpos físicos, não é assim tão absurdo. Quando eu me for, continuarei vivo digitalmente naquilo que crio na Rede. Virtualmente vivo até que se apague meu último eu virtual. Um Gato de Schrödinger contemporâneo, onde não se saberá ao certo se eu de fato ainda respiro ou não. Existe vida após o shut down?

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