Philip K. Dick, Ubik e o pretérito do futuro
Acabo de ler o excelente Ubik, de Philip K. Dick, um dos maiores nomes da literatura de ficção científica de todos os tempos. Aliás, um dos apelos do livro é que ele foi considerado pela revista Time um dos 100 melhores em língua inglesa escritos depois de 1923. E faz jus à honraria.

Ubik, de Philip K. Dick
Publicado em 1969, Ubik está para Minority Report assim como Neuromancer, de William Gibson, está para Matrix. Estão lá precogs, pessoas capazes de prever o futuro e uma ousada visão de como seria o amanhã.
E é sobre a arriscada tarefa de prever o futuro que pretendo falar. Em tempos de evolução tecnológica e cultural cada vez mais rápida, o ofício de escritor de ficção científica se tornou tão ingrato quanto o de técnico do Fluminense. A chance de prever futuros anacrônicos é enorme e a saída mais honrosa acaba sendo apelar para mundos fantásticos e universos paralelos. Mas a previsão furada tem enorme valor. Ela nos permite saber o que não passa de evolução e o que de fato foi revolucionário.
Pensemos nas comunicações. Um item mais presente na ficção científica em geral do que venezuelanas em finais do Miss Universo é o videofone. Até os Jetsons têm um aparelho desses. Mas quantas obras anteciparam o telefone celular? Jornada nas Estrelas conta ou já era recente demais?
A internet, então, passou longe da maioria. Um de meus heróis literários, Douglas Adams, previu a Wikipedia, ao descrever o Guia do Mochileiro das Galáxias como uma obra coletiva. Adams, por sinal, já mereceu um post exclusivo pelas previsões de seus livros. Se bem que, nesse caso, ele está mais para inspirador/provocador do futuro.
Os videofones estão presentes em Ubik, que foi publicado no ano em que o homem pisou na Lua. Dick empurrou a história bem pra frente, para não ter que se explicar com chatos como eu. Ela se passa em um futuro longínquo (para o autor): 1992. No ano em que vimos pela TV um arqueiro errando a pira olímpica nas Olimpíadas de Barcelona, Dick imaginou que teríamos espaçonaves explorando o espaço, e colônias em Marte e na Lua.
Outras deliciosas previsões:
- O custo de vida aumentaria tanto que tudo passaria a ser pago. Os personagens do livro pagam a seus próprios eletrodomésticos pelas coisas mais simples, como fazer café, ligar o chuveiro, ver as notícias ou abrir a porta.
- O mais curioso é COMO eles pagam: moedas. Moedinhas por toda parte.
- Mas também existe uma espécie de cartão de crédito, dispositivos que armazenam o dinheiro da época, os pós-creds.
- O mais legal é a máquina de notícias. Ela é operada por voz, e permite total customização. O usuário pede à máquina o que ele quer ver. Incrível visão quando o máximo da tecnologia da época era a nascente transmissão em broadcast via satélite. Ao escolher o que se quer ver, a máquina… imprime em quatro cores uma folha com as matérias escolhidas. Dick preferiu não fazer da TV ou do telefone o meio de informação, mas sim o papel, produzido sob demanda e com alta tecnologia.
- Ao tentar operar uma nave espacial, os personagens operam um sistema eletrônico de busca de informações que, ao encontrar o que é procurado, gera um cartão perfurado, que é inserido no computador para passar as informações.
- Cigarro. Muitos. Todo mundo fuma.
- Áudio: A tecnologia futurista de áudio inclui rádio-gravadores poderosos, que gravam e reproduzem cassetes como ninguém. Nisso ele acertou. Se hoje vivemos a era do MP3, em 1992 os CDs ainda engatinhavam e os K7s imperavam.
- A limpeza dos apartamentos é feita por robôs. Mediante o pagamento de algumas moedas, claro.
- Mídia: existe uma TV planetária, e anúncios nesta TV, em caixas de fósforos e malas-diretas ainda são ótimas oportunidades de comunicação.
E tem mais, que guardo para quem ler Ubik. Nada disso diminui o valor do livro ou do autor, morto em 1982. Pelo contrário. Nos depararmos com uma previsão de um futuro que já passou adiciona uma nova e deliciosa camada a um livro já interessantíssimo. Fica a dica.
O projeto contempla uma espécie de agenda de papel, distribuída para alunos do primeiro ano do ensino médio da rede estadual. Nela, além de espaço para dados do aluno (nome, e-mail, perfil no Facebook, perfil no Orkut, comunidades favoritas etc), há dicas de internet (como fazer buscas, downloads, sites interessantes, o que é e como usar blogs, Twitter e afins), dicas de Português e outras disciplinas (por exemplo, comparando o texto de um scrap de Orkut com o de um currículo) e muitos, mas muitos, exercícios de construção de textos.

