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Arquivo da categoria ‘Prosa e verso’

Philip K. Dick, Ubik e o pretérito do futuro

setembro 28th, 2009

Acabo de ler o excelente Ubik, de Philip K. Dick, um dos maiores nomes da literatura de ficção científica de todos os tempos. Aliás, um dos apelos do livro é que ele foi considerado pela revista Time um dos 100 melhores em língua inglesa escritos depois de 1923. E faz jus à honraria.

Capa de Ubik, de Philip K. Dick

Ubik, de Philip K. Dick

Publicado em 1969, Ubik está para Minority Report assim como Neuromancer, de William Gibson, está para Matrix. Estão lá precogs, pessoas capazes de prever o futuro e uma ousada visão de como seria o amanhã.

E é sobre a arriscada tarefa de prever o futuro que pretendo falar. Em tempos de evolução tecnológica e cultural cada vez mais rápida, o ofício de escritor de ficção científica se tornou tão ingrato quanto o de técnico do Fluminense. A chance de prever futuros anacrônicos é enorme e a saída mais honrosa acaba sendo apelar para mundos fantásticos e universos paralelos. Mas a previsão furada tem enorme valor. Ela nos permite saber o que não passa de evolução e o que de fato foi revolucionário.

Pensemos nas comunicações. Um item mais presente na ficção científica em geral do que venezuelanas em finais do Miss Universo é o videofone. Até os Jetsons têm um aparelho desses. Mas quantas obras anteciparam o telefone celular? Jornada nas Estrelas conta ou já era recente demais?

A internet, então, passou longe da maioria. Um de meus heróis literários, Douglas Adams, previu a Wikipedia, ao descrever o Guia do Mochileiro das Galáxias como uma obra coletiva. Adams, por sinal, já mereceu um post exclusivo pelas previsões de seus livros. Se bem que, nesse caso, ele está mais para inspirador/provocador do futuro.

Os videofones estão presentes em Ubik, que foi publicado no ano em que o homem pisou na Lua. Dick empurrou a história bem pra frente, para não ter que se explicar com chatos como eu. Ela se passa em um futuro longínquo (para o autor): 1992. No ano em que vimos pela TV um arqueiro errando a pira olímpica nas Olimpíadas de Barcelona, Dick imaginou que teríamos espaçonaves explorando o espaço, e colônias em Marte e na Lua.

Outras deliciosas previsões:

- O custo de vida aumentaria tanto que tudo passaria a ser pago. Os personagens do livro pagam a seus próprios eletrodomésticos pelas coisas mais simples, como fazer café, ligar o chuveiro, ver as notícias ou abrir a porta.

- O mais curioso é COMO eles pagam: moedas. Moedinhas por toda parte.

- Mas também existe uma espécie de cartão de crédito, dispositivos que armazenam o dinheiro da época, os pós-creds.

- O mais legal é a máquina de notícias. Ela é operada por voz, e permite total customização. O usuário pede à máquina o que ele quer ver. Incrível visão quando o máximo da tecnologia da época era a nascente transmissão em broadcast via satélite. Ao escolher o que se quer ver, a máquina… imprime em quatro cores uma folha com as matérias escolhidas. Dick preferiu não fazer da TV ou do telefone o meio de informação, mas sim o papel, produzido sob demanda e com alta tecnologia.

- Ao tentar operar uma nave espacial, os personagens operam um sistema eletrônico de busca de informações que, ao encontrar o que é procurado, gera um cartão perfurado, que é inserido no computador para passar as informações.

- Cigarro. Muitos. Todo mundo fuma.

- Áudio: A tecnologia futurista de áudio inclui rádio-gravadores poderosos, que gravam e reproduzem cassetes como ninguém. Nisso ele acertou. Se hoje vivemos a era do MP3, em 1992 os CDs ainda engatinhavam e os K7s imperavam.

- A limpeza dos apartamentos é feita por robôs. Mediante o pagamento de algumas moedas, claro.

- Mídia: existe uma TV planetária, e anúncios nesta TV, em caixas de fósforos e malas-diretas ainda são ótimas oportunidades de comunicação.

E tem mais, que guardo para quem ler Ubik. Nada disso diminui o valor do livro ou do autor, morto em 1982. Pelo contrário. Nos depararmos com uma previsão de um futuro que já passou adiciona uma nova e deliciosa camada a um livro já interessantíssimo. Fica a dica.

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Prosa e verso

Blog de papel ensina a escrever

maio 11th, 2009

Por meio de minha mãe, que é professora da Rede Estadual do Rio de Janeiro, tomei contato com um projeto muito interessante: o Almanaque da Rede. Concebido por Sonia Rodrigues, filha do imortal tricolor Nelson Rodrigues, trata-se um uma abordagem inovadora para um desafio e tanto: fazer a geração Orkut-Créu-MSNaprender, exercitar e, principalmente, gostar de escrever. E de conhecer as diferentes formas de escrita, do miguxês ao português erudito.

almanaquedarede O projeto contempla uma espécie de agenda de papel, distribuída para alunos do primeiro ano do ensino médio da rede estadual. Nela, além de espaço para dados do aluno (nome, e-mail, perfil no Facebook, perfil no Orkut, comunidades favoritas etc), há dicas de internet (como fazer buscas, downloads, sites interessantes, o que é e como usar blogs, Twitter e afins), dicas de Português e outras disciplinas (por exemplo, comparando o texto de um scrap de Orkut com o de um currículo) e muitos, mas muitos, exercícios de construção de textos.

No lugar de regrinhas chatas, regras de um jogo. Ícones coloridos representam diversos elementos de uma narrativa (personagem, motivo, desfecho etc), de uma dissertação, descrição etc. Para fazer uso do Almanaque e de seu “Blog de Papel”, o aluno precisa encarar a construção de textos como um jogo. Um desafio a ser vencido. Um enigma a ser desvendado. É bem mais do que uma redação de “Minhas férias”.

A parte digital tem ferramentas e conteúdos para alunos e professores. Entre elas, a possibilidade de transpor o blog de papel para um ambiente online. E espaços para os alunos publicarem suas redações, que concorrerão a prêmios.

Parece uma tentativa desesperada de juntar tudo que é inovador e atraente num projeto só – interatividade, tecnologia, redes sociais, jogos e uma linguagem jovem e contemporânea. Mas tudo ali parece ter sido bem pensado, bem estruturado. Nada soa gratuito. O projeto, fruto da tese de doutorado em Literatura de Sonia, é muito consistente e autêntico.

É uma corajosa e valiosa tentativa de se modernizar o ensino. Em minha visão de leigo em educação, o Almanaque busca ensinar os alunos a pensar – não há melhor exercício para organizar o pensamento do que escrever – , e, ao usar a internet como isca para o estudo, acaba realizando uma efetiva inclusão digital, ao dar o básico de informações e mostrar o vasto mundo digital para uma turma que, por mais que esteja conectada, na maioria das vezes não vai além do Orkut e do MSN.

Pena que em muitos colégios, o Almanaque não veio junto com uma boa apresentação sobre o projeto, e o material impresso foi desprezado como “mais uma agendinha”.

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Música, Prosa e verso, Trabalho, cotidiano , , ,

Poeminhas matemáticos

abril 21st, 2009

Zero à esquerda

O zero era revolucionário de esquerda.
Um dia o zero se apaixonou pela vírgula.
Não que ela fosse formosa, muito pelo contrário.
Era magra, meio torta. Cambava prum lado.
Mas o zero se apaixonou porque percebeu que
longe da vírgula ele não era nada.

Números primos

Tio Pi se dividiu de raiva quando soube
que o 2 e o 17 andavam de mãos dadas
num logarítmo escuro, longe dos pais.

Um escândalo que rompia com todos
os denominadores da alta sociedade.

Pensou logo na imprensa sensacionalista,
doida para fatorar em cima da multiplicação
de fofocas sobre a família Tabuada.

Tio Pi chamou os jovens expoentes
e deu-lhes um pito de segundo grau,
ameaçou-lhes cortar o mal pela raiz
e pôs fim ao namorico.

Que futuro teria esse namoro de primos?

Vida

Criança
1+0=1000
1+0=1000
1+0=1000
1+0=1000

Adolescente
5 x 1
5 x 1
5 x 1
5 x 1

Jovem
1+1=1
1+2=1
1+3=1
1+4=1

Adulto
1+1=2
1+1=2
1+1=2
1+1=3

Idoso
3-1=1
2-1=1
2-1=0
1-1=0

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Conjugações do verbo tuitar

março 15th, 2009

Quando vós tuitardes, lembrai-vos destas conjugações.

Formas Nominais:
infinitivo: tuitar
gerúndio: tuitando
particípio: tuitado

Presente do Indicativo
eu tuito
tu tuitas
ele tuita
nós tuitamos
vós tuitais
eles tuitam

Imperfeito do Indicativo
eu tuitava
tu tuitavas
ele tuitava
nós tuitávamos
vós tuitáveis
eles tuitavam

Perfeito do Indicativo
eu tuitei
tu tuitaste
ele tuitou
nós tuitamos
vós tuitastes
eles tuitaram

Mais-que-perfeito do Indicativo
eu tuitara
tu tuitaras
ele tuitara
nós tuitáramos
vós tuitáreis
eles tuitaram

Futuro do Pretérito do Indicativo
eu tuitaria
tu tuitarias
ele tuitaria
nós tuitaríamos
vós tuitaríeis
eles tuitariam

Futuro do Presente do Indicativo
eu tuitarei
tu tuitarás
ele tuitará
nós tuitaremos
vós tuitareis
eles tuitarão

Presente do Subjuntivo
que eu tuite
que tu tuites
que ele tuite
que nós tuitemos
que vós tuiteis
que eles tuitem

Imperfeito do Subjuntivo
se eu tuitasse
se tu tuitasses
se ele tuitasse
se nós tuitássemos
se vós tuitásseis
se eles tuitassem

Futuro do Subjuntivo
quando eu tuitar
quando tu tuitares
quando ele tuitar
quando nós tuitarmos
quando vós tuitardes
quando eles tuitarem

Imperativo Afirmativo
tuita tu
tuite ele
tuitemos nós
tuitai vós
tuitem eles

Imperativo Negativo
não tuites tu
não tuite ele
não tuitemos nós
não tuiteis vós
não tuitem eles

Infinitivo Pessoal
por tuitar eu
por tuitares tu
por tuitar ele
por tuitarmos nós
por tuitardes vós
por tuitarem eles

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Humor, Prosa e verso , , , ,

Brogue faz escola

janeiro 24th, 2009

acordoortograficoRecebi esta semana um exemplar de “Acordo Ortográfico – o que muda e o que continua igual na Língua Portuguesa”, do lexicólogo, filósofo e tradutor Ivo Korytowski (Ed. Ciência Moderna). Entre muitas dicas e exemplos, temos um capítulo dedicado exclusivamente ao finado trema e, nele, um trecho do post “Direito de Resposta ao trema”, que escrevi em setembro passado aqui no Brogue.

Fico honrado pela citação e de ver, literalmente, blogs fazendo escola.

Para aprender aonde enfiar (ou não) o trema da lingüiça, o tracinho do super-homem e outras coisas, confira o livro, que sai por quinze reais no Submarino.

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Prosa e verso , ,

Verdade perdida no meio de tanta notícia

dezembro 13th, 2008

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Filosofia, Prosa e verso

Livros que ainda vou escrever: Gambiarra

outubro 28th, 2008

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Filosofia, Humor, Prosa e verso

Ode à gambiarra

outubro 23rd, 2008

Oh doce gambiarra,
tu que ao mundo amarra
emenda este pobre homem
que por tua ingeniosidade se domina.

Mãe de todos os improvisos
bombril de nossas antenas
faz de fio, corda
de uma tomada, três
um mundo com uma caixa apenas.

e se no final falta a rima
criativa, inventa uma palavra:
astrublecomiarra
e fecha rimando com gambiarra.

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Humor, literatura

Direito de resposta ao trema

setembro 30th, 2008

Recebemos esta mensagem do trema e julgamos por bem, em nome da Ordem Democrática, publicá-la, na íntegra, neste Brogue:

“Prezados,

Não venho aqui encher lingüiça nem esbanjar uma eloqüência inconseqüente. Estou tranqüilo quanto ao papel que venho desempenhando na sociedade, da qual tenho sido vítima com freqüência de ataques.

Não sou menino. Vivi e vi muito. Desde 43 que perambulo por estradas e ditongos da vida. Que o diga o U, este grande amigo a quem não me canso de garantir que tenha voz neste mundo de crescente exclusão.

Também o diga o Müller, outro grande defensor de minha carreira, bem como todo o nobre povo alemão, este sim um apreciador do chucrute, da música clássica e do legítimo trema germânico.

Ao ver decretada assim minha expatriação, penso nesse povo sem memória e sem afeto. Desterraram seu último e apaixonado imperador e agora me trocam por kas, dáblius e ipsilones representantes do imperialismo saxão. Sempre suspeitei que minha morte ou exílio estavam sendo há décadas tramadas por alguém.

Não sabia se pelos comunistas, pelos socialistas, pelos capitalistas ou pelos fãs de Marylin Manson. Agora eu sei. Foram os dáblius, esses vês pervertidos que sempre andam de mãos dadas, em plena luz do dia. Caracteres pederastas, esses dáblius. Pederastas e traidores. Quem me lê sabe se tem a mão ensangüentada.

Me espanta a hipocrisia destes mesmos abraçadores de árvores e defensores da ecologia e do seqüestro de carbono tirarem dessa forma o acento e o acalento dos pingüins. Agora eles têm de agüentar. Por um, por dez ou por cinqüenta anos. Até o fim de tudo. Verão, na pele, a falta que um trema faz, delinqüentes ortográficos, seres de índole eqüina.

Vou-me. Partirei de volta para o velho mundo, onde ainda há espaço para tremas, lamparinas e fados tristes. Saio desta vida para a ubiqüidade.”

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Filosofia, Humor, Prosa e verso

Feed-se especial Democracia

setembro 29th, 2008

Revista Feed-seFoi lançada durante o Blogcamp-RJ a edição especial da revista Feed-se, com o tema “Democracia”. O momento não poderia ser mais oportuno, visto que as eleições se aproximam e temos vivido recentemente os altos e baixos do mais democrático de todos os meios de comunicação, a rede.

Leitura obrigatória, até porque é rápida e pra lá de prazerosa.

Esta edição tem, inclusive, a modesta contribuição deste que voz fala, com uma versão revista e ampliada de um post aqui do Brogue, sobre o pouco explorado poder da Gentileza na blogosfera.

Chega lá. É grátis.

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Filosofia, Trabalho, literatura