Arquivo para 'literatura'

Ode à gambiarra

Oh doce gambiarra,
tu que ao mundo amarra
emenda este pobre homem
que por tua ingeniosidade se domina.

Mãe de todos os improvisos
bombril de nossas antenas
faz de fio, corda
de uma tomada, três
um mundo com uma caixa apenas.

e se no final falta a rima
criativa, inventa uma palavra:
astrublecomiarra
e fecha rimando com gambiarra.

Feed-se especial Democracia

Revista Feed-seFoi lançada durante o Blogcamp-RJ a edição especial da revista Feed-se, com o tema “Democracia”. O momento não poderia ser mais oportuno, visto que as eleições se aproximam e temos vivido recentemente os altos e baixos do mais democrático de todos os meios de comunicação, a rede.

Leitura obrigatória, até porque é rápida e pra lá de prazerosa.

Esta edição tem, inclusive, a modesta contribuição deste que voz fala, com uma versão revista e ampliada de um post aqui do Brogue, sobre o pouco explorado poder da Gentileza na blogosfera.

Chega lá. É grátis.

Tinha uma nuvem no meu quintal

Tinha uma nuvem no meu quintal.

Acordei e lá estava ela, do outro lado da janela.

Não chovia, nem trovejava ou relampeava – essas coisas que nuvens fazem.

Apenas nuveava, suave e delicada, se esgueirando por entre árvores, o cachorro do vigia e os esqueletos de prédios que alguém que nunca teve a cabeça nas nuvens vendeu mas não terminou de construir.

Do outro lado da janela, a nuvem nuveava.

E era estranho olhar para baixo e ver aquela cena que guardamos para o alto. Olhei para o alto e busquei gatos, grama, coisa de baixo. Nada. Apenas outras nuvens, que nuveavam no alto como minha nuvem nuveava no baixo.

Então surgiu o sol. E a nuvem se deu adeus. Dissipou-se sobre o cachorro, as árvores e os prédios sem gente e sem alma.

E assim terminou a história da nuvem que cansou do alto e veio nuvear aqui em baixo, do outro lado da janela.

Publique seu livro agora. Pergunte-me como

Na era das facilidades mil, até publicar um livro ficou fácil. Já existem pela web alguns serviços bacanas de autopublicação, onde o autor paga para ver suas memórias publicadas e disponibilizadas nas prateleiras virtuais da editora e até na Amazon. Mas um novo serviço prima pela simplicidade e pelo design super bacana de sua ferramenta.

O Blurb em açãoO Blurb (www.blurb.com) funciona com um aplicativo gratuito (30 Mb) que você precisa baixar. Com ele, você escolhe o formato, título e conteúdo de seu livro, que pode ser um blogbook (ele importa os posts direto do Blogger e afins), um livro de fotos (de seu computador, de seu Flickr ou Picasa), de poesias, receitas etc. O processo de diagramar seu épico literário é simples.

Finalizado, você faz o upload, morre em cerca de US$ 20 mais o frete, e recebe em casa seu próprio livro, com capa dura e impressão, segundo o site, de primeira. Você ainda pode deixar seu Lusíadas para venda. Como ele só será impresso sob demanda, o risco de encalhe é zero.

Rapidez, discrição e precisão

Potato potato potato pota… Desligou o motor, desmontou e entrou na cidade à pé, segurando a moto pelo guidão, envolto pelo criquilar dos grilos e pelo barulho das próprias botas chapinhando nas poças sobre a terra enlameada.

A rua principal estava deserta e escura. Apenas a lua e o frágil cintilar das velas e luzes de leitura que escapavam pelas janelas com cortinas de renda. Se tivesse um coldre, estaria tateando as ancas só para se certificar se sua Colt estaria no lugar, tão forte era o clima de faroeste na cidadezinha.

Mas ele não tinha um coldre. Parou e tirou do bolso da camisa um papel amassado e molhado pela chuva. Conferiu o número e buscou por referências nas fachadas das casas de madeira. Número 66. Encostou a Harley na lateral, ao lado de um canteiro de rosas, e desamarrou sua maleta da garupa.

Guardou o papel no bolso e tirou um relógio antigo de algibeira. Dez para meia-noite. Por pouco não se atrasara. Deu a volta e olhou de novo para a fachada. No segundo andar, a única janela estava aberta e a cortina de rendado branco se agitava como uma flâmula.

Limpou as botas no capacho de xaxim. Tocou de leve a fria maçaneta. Um calafrio percorreu todo seu corpo. Sacudiu a cabeça e fez o sinal da cruz. Girou. A porta se abriu. Passou pela cadeira de balanço, onde uma almofada de costura repousava perfurada por agulhas como uma boneca vodu. Notou, na penumbra, os belos pratos de louça na cristaleira. Subiu devagar a escada, com cuidado para não deixar a madeira traiçoeira ranger.

A porta do quarto estava aberta. Depositou a maleta em uma cadeira sob a janela. Puxou a cortina para dentro e fechou-a delicadamente. Sobre a cama de viúva, cansada de tanto se debater, dormia uma moça de uns 20 anos, de pele branca e longos cabelos negros, camisola de pano grosso, amarrada pelos pulsos e pés.

Constantino abriu a maleta. Pegou o incensário e depositou certa quantidade de cânfora nele. O cheiro do incenso rapidamente se espalhou pelo quarto, em espiral, como espíritos flanando pelo éter. Pegou a Bíblia, a abriu e começou a rezar em voz baixa.

Por fim, pegou a pistola. Enquanto atarraxava o silenciador, se aproximou da cama. Era uma bela jovem. Não era de se admirar que o demônio a tivesse possuído. E que todas as tentativas de exorcismo tenham falhado. Não houve qualquer sucesso, e era por isso que ele estava ali. Ele era chamado sempre que as coisas davam errado.

Aquele era seu trabalho. Rapidez, discrição e precisão eram as características. O tiro acertou a testa, a meia distância dos dois olhos. Guardou a pistola e o incensário, enquanto o sangue ensopava o travesseiro. Terminou suas orações e caminhou para a porta.

Quando entrou no beco ao lado da casa, notou uma luz acessa no sobrado da frente e sentiu o aroma de incenso no ar. Ele poderia ter sido visto. Abriu rapidamente a maleta, jogou a pistola num monte de lama e escondeu o punhado de cânfora no tanque de sua Harley.

Puxou a moto até a rua, montou e ligou o motor. Tirou do bolso um papel molhado e amassado e memorizou outro endereço. Rapidez, discrição e precisão. Tudo que um padre como ele precisa. Acelerou. Potato potato potato…

Mais contos de apenas seis palavras

O título deste post tem seis palavras, mas não é um conto. O que, então, faz com que uma frase de seis palavras seja um micro-conto? O fato de, magicamente, elas terem uma história, uma ação, um sentimento, uma imagem na mente, a imaginação do que se sucede ou do que aconteceu antes… experimente. Crie os seus!


Papai, papai! Olha ali um tsunami!

O navio seguiu, alheio ao iceberg.

Amou-a em segredo até a morte.

No último dia de vida, choveu.

Apertou o gatilho. Depois se arrependeu.

Logo ele que refutava os ETs…

O dragão pousou no Planalto destruído.

O que fazer em caso de pouso…


As instruções de emergência nas aeronaves nunca me pareceram completas o suficiente para lidar com todas as situações. Afinal, “pouso na água” é algo bem genérico. Que água? Onde? Com quem? Por isso, recorri ao inesgotável interesse humano por acidentes com aviões para trazer um pouco de luz a esse tema tão em queda, digo, em alta.

Em caso de pouso…

… numa ilha tropical: ver Lost e O Náufrago

… no deserto: ler O Pequeno Príncipe

… na Hungria: ler Budapeste

… numa montanha gelada: ver Alive

…num pântano nojento: ver O Império Contra-Ataca

… no passado: ver O Planeta dos Macacos

… na Bósnia: ver Atrás das Linhas Inimigas

… no Planeta Terra: visitar Roswell, nos EUA

… em um aeroporto, durante uma nevasca, com um terrorista a bordo: ver O Aeroporto.

… na Floresta Amazônica, com uma jararaca na poltrona do meio: ver Serpentes a Bordo

… com as asas de cera derretidas: ler a Lenda de Ícaro.

Tenham um bom vôo.

* Obrigado Leo Paiva pelas contribuições.

Helen Sue

Helen Sue acordou deprimida, magneticamente atraída pelo frasco repleto de Prozacs. Fechou os olhos, apertou os dedos sobre a colcha de cetim azul-turquesa, encheu o pulmão de ar e gritou para que todos os seus neurônios pudessem ouvir:

– Eu posso ser amada! Eu serei amada! Eu… serei… amada!!!

Então fez escova. Maquiou-se como se fosse a um casamento. Depois de quinze trocas, escolheu a sua roupa mais matadora. Pegou sua bolsa e foi para a rua.

Parou no ponto de ônibus, girando sobre o próprio eixo para evitar que o vento estragasse seu penteado. Fez sinal. Então sentiu alguém tocando de leve sobre seu ombro. Mal se virou, e uma voz masculina, firme, forte e destemida fez a pergunta. Não uma pergunta qualquer, mas a pergunta pela qual Helen Sue havia esperado por toda sua triste vida:

– Você acredita em amor à primeira vista?

O coração disparou. 100, 200, 300, um milhão de batidas por minuto… seu coração poderia fazer o ônibus que parara em vão para Helen dar a volta na Lua e voltar. O homem era lindo, e a olhava fixamente nos olhos esperando por uma resposta, que veio num grito a plenos pulmões:

– Sim! Sim! Acredito!

Então ele marcou um “X” num formulário sobre uma prancheta, agradeceu educadamente e foi embora, com seu crachá do Ibope.

Ponte-aérea (2007)

Decolo sob nuvens plúmbeas de São Paulo
A cidade a esgueirar-se em pseudópodes de luz.
Não termina. Seu concreto negro invade o horizonte
por onde quer que olhe meu olhar ovalado da janela do avião.

A cidade não tem fim. Nem começo.
Não esbarra no sopé de uma montanha.
Não se banha numa espuma de mar.
Não abraça uma lagoa, um lago, um delta.
Simplesmente a cidade se espalha.
A cidade simplesmente resplandece.

Colméia de luzezinhas que piscam.
De artérias de elétrons que pulsam.
Que se ramificam, se entrelaçam.
Neurônios nervosos numa massa cinzenta
que escorre pelo horizonte,
Crânio rompido à bala. Estilhaço. Foguete. Doce no sinal.

Milhares de metros abaixo, a cidade-monstro brilha.
Inofensiva. Gigante.
Quilômetros de paulistas, de concreto, de travessas, de imigrantes, de marginais, de metáforas, de dólares, de sangue, de dores, de risos, de sotaques, de cores.
Quilômetros paulistas transbordando na pequena janela.
Sendo aos poucos devorados pelas nuvens de chumbo.
O gigante devorado pelo ar cinza que expira.

A luz se acende. Me servem um sanduíche.
Logo a Coca-Cola no copo denuncia a inclinação.
O Rio de Janeiro se aproxima.

Máfia russa

43º andar
Sempre soube que ter escritório em andar alto era um bom negócio.

42º andar
Bela vista, as formiguinhas andando lá embaixo… acho que aquilo é um caminhão.

41º andar
Gerenciamento de crises… por que eu faltei essa aula mesmo?

40º andar
Ah, lembrei. Fui sair com a Joana. Nossa, que peitos!

39º andar
Eram tão bons assim? Valeram a pena?

38º andar
Gerenciamento de crises ou aqueles peitos?

37º andar
Os peitos, claro. Os peitos…

36º andar
Eles deveriam ter sido mais compreensivos. Com ou sem gestão de crises.

35º andar
Porra, um milhão não é tanto dinheiro assim…

34º andar
Como se eu só valesse um milhão! Eu valho mais que isso.

33º andar
Caramba! Aquilo era um urubu?

32º andar
Se bem que a Joana disse que eu não valia nada…

31º andar
Mas mamãe disse que eu era um gênio.

30º andar
Meu pai me achava criativo.

29º andar
Uma vez minha irmã jogou meu autorama da janela.

28º andar
Tudo porque meu Falcon matou a Barbie dela.

27º andar
A Joana me deixou por causa da Angélica.

26º andar
Aquilo de anjinho não tinha nada…

25º andar
Se eu tivesse ido à aula de gestão de crises ainda teria meu autorama.

24º andar
Se eu tivesse ido à aula de gestão de crises ainda teria a Joana.

23º andar
Mas seu eu tivesse ido à aula eu nunca teria pego a Joana.

22º andar
Escolhas… a vida é cheia de escolhas.

21º andar
O terno, por exemplo. Um Armani teria rasgado?

20º andar
Não era para esses ternos terem um reforço na perna?

19º andar
Mas não… tinha que comprar um mais barato…

18º andar
O infeliz aluga um escritório no 43º andar e compra terno vagabundo.

17º andar
Isso nem é nada. O pior é apostar 1 milhão de dólares num negócio furado.

16º andar
As formigas estão aumentando… parecem uns ratos zanzando.

15º andar
Gente de longe é muito feio. Parecem umas bolas de pelo perambulando.

14º andar
Pior é quando o milhão nem era seu.

13º andar
Nego não tem espírito esportivo, é foda. E por que me seguraram pela porra da calça?

12º andar
Não tem mais diálogo no mundo… todo mundo estressado.

11º andar
A gente deveria amar mais o próximo… saber perdoar.

10º andar
Joana, me perdoa!

9º andar
Eu perdôo minha irmã. O autorama não era tão legal assim.

8º andar
Eu perdôo o professor de gerenciamento de crises.

7º andar
Como ele ia adivinhar?

6º andar
Se bem que não custava nada dar a aula extra.

5º andar
Não passei no concurso por causa disso.

4º andar
Aí acabei me metendo com gente errada.

3º andar
Agora é tarde… tarde mesmo.

2º andar
Nunca mais me meto com a máfia russa.

1º andar

* * *

Baixe aqui o conto em formato PDF.