Arquivo para 'literatura'

Paranoid Android – o conto

Tem conto novo na área!!!

Este é o primeiro de uma série que batizei de “Letras do disco”: pequenas histórias que usam como argumento as letras de músicas de álbuns que marcaram minha vida. Ok Computer, do Radiohead, é o primeiro.

Clique aqui e baixe “Paranoid Android”, minha modesta homenagem a este disco de 1997, eleito por diversas publicações como o melhor da década de 90. Com justiça.

Saiba mais sobre Ok Computer no Last.fm.

Leia o conto.

Seis bebês… – Capítulo 15 – O FIM

Enfim, o fim de tudo. Confira agora o derradeiro capítulo da saga colaborativa mais confusa da galáxia.
Se tiver perdido o fio da meada, baixe o PDF completão com o texto completo do conto escrito por mim e por Leonardo Paiva.

Capítulo 15 – Todo fim tem um começo (e vice-versa)

Balbúrdia. Todos querem falar ao mesmo tempo. Bolinhos de chuva voam pelo espaço sideral. Pedaços de Belo Horizonte flutuam pelo nada, rodopiando serenamente sobre a imensidão estrelada. Parece o cenário do fim do mundo, mas não é. Na verdade, é o cenário de dois minutos depois do fim do mundo.

A Assembléia reúne a cada Aeon todos os departamentos, diretorias, gerências e sub-suplentes envolvidos na reformatação dos planetas alinhados à Corporação. Miguel, ainda vestindo o corpo de um mexicano caliente, discute calorosamente com o corpo furado de bala de Suzanne Cooper. Rose Shelley circula pelo ambiente, completando xícaras de chá que bóiam sobre o éter, oferecendo bolinhos que volta e meia cismam de sair voando de sua bandeja.

Um bebê brasileiro protesta com a boca cheia de guloseimas, e farelos voam pela galáxia. Johnny Hellmont, no corpo de Johnny Hellmont, tenta se livrar do bebê sem-nome de Vanildo e Amarilda, que questiona seus métodos para influenciar o resultado da formatação. Caminha pelo nada até bater de frente com um africano com longas tranças grisalhas. Olha para Yohana, dá meia volta, estica a perna para passar por cima do bebê e caminha para perto da Mesa da Presidência. Sobre a mesa, uma galáxia em forma de olho gira solenemente.

– Protesto! As máquinas foram beneficiadas! – brada um dos bebês queimados por Suzanne.
– É. Nós nem tivemos chance!!! É a primeira vez que isso me acontece… – pondera outro bebê. Johnny pega três estrelas do firmamento e começa a fazer malabarismos.
– Contra o estatuto reformulação está – afirma Yohana, batendo com seu cajado sobre Júpiter. – Topetudo descumprir regulamento.
– Que descumpri o quê, ô Steven Seagall. Não tinha que tacar um neném no vulcão? Taquei um neném no vulcão. Não tinha que explodir o planeta? Então explodi…
– REFORMATAR.
Silêncio. Quando Ele fala, é bom escutar. A galáxia em forma de olho prossegue:
– REFORMATAR É O PLANO. REFORMATAR É O PROCESSO. NÃO DESTRUIR A CRIAÇÃO. ALGO SAIU ERRADO.
– Eu disse! – gritam uns três.
– Eu sabia! – berram outros dois.
– Eu disse que sabia! – bradam os demais.
– Quem quer mais bolinho? – pergunta Rose Shelley.
Johnny olha para a galáxia em forma de olho. Acha que reconhece aquela voz de algum lugar, mas não se lembra de onde.
– Quem é o rosquinha, hein?
– SOU O CRIADOR. DE TUDO. MÁQUINAS E HOMENS. PLANETAS E ESTRELAS. PARA VOCÊ, SOU HÉLIX
– Helinho, camarada… bem que tava te reconhecendo… você deu uma engordada né, mas ficou bem legal…
– CALE A BOCA.
– Tá. Valeu.

Johnny recua até perto de Europa (a lua de Júpiter, não o continente, que nesse exato instante entra em órbita ao redor do Sol nas vizinhanças do Cinturão de Orth). A balbúrdia recomeça. Todos os representantes de departamentos estão visivelmente contrariados.

– Olhem só para isso!!! Era para termos recomeçado tudo numa boa, tranqüilos… – explana o bebê de Vanildo e Amarilda, fumando um charuto. – nem naquela Era Glacial que o Departamento de Clima e Expectativas criou por engano foi tão problemática!
– O bebê brasileiro, representante do departamento de Clima e Expectativas, partiu para cima do outro, sendo erguido pela fralda por Miguel.
– Olha galera… o papo aqui tá bom, o chazinho tá maneiro, né gatinha?, – diz o anjo mexicano, dando uma piscada de olho para Rose Shelley – mas eu tenho mais o que fazer… tem um zilhão de planetas por aí com porrada comendo solta e com umas mulheres… hmmm… de outro mundo…. anh… er… arram. Então? Dá para decidir ou tá difícil?

Silêncio. Se o momento é de decisão, isso é tarefa para o chefe. Hélix se manifesta.

– QUANDO JOHNNY JOGOU SEU BEBÊ NO VULCÃO, OUTROS DOIS BEBÊS, QUE LUTAVAM PRÓXIMO AO CUME, TAMBÉM CAÍRAM DENTRO DELE. ISSO CAUSOU A INSTABILIDADE TEMPO-ESPACIAL.
Silêncio de novo. Todos esperam que Hélix conclua seu pensamento, até porque a instabilidade tempo-espacial explica muita coisa mas não resolve nada.
– E? –Johnny se atreve a perguntar.
– E, POR ISSO, A REFORMATAÇÃO NÃO VALEU.
– Recomeçar processo Hélix precisa –argumenta Yohana. – E sem interferências. – Completa, olhando para Johnny, o “Deus das máquinas” de Hélix, que apesar de sua obrigação de isenção parece ter mexido seus pauzinhos mágicos para determinar o final de uma história que fugiu até mesmo a seu controle.
– COMO QUISEREM. SEM INTERFERÊNCIAS. SESSÃO ENCERRADA.

* * *

O Sol brilha com força sobre o deserto. O mamute bebe água tranqüilamente numa poça ao lado de um cactus gigante quando vê um brilho estranho sobre a superfície da poça. Olha para frente e leva um baita susto quando vê um mexicano correndo atrás de uma neanderthal com uma espada flamejante nas mãos. O mamute ergue seus chifres, recua e esbarra no cactus gigante, saindo em disparada.

As passadas do mamute apressado fazem a caverna de Vanildo Sapiens e Amarilda Sapiens tremer. Com isso, o desenho de pequenos morcegos (que obviamente ainda não surgiram na cadeia evolucionária) que Vanildo faz na parede fica total e completamente borrado. Ele sai para ver do que se trata.

Amarilda o segue, curiosa. O mamute passa por eles e some no horizonte. Vanildo pede a Amarilda que busque água no riacho que passa em frente à caverna. Ela obedece. Quando se abaixa, se encanta com formas coloridas que começam a surgir na superfície. São galáxias, que giram e rodopiam sem parar. Então aparece uma grande galáxia em forma de olho.

Amarilda gosta do que vê. E aquela imagem a inspira a criar coisas. Não pinturas na parede ou roupas com pele de tigres dente-de-sabre. Coisas com madeira, com pedra. Coisas mecânicas. Então ela se levanta e começa a imaginar que uma pedra redonda poderia ajudar a carregar coisas de um lado para o outro. E que uma pedra pontiaguda presa a um pedaço de madeira poderia dar uma boa ferramenta para cortar coisas.
Ela se levanta e começa a maquinar mais invenções. Na outra ponta do Cosmos, uma galáxia em forma de olho sorri.

FIM (ou melhor, recomeço)

Eduardo Galeano na Uerj (ouça a palestra)

No comecinho de setembro, tive a oportunidade de assistir a uma palestra do escritor uruguaio Eduardo Galeano. Dono de uma simpatia e simplicidade ímpar, falou por mais de uma hora para uma platéia de estudantes e professores de espanhol na abertura de um simpósio internacional na Uerj.

O tema da palestra era “O poder da palavra”, e o conferencista, falando em português e lendo textos seus em espanhol, reservou boas delas para os ouvintes. Um show de bom senso, coerência, visão de mundo e poesia.

Como todo bom escritor latino-americano, orgulha-se de ser o que costumamos rotular de comunista ou socialista. Confesso que, fora das frias páginas da teoria, já não sei dizer o que estes termos significam. Prefiro não me prender a estereótipos. Chame do que quiser. Eduardo apenas quer um mundo justo e igualitário. É pedir muito?

Gravei a palestra e a sessão de perguntas. Para ouvir, clique nos links abaixo. Para salvar os arquivos (formato MP3), clique com o botão direito e selecione “Salvar arquivo como…”.

Palestra de Eduardo Galeano na Uerj (MP3 – 45 min. – 2,6 Mb)
Perguntas a Eduardo Galeano na Uerj (MP3 – 25 min – 1,5 Mb)

O peito do pé do Pedro

O peito do pé do Pedro é preto
O dedo do pé do Pedro é preto
O braço esquerdo do Pedro é preto
O braço direito do Pedro é preto
Pedro é preto
Pedro não conheceu o pai
Pedro não consegue arrumar emprego
Pedro nunca entrou numa universidade
Pedro ganha menos pelo mesmo trabalho
Pedro é sempre parado em blitz
Pedro é confundido com bandido
E tudo o que as pessoas se lembram
é que o peito do pé do Pedro é preto

Eu ainda sonho

Eu estou morto
Mas já vivi

Eu estou morto
Mas já amei

Eu estou morto
Mas já senti o álcool queimar minha garganta como serpente de fogo
E gostei disso.

Estou morto
Mas já investiguei gotas de chuva na janela

Já vi Deus no farfalhar das folhas ao vento

Já soei o nariz para esconder lágrimas no cinema

Já confiei e me decepcionei, para tornar a confiar

Já desci de ônibus andando. Já subi em ônibus andando

Já dormi e passei do ponto. Já falei demais e passei do ponto

Já falei de menos e deixei o silêncio ensurdecer a vida

Já tive fé. Já tive dúvida.

Já almocei de pé. Já jantei prato feito, requentado no forno

Já acordei cedo. Já dormi tarde. Já dormi cedo. Já acordei tarde.

Já cantei errado, conheci o cerrado, a Mata Atlântica e a Avenida Atlântica

Já nadei no mar. Já tive medo das ondas. Já me queimou uma água-viva

Já coloquei dedo em vela para ver se era quente

Já chupei gelo, estiquei corrente. Tive medo de altura. Subi mais alto

Já disse adeus. Já disse olá. Já disse bom dia, já disse como vai.

Falei mentiras. Contei verdades.

Eu estou morto.
Mas ainda sonho.

Eu estou morto.
Mas eu ainda sonho!

Eu ainda sonho.
Eu estou morto.
Mas posso viver de novo.
Porque eu ainda sonho.

Sentido ou direção

Eu só procuro
Sentido
Eu só procuro
Sentido
ou direção

Sinto muito
Por favor, obrigado
De nada, volte sempre
Palavrinhas mágicas
Cartão de crédito
Imposto de renda
E nada faz sentido

Procuro instruções
Letras miúdas, contratos
Anexos, adendos
Cláusulas, clausuras
Oração e desespero
Ecstasy e hóstia
E nenhuma placa me indica a direção

Devolvo essa existência
Por defeito de fabricação
Ela veio sem manual,
Vivo sem instrução

Veio com peças que não se encaixam
Desaconselhável para menores de 83 anos
Se ao menos eu soubesse
Se ao menos eu soubesse
A direção

Eu só procuro
Eu só procuro
Sentido
ou direção

Pergunto a turistas perdidos na praça
Imersos em seus mapas e dicionários
e aos pivetes perdidos na praça
que dividem o espólio dos turistas

Pergunto a livros perdidos na praça
Ignorados, pegando chuva
Suas tintas se tingem, palavras escorrem
Poesia pelo ralo. Poesia no esgoto.
Palavras aos ratos.

Pergunto aos ratos,
Eles me falam em rima
E riem da ignorância
Dos que vivem cá em cima

Eu só procuro
Eu só procuro
Sentido
ou direção

Enquanto não acho sigo em frente
Sigo em frente e vivo em círculos
Na certeza de que parar é recuar
E que recuar é voltar ao começo
Onde não havia dúvidas
e eram poucas as esperanças

Bifurcações são o preço que paga
aquele que avança na estrada
Enquanto me perco espero
A luz salvadora e guia
Que me mostre o sentido
Que faça sentido
Ou direção

O ar é 80% nitrogênio

Inspire
Chore
Inspire
Espire
Inspire
Espire
Inspire
Espire
Inspire
Espire
Inspire
Espire
Suspire
Expire