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Tinha uma nuvem no meu quintal

Tinha uma nuvem no meu quintal.

Acordei e lá estava ela, do outro lado da janela.

Não chovia, nem trovejava ou relampeava – essas coisas que nuvens fazem.

Apenas nuveava, suave e delicada, se esgueirando por entre árvores, o cachorro do vigia e os esqueletos de prédios que alguém que nunca teve a cabeça nas nuvens vendeu mas não terminou de construir.

Do outro lado da janela, a nuvem nuveava.

E era estranho olhar para baixo e ver aquela cena que guardamos para o alto. Olhei para o alto e busquei gatos, grama, coisa de baixo. Nada. Apenas outras nuvens, que nuveavam no alto como minha nuvem nuveava no baixo.

Então surgiu o sol. E a nuvem se deu adeus. Dissipou-se sobre o cachorro, as árvores e os prédios sem gente e sem alma.

E assim terminou a história da nuvem que cansou do alto e veio nuvear aqui em baixo, do outro lado da janela.

PING KONG | KING PONG


PING…………..I…………..PONG
…..PING………I…….PONG…….
………..PING…I…PONG………..
…………PING..I..PONG…………
…………..KING KONG…………..
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Ponte-aérea (2007)

Decolo sob nuvens plúmbeas de São Paulo
A cidade a esgueirar-se em pseudópodes de luz.
Não termina. Seu concreto negro invade o horizonte
por onde quer que olhe meu olhar ovalado da janela do avião.

A cidade não tem fim. Nem começo.
Não esbarra no sopé de uma montanha.
Não se banha numa espuma de mar.
Não abraça uma lagoa, um lago, um delta.
Simplesmente a cidade se espalha.
A cidade simplesmente resplandece.

Colméia de luzezinhas que piscam.
De artérias de elétrons que pulsam.
Que se ramificam, se entrelaçam.
Neurônios nervosos numa massa cinzenta
que escorre pelo horizonte,
Crânio rompido à bala. Estilhaço. Foguete. Doce no sinal.

Milhares de metros abaixo, a cidade-monstro brilha.
Inofensiva. Gigante.
Quilômetros de paulistas, de concreto, de travessas, de imigrantes, de marginais, de metáforas, de dólares, de sangue, de dores, de risos, de sotaques, de cores.
Quilômetros paulistas transbordando na pequena janela.
Sendo aos poucos devorados pelas nuvens de chumbo.
O gigante devorado pelo ar cinza que expira.

A luz se acende. Me servem um sanduíche.
Logo a Coca-Cola no copo denuncia a inclinação.
O Rio de Janeiro se aproxima.

O peito do pé do Pedro

O peito do pé do Pedro é preto
O dedo do pé do Pedro é preto
O braço esquerdo do Pedro é preto
O braço direito do Pedro é preto
Pedro é preto
Pedro não conheceu o pai
Pedro não consegue arrumar emprego
Pedro nunca entrou numa universidade
Pedro ganha menos pelo mesmo trabalho
Pedro é sempre parado em blitz
Pedro é confundido com bandido
E tudo o que as pessoas se lembram
é que o peito do pé do Pedro é preto

Eu ainda sonho

Eu estou morto
Mas já vivi

Eu estou morto
Mas já amei

Eu estou morto
Mas já senti o álcool queimar minha garganta como serpente de fogo
E gostei disso.

Estou morto
Mas já investiguei gotas de chuva na janela

Já vi Deus no farfalhar das folhas ao vento

Já soei o nariz para esconder lágrimas no cinema

Já confiei e me decepcionei, para tornar a confiar

Já desci de ônibus andando. Já subi em ônibus andando

Já dormi e passei do ponto. Já falei demais e passei do ponto

Já falei de menos e deixei o silêncio ensurdecer a vida

Já tive fé. Já tive dúvida.

Já almocei de pé. Já jantei prato feito, requentado no forno

Já acordei cedo. Já dormi tarde. Já dormi cedo. Já acordei tarde.

Já cantei errado, conheci o cerrado, a Mata Atlântica e a Avenida Atlântica

Já nadei no mar. Já tive medo das ondas. Já me queimou uma água-viva

Já coloquei dedo em vela para ver se era quente

Já chupei gelo, estiquei corrente. Tive medo de altura. Subi mais alto

Já disse adeus. Já disse olá. Já disse bom dia, já disse como vai.

Falei mentiras. Contei verdades.

Eu estou morto.
Mas ainda sonho.

Eu estou morto.
Mas eu ainda sonho!

Eu ainda sonho.
Eu estou morto.
Mas posso viver de novo.
Porque eu ainda sonho.

Sentido ou direção

Eu só procuro
Sentido
Eu só procuro
Sentido
ou direção

Sinto muito
Por favor, obrigado
De nada, volte sempre
Palavrinhas mágicas
Cartão de crédito
Imposto de renda
E nada faz sentido

Procuro instruções
Letras miúdas, contratos
Anexos, adendos
Cláusulas, clausuras
Oração e desespero
Ecstasy e hóstia
E nenhuma placa me indica a direção

Devolvo essa existência
Por defeito de fabricação
Ela veio sem manual,
Vivo sem instrução

Veio com peças que não se encaixam
Desaconselhável para menores de 83 anos
Se ao menos eu soubesse
Se ao menos eu soubesse
A direção

Eu só procuro
Eu só procuro
Sentido
ou direção

Pergunto a turistas perdidos na praça
Imersos em seus mapas e dicionários
e aos pivetes perdidos na praça
que dividem o espólio dos turistas

Pergunto a livros perdidos na praça
Ignorados, pegando chuva
Suas tintas se tingem, palavras escorrem
Poesia pelo ralo. Poesia no esgoto.
Palavras aos ratos.

Pergunto aos ratos,
Eles me falam em rima
E riem da ignorância
Dos que vivem cá em cima

Eu só procuro
Eu só procuro
Sentido
ou direção

Enquanto não acho sigo em frente
Sigo em frente e vivo em círculos
Na certeza de que parar é recuar
E que recuar é voltar ao começo
Onde não havia dúvidas
e eram poucas as esperanças

Bifurcações são o preço que paga
aquele que avança na estrada
Enquanto me perco espero
A luz salvadora e guia
Que me mostre o sentido
Que faça sentido
Ou direção

O ar é 80% nitrogênio

Inspire
Chore
Inspire
Espire
Inspire
Espire
Inspire
Espire
Inspire
Espire
Inspire
Espire
Suspire
Expire