Arquivo para 'Treconologia'

Chuva na Tailândia prejudica festa do Pedrinho

A gente só se dá conta da globalização quando ela dá errado. Foi o que pudemos ver quando uma enchente de grandes proporções na Tailândia alagou casas, escritórios, empresas e as principais fábricas de discos rígidos do planeta.

Com a chuva, provocada pelo período de monções mais intensos dos últimos 50 anos, as exportações de HDs pelo país já caíram mais de 20%. Em diversos mercados pelo mundo, já se sente um encarecimento no custo dos computadores e a alta pode persistir até o segundo semestre de 2012. Segundo Loren Loverde, Vice Presidente da empresa de consultoria IDC, crises no fornecimento de componentes não são novidade para a indústria de fabricação de PCs, mas uma falta de hard disks será um choque, já que a Tailândia responde por quase 45% de todo o mercado, com empresas do porte da Seagate e Western Digital.

Aumento de preço é sempre ruim, claro, mas para nossas necessidades cotidianas, o máximo que pode acontecer é postergarmos um pouco a compra daquele HD externo de 2 TB. Imagine o impacto do encarecimento ou, pior, do total desaparecimento dos HDs para as gigantes da Web, cada vez mais mergulhadas de cabeça na oferta de soluções baseadas em hospedagem de dados e de aplicações online, o cloud computing.

Amazon, Google, Apple, todas apostam nisso, sugando e armazenando milhões de megabytes de fotos, músicas, planilhas, receitas de bolo e vídeos. Sem discos para suprir a insaciável demanda por hospedagem, as gigantes ficariam numa baita encruzilhada, que poderia derrubar suas ações nas bolsas de valores e iniciar uma grave crise de confiança do mercado aos cada vez mais prevalentes modelos baseados na Nuvem. Tudo isso porque outras nuvens carregadas fizeram chover além da conta na Tailândia.

O bad block global ainda não aconteceu, mas a simples possibilidade me fez pensar que não estamos tratando o conteúdo digital com o devido respeito no que tange ao uso racional de recursos. Temos para nós que o espaço na Nuvem é infinito e a cada dia mais barato.

O Chris Anderson, editor executivo da fantástica revista Wired, baseou seu best-seller “A Cauda Longa” em algumas premissas, sendo uma delas justamente a de que o preço do megabyte tende a zero. E zilhões de planos de negócio e palestras repetiram e se basearam nesse conceito. Faltou combinar com os russos, japoneses, chineses, tailandeses e com São Pedro.

“E se estiver tudo errado?” é um péssimo pensamento para se ter quando você está no meio de uma empreitada, como pular de paraquedas, por exemplo, mas é melhor refletir sobre o tema agora do que depois que a História responder por nós. Fato é que essa cultura do megabyte infinito está por toda parte, até mesmo em salões de festas infantis, onde pais babões registram seus pimpolhos em câmeras digitais a 14 megapixels quando 2 megapixels seriam totalmente necessários para dar o devido brilho às fotos tremidas e sem foco de crianças correndo em círculos.

Uma foto de 2 megapixels possui resolução de 1600 x 1200 pontos, o suficiente para imprimir em 10×15 (o tamanho padrão de fotos) e para exibição em telas de alta definição. E tudo isso em 0,9 Mb por foto.

Com 14 megapixels, a mesma imagem teria 4320 x 3240 pontos e ocuparia 2,7 Mb, ou três vezes mais em JPG com 100% de compressão. Dá para imprimir um pôster de 73×55 cm, coisa que nem eu nem você fazemos toda semana.

Esses 2,7 Mb ficam no cartão de memória, no HD do laptop, no HD externo de backup e na Nuvem, no serviço de álbuns online do cidadão, e em seu perfil no Facebook. Em cada um deles, há ainda réplicas de backup. Ou seja, cada foto de seu filho ocupa pelo menos 7 vezes o tamanho do arquivo, isso para ser conservador. Nessa conta, cada foto de seu pimpolho ocupa 19Mb espalhados pelo mundo. Uma festinha básica, com Bob Esponja, bolo e 100 fotos, ocupam 1,9 Gb por aí.

E por mais que os discos sejam cada vez mais potentes e velozes, eles continuam sendo construídos com minérios raros e recursos naturais, demandam energia elétrica e emitem calor (ok, isso algumas tecnologias já superaram).

Sozinhos, os data centers do Google consomem 260 milhões de Watts, mais ou menos um quarto da produção de uma usina nuclear e suficiente para iluminar 200.000 residências e um pouco menos de casas de festas infantis. Essa energia vem do acesso a dados, desde fotos a vídeos do YouTube, passando pela fatia importante consumida por cada busca realizada. Em 2010, o Google emitiu 1,5 milhão de toneladas cúbicas de carbono, isso porque 25% de sua energia já vem de fontes renováveis, como usinas eólicas.

Some a isso o consumo das demais gigantes, das empresas de backup online e etc e temos um lado negro, global e esfumaçado do mundo digital. Em última instância, o mundo pode sobreviver à Guerra Fria e acabar com o excesso de festas infantis e tios com câmeras potentes. Com ou sem chuva na Tailândia.

Publicado originalmente no Techtudo, em 18/11/2011.

Murais: retalhos que não viram colchas

Sempre que algum projeto inovador surge e toma a dianteira do mercado de forma inegável, suas características mais marcantes deixam de ser um retrato do que pensam seus criadores/executivos para ser uma verdade absoluta, um modelo a ser seguido ao pé da letra por quem quiser triunfar no mercado.

Foi assim com o navegador Netscape, com os maiores sucessos da Apple, com o Yahoo!, com o Google e também com oFacebook. E é o mural sua característica mais forte, e a área que ocupa a maior parte da tela e do tempo de quem entra no site. O mural, assim como a timeline do Twitter, é o espaço onde os fragmentos de informação de cada membro da rede social se juntam.

Isso é a magia da rede social e – como o recurso é cada vez mais copiado – das redes sociais em geral. Mas é também seu grande ponto fraco. Ao se reunirem na tela por critérios diversos, como cronológicos, popularidade ou relevância, os fragmentos continuam sendo apenas isso. Pedaços. O mural não é nem uma colcha de retalhos, é uma cesta cheia deles, esperando para serem costurados. Ou não.

Já se falou muito sobre isso, e longe de mim vir aqui atacar de crítico da comunicação digital, mas ao contrário de fóruns, de alguns blogs, das antigas comunidades do Orkut ou outros ambientes digitais que permitem uma troca constante de informações entre um grupo restrito de pessoas, o formato mural não permite que se construa uma ideia sobre pensamentos de outros de forma simples e natural.

É difícil dar sequencia a um pensamento sobre uma ideia postada por alguem quando, segundos depois, você é bombardeado por setas dizendo que  a pessoa acima jamais fez alguma coisa ou um vídeo com uma repórter de TV sendo expulsa do ar por um bando de idiotas.

Ao contrário dos fóruns, dos antigos BBS ou outros temas onde fugir da pauta era considerado fazer um “off-topic” (literalmente, “fora do tópico”), o mural é essencialmente uma coleção de off-topics.

É claro que muitas coisas bacanas são criadas o tempo todo no Twitter ou no Facebook, mas, especialmente neste último, a mecânica da rede dificulta isso. Como cada vez dedicamos mais tempo a este formato de rede social, que se tornou uma verdade absoluta, o resultado é preocupante para quem defende e acredita que as redes sociais podem ser fundamentais para a consolidação de uma cultura de colaboração, participação e igualdade.

O modelo mural é rico para a disseminação de informações, de bandeiras ideológicas, para convocar adeptos a campanhas, abaixo assinados e ações populares em geral, mas é fraco e inadequado para a construção do conhecimento, autoria coletiva e a construção de fragmentos inacabados de ideias ou conteúdos que em si não tem vida, mas que estão apenas esperando a outra ideia que os completarão em algo inovador.

Mas cada vez mais o Facebook (liderando um batalhão de clones ou outras redes igualmente inovadoras mas que se renderam ao apelo do líder) se vende e é entendido como Uma Rede Para Todos Governar, o que é uma falácia. O Facebook é uma fantástica ferramenta de entretenimento, mas não pode substituir todas as outras ferramentas. Ele pode até se prestar a conteúdos mais aprofundados, mas não é feito para isso. Entretenimento é ótimo, sou, como usuário, apaixonado pelo Facebook, mas diversão não é tudo. A gente também quer comida, arte, fazer amor. Ele é fantástico naquilo a que se destina. O problema somos nós, que teimamos em ver nele a solução para todos os nossos problemas e a cura para a espinhela caída.

O mural é feito para se assistir tentando acompanhar a velocidade das letras, como créditos finais de filmes, só que interessantes e divertidos. Murais são passatempos. Com as mudanças na interface, pode-se apenas sentar em frente à tela e assistir ao vivo à vida e ideias de sua rede de contatos. Como no Twitter. O formato mural permite que sejamos para a internet o que os americanos chamam de couch potato, uma batata de sofá, inerte em frente à tela. Podemos ficar horas consumindo conteúdo e, ao final, não nos lembrarmos de nenhuma informação em especial.

Existe, sim, como criar e consumir conteúdo de forma mais organizada e integrada. As ferramentas para isso estão em todo lugar: hashtags no Twitter, grupos no Facebook e LinkedIn, comunidades no Orkut, fóruns e wikis. O problema é que, para chegar lá, é preciso passar por um buraco negro de tempo e atenção chamado mural. A lâmpada brilhante, divertida e atraente que nós, insetos, aprendemos a amar.

Publicado originalmente no Techtudo, em 01/11/2011.

Qual o futuro da internet?

Quase sempre que alguém me entrevista sobre redes sociais há uma pergunta recorrente. Deve ser o equivalente a perguntar ao jogador de futebol após uma vitória se o resultado foi positivo. E a pergunta é: “Qual o futuro da internet?”

Adianto então a resposta. E ela é simples. Não chega à mágica simplicidade do “42”, a resposta para A Vida, o Universo e Tudo o Mais, mas é quase. Tem duas palavras apenas:

“Ninguém sabe”.

Poucas coisas são mais imprevisíveis do que tecnologia. Ou melhor, do que a gente é capaz de fazer com novas tecnologias.

É como se a tecnologia quisesse seguir sempre em frente, mas a gente pega aquele trilho e faz um desvio nele. A partir daí, tudo se reconfigura para seguir em frente a partir do desvio. Até a gente fazer um puxadinho pra outro lado.
Um monte de coisas vai moldar esse futuro. Listo algumas:

1) Qual será o dispositivo? Vamos interagir com os outros e com o conteúdo pela TV? Pelo celular? Torradeira? Computador? A Web está morta, como cogita a Wired?

2) O que vai colar? E o que não vai? O Orkut não foi feito, ele aconteceu. Idem para o Twitter. Na outra ponta, Foursquare e Chatroulette não vingaram como prometiam. Discutir ferramentas me desinteressa profundamente, mas elas são, não posso negar, parte da equação.

3) Teremos tempo e dinheiro para brincar? Brincar é o primeiro passo. Perder tempo, bater papo, namorar digitalmente, comprar uma coisa ou outra. Pelo que mostra nosso comportamento digital, definitivamente os humanos não vieram ao mundo a trabalho.

4) E a inclusão? A internet se populariza no Brasil com velocidade assustadora, mas ainda não chega de forma rotineira nem à metade da população. E seu principal carro-chefe, o Orkut, já não cresce. Teremos alcançando o teto de alcance e interesse que essa web atual oferece a nosso povo?

5) E a grande mídia? Desprezar o poder de uma mídia que chega a 95% dos lares brasileiros, como a TV, é doideira. Que modas ela vai abraçar? Quem será o novo Twitter a ganhar capas e capas de revistas? Vale lembrar que os grandes saltos da web se deram quando ela soube cooptar o mainstream e usar a mídia de massa, monolítica e desajeitada, a seu favor. Ou vice-versa.

6) E o dinheiro? Conseguiremos juntar a inevitável digitalização de tudo a modelos de negócio que funcionem? A internet é fruto da árvore capitalista. Se, no fim, a coisa não der dinheiro, não haverá pesquisa nem inovação. E se o Google for dividido em vários por ter se tornado um monopólio global? E se surgir um novo Google? E se Steve Jobs reinventar a roda de novo (leia-se, lançar algo que já existe, só que banhado numa aura cool e com pitadas de genialidade)?

7) E você? O que você vai fazer? Continuará sendo os 80% que só consomem? Resquícios de nosso papel social de “audiência” ou vai criar algo? O que você vai criar? O que você fizer é o que o mundo digital será.

O que você acha?

Paulo Barros e o mashup como forma de inovar

Não entendo muito de carnaval (até desfilei uma vez, mas isso é outra história), mas curto acompanhar os desfiles. E desde o carnaval 2007, quando apresentou um enredo sobre fotografia, sou fã da Unidos da Tijuca. Este ano, depois de muito bater na trave, a agremiação faturou o carnaval do Rio de Janeiro. Paulo Barros, o carnavalesco, mais uma vez é incensado por público e pela imprensa. O que ele tem de especial?

Desfile da Unidos da Tijuca / Carnaval 2010Paulo Barros não vive 100% o mundo do carnaval. Isso é visível em seu discurso e em suas referências. Ele vive em diversos mundos, como a maioria de nós. Olha o mundo e suas tendências como inspiração. E, mais que tudo, Paulo Barros entendeu que vivemos a era do mashup.

Seus desfiles saem da mesmice e encantam porque não procuram inovar dentro do repertório repleto de “miscigenação”, índios, e “… é carnaval!”. Ele busca inovar trazendo elementos corriqueiros de outros universos.

Sua premiada comissão de frente com bailarinos fazendo seis trocas de roupa a cada dois minutos nada mais é do que um truque do mundo do ilusionismo. O mesmo caminho levou Jack Sparrow, Batman, Michael Jackson e Homem-Aranha para a Avenida. Seus desfiles trazem elementos do teatro, do cinema, dos quadrinhos.

O enredo foi sugerido por um adolescente, via Orkut. Paulo Barros não fala de internet de forma caricata e desentendida, como fez a Portela este mesmo ano. Ele traz a internet como linguagem, como cultura.

O segredo de Paulo Barros é a mistura. Ele cria a partir não das referências que desenterrou de gravuras da época de Cabral, ou de lendas indígenas desconhecidas. Ele cria a partir das referências que cada um de nós, que não vive 100% carnaval, temos. Paulo descobriu que é muito mais fácil e inovar pelo mashup do que por variações sobre o mesmo tema.

Se você quiser inovar, ser um Paulo Barros na sua indústria, tente descobrir o que é seu carnaval e que elementos você pode trazer dos carnavais dos outros.

2010: De redes sociais para jogos sociais

A pedido da Revista Webdesign, tentei prever algumas tendências para 2010 em redes sociais e mídia digital, em geral. Como qualquer previsão, o risco de errar é maior que o de acertar. Quem viver, verá.

“Prever o futuro é a melhor maneira de garantir seu lugar na história, como alguém que previu algo absolutamente errado. Embora quase tudo que nos cerca seja evolutivo, vez em quando surge uma ruptura, algo que não havia sido previsto e que muda tudo. Isso vale tanto para o 11 de setembro como para o Twitter.

Mesmo assim, vou arriscar duas tendências que, acredito, farão barulho em 2010:

1. O fim das redes sociais

As redes sociais continuarão seu processo de crescimento e de amadurecimento. Elas serão inevitáveis e
indispensáveis. Serão fortes e impactarão profundamente a forma de consumo e de troca/manutenção de laços afetivos e de informação. Elas serão tão grandes que desaparecerão. Mídias sociais, cada vez mais, se tornarão sinônimo de internet. Que cada vez mais se torna sinônimo de mundo.

2. Jogos de Guerra. E de compras, e de amor, e de viagens

Jogos. Por toda parte. Acredito num esfriamento da exploração do capital social, de fomentar o espírito de
colaboração, participação e coautoria em troca da possibilidade de se virar microcelebridade. Esse espírito é
fundamental em redes sociais, mas é natural apenas em uma pequena (porém poderosa) parcela das pessoas.

O apelo lúdico dos jogos, porém, tem alcance bem maior. Iniciativas ainda mambembes, como o FourSquare e
os jogos de Facebook, nos apontam um caminho: travestir redes sociais como jogos para motivar a cocriação. Ou agregar redes sociais a jogos – XBOX 360 e sua Live -, impactando os games, os consoles e até a pirataria.”

Como identificar um dono de smartphone?

Smartphones são aqueles celulares que agregam tantas funções que viram poderosos computadores de bolso, demandam uma Itaipu de energia para funcionarem e, em geral, são péssimos telefones. Mas quem tem, não vive sem (rima horrorosa). Tanto que dá para identificar fácil-fácil quem é dono de um iPhone, Android ou afim:

O dono de smartphone:

  1. Ao entrar em qualquer ambiente desconhecido, ele checa todo o perímetro da sala em busca de tomadas onde possa recarregar a bateria;
  2. Ele desenvolve uma incrível capacidade de andar e desviar de objetos enquanto se concentra totalmente em responder a uma piada por e-mail ou procurar por menções a si mesmo no Twitter;
  3. Ele aprende (ou acha que aprende) a dirigir enquanto digita com as duas mãos no aparelho;
  4. Ele não acha seu aparelho grande. As calças é que têm bolsos cada vez menores!
  5. Foi banido de gincanas culturais em bares por uso excessivo de Wikipedia;
  6. Ao conhecer novas pessoas, busca desesperadamente uma desculpa para fazer contas, ver as horas ou checar o trânsito no aparelho. Pode apresentar tremedeiras ou suor frio se, em alguns segundos, ninguém perguntar “Que aparelho é esse?”;
  7. Mesmo com sol forte lá fora, ele sai de guarda-chuva se esta for a previsão do tempo no smartphone;
  8. Não existe horário estranho para responder um e-mail. De preferência com o aviso de “Enviado de meu smarphone”;
  9. Ele tem o telefone do adido cultural de Honduras no Iêmen, mas não tem o telefone da irmã no aparelho (claro, ele nunca trocou cartões de visita com ela);
  10. Ele não fica muito tempo com o mesmo aparelho. Isso o faz retornar constantemente ao item 6 e aumenta a intensidade dos demais.

Sobre rankings, celebridades e a natureza humana

O brilhante Alex Primo tem feito alguns posts em seu blog discutindo o sentido (ou a falta de) em se falar de celebridades da web. Isso me remeteu a outra boa e velha discussão: por que continuamos obcecados por virais, celebridades, TOP 10s e rankings que, teoricamente, deveriam ter sido banidos com a disseminação da internet e das redes sociais?

Ora, acreditávamos que, livres da ameaça perniciosa da mídia de massa, finalmente poderíamos ver os filmes que quiséssemos, ouvir as bandas mais obscuras, nos informar nas fontes mais diversas. Estaríamos livres dos rankings da Billboard, mais vendidos da Veja ou maiores bilheterias nos EUA. Também estaríamos livres das celebridades ocas da TV.

Antes de entrar nos detalhes dessa discussão, vale um breve exercício. Acho que, cegos e apaixonados pela revolução tecnológica, atribuímos a ela uma responsabilidade além do que a tecnologia (qualquer uma) pode entregar: ousamos pensar que ela mudaria a essência do que somos.

Que me perdoem os ciberpunks, mas a tecnologia não muda o Homem. Darwin muda o Homem. Ou Deus, se preferir, muda o Homem. A internet e as tecnologias em geral mudam COMO fazemos as coisas, mudam O QUE fazemos, mudam até o QUANDO ou QUANTO fazemos. Mas a tecnologia não consegue mudar POR QUE fazemos. Porque o motivador de nossas ações são nossas necessidades e desejos mais íntimos.

Em alguma instância, mais próxima ou remota, comer um Big Mac, esperar o chefe sair da sala para ver o vídeo da Maíra do BBB no computador do trabalho ou baixar o filme dos X-Men são ações solicitadas pelo TCP-IP da existência: nosso DNA.

Partindo-se da premissa de que as tecnologias trazem respostas novas para problemas reformulados a partir de necessidades perenes, celebridades, rankings e TOP 10s são respostas a uma necessidade orgânica e psicológica nossa. Não são invenção maquiavélica e exclusiva da comunicação de massa.

Provavelmente, a gente gosta mesmo de baixaria e violência. Seja em que mídia for.

Sem entrar no mérito da validade ou não de se usar o termo “celebridade” para os fenômenos específicos da blogosfera, acredito que um conceito fundamental para entendermos esse comportamento da mídia de massa no contexto das redes sociais é o da escala: em muitos aspectos (não em todos, é claro), as redes sociais se comportam como um emaranhado de redes massivas em miniatura.

Explico antes que me crucifiquem: no que diz respeito a nossas buscas por referências externas, a internet não veio acabar com rankings, blockbusters, “mais vendidos”etc. Ela apenas fragmentou estes universos. Mudou as fontes. Se antes dependíamos da Billboard para nos dizer quais os 10 melhores discos do mês, hoje formamos nosso próprio ranking no Last.fm.

Se antes a Veja nos dizia que livros ler, hoje vemos que livros as pessoas mais parecidas conosco estão lendo na Amazon ou em redes sociais de livros. Se antes a bilheteria nos EUA era fundamental para definirmos que filmes veríamos no final de semana, hoje esse processo acontece na Net Movies, acontece no Torrent.

Mas os rankings permanecem. Se antes lia-se Paulo Coelho porque ele vendeu milhões de exemplares, hoje se segue o @fulano porque ele já tem 2 mil seguidores. “E não deve ter 2 mil seguidores à toa”.

Os meios, as ferramentas, os formadores de opinião mudaram. Mas a necessidade de termos respaldo na opinião de nossas (agora múltiplas) tribos permanecem. Antes pensávamos: “Um milhão de pessoas não podem estar erradas”. Hoje pensamos: “Todo mundo não pode estar errado.”

E nosso “todo mundo” equivale a 200 pessoas que curtem Zumbi do Mato (eu curto). 50 cineastas amadores de Botucatu. 20 evangélicas lésbicas de Bom Jesus do Itabapoana. O francês Michel Maffesolli retratou com precisão o aspecto tribal da geração das redes sociais… antes de existirem as redes sociais.

Porque isso não vem de Cupertino ou Mountain View, na Califórnia, vem de nosso cérebro. A gente simplesmente não consegue pensar sozinho. “Certo” ou “Errado” são conceitos relativos que dependem da cara de aprovação ou condenação do sujeito a seu lado.

Precisamos da “opinião dos outros”, mesmo que seja para negá-la. E isso gera as sub-pseudo-celebridades da web, isso gera as tag clouds, trending topics, trendhunters e o que mais você disser em inglês que responda a uma pergunta básica: “Isso aqui é bom mesmo ou eu que sou um idiota?”

Isso explica nossa ridícula fascinação por número de seguidores, leitores de feed, amigos no Orkut. Ser uma pessoa tímida offline fazia você ser um forasteiro nas diversas tribos que freqüentava, mas você só era um Zé Ninguém uma tribo por vez. Não ter amigos no Orkut ou seguidores no Twitter faz de você um forasteiro no mundo, um lunático falando sozinho, um segregado, um Botsuana do capital social.

Voltando às celebridades da web, elas podem não ter o mesmo alcance de seus pares tradicionais. Podem não ter a disseminação multi-plataforma, nem ter um altar bacana como o da Paris Hilton. É, pode ser. Mas a motivação para colocá-las no alto desse altar é igualzinha. E a total falta de necessidade de algum conteúdo, ato, feito ou propósito real para se levar a celebridade ao altar também.

As redes são outras, as escalas são outras, as dinâmicas totalmente diferentes. Mas as pessoas… ah, essas são as mesmas. E continuarão sendo.

Todos podem ser um Crisdias?

Durante sua apresentação na edição 2008 do Intercon, Cristiano Dias nos apresentou uma fascinante visão de um mundo onde o verdadeiro capital não é financeiro, mas social. O que o Crisdias fala tem peso. Tem peso porque ele tem capital social, o que só reforça sua tese.

//www.flickr.com/photos/rtarga/Capital social é “tudo aquilo que o dinheiro não compra” numa relação entre duas ou mais pessoas. Afeto, credibilidade, reputação, pertencimento… tudo isso tem valor, tudo isso transita pra lá e pra cá quando você faz um discurso, quando entra numa comunidade ou manda o link para aquele vídeo da Paris Hilton. E, em termos de capital social, o Crisdias é podre de rico.

Mas a pergunta que me fiz, vendo a bela palestra, foi: será que todo mundo pode ser um Crisdias?

No que depender das leis matemáticas por trás da internet, da sociedade, do mercado financeiro e até do metabolismo celular, não.
Mesmo que, subitamente, todos nós nos tornemos simpáticos, sagazes, inteligentes, sortudos, com boa reputação, totalmente “do bem” e bem relacionados (que é a “carteira de ações” que faz do Crisdias um Carlos Slim do capital social), isso não significa que todos nós nos tornaremos um Crisdias.

A explicação, na verdade, é bastante simples e assustadora: a natureza e nossa sociedade abominam a igualdade. Recorro ao pesquisador Albert-Lászlo Barabási para me socorrer. Em seu livro Linked, de 2003, ele nos revela avanços em nosso entendimento sobre redes complexas. A internet, a economia, as redes sociais (offline ou online), as rotas aéreas, os ecossistemas e o metabolismo celular são redes complexas. E são redes de um tipo particular, as redes livres de escala: em todas, absolutamente todas, um pequeno número de nós (elementos) possui um número absurdo de elos, Links, relações com um número assombroso de outros nós/elementos. E uma grande maioria possui apenas um punhado de elos, links e relações.

O gráfico que desenha isso é um gráfico de lei de potência. Aquele mesmo que ilustra a cauda longa (Long tail). Soa familiar? É o velho e batido teorema de Pareto. Os 20% de Crisdias acumulam tanto capital social quanto os 80% de Cassanos, Zés da Silva e Joe Does que completam a blogosfera.

Imagine um exemplo bem prático: seu bairro tem três açougues. Um deles tem ótima reputação, a carne é ótima e o açougueiro é gente boa. Os outros dois são uma porcaria e a carne é de procedência duvidosa. Ora, você aceita até pagar mais caro pelo açougue do gente-boa. Agora, se os três açougues são ótimos, com reputação, carnes incríveis e açougueiros seus amigos, você pode comprar em qualquer um. E vai, provavelmente, optar pelo mais barato, ou pelo mais perto de sua casa. Isto é: quando todo mundo tem muito capital social, a sociedade como um todo é rica, mas individualmente todos são pé-rapados de wuffies, a moeda virtual citada pelo Cris em sua palestra. Capital social é elemento de diferenciação.

Mas será que tudo o que pesa no capital social é regido pela mecânica das redes? Quase tudo. As mesmas teorias que explicam as redes livres de escala mostram que elas são assim porque os links que têm mais, tendem a ganhar mais. Cada vez que o Cris é chamado para um evento, ele ganha capital social (“ih, olha lá aquele blogueiro que deu certo…”). Na hora de fazer um evento e escolher os blogueiros a chamar, matematicamente, o Cris tem mais chances de ser chamado do que a gente, porque a tendência é a pessoa chamar aquela que já recebeu mais convites. Quanto mais conhecidos ele tem, maior a chance de ele ser apresentado a mais pessoas. Quanto mais trabalhos/negócios legais ele fizer, maior a chance de fazer outros trabalhos/negócios bacanas.

É por isso que os ricos tendem a ficar mais ricos. Os famosos, mais famosos. Os “pegadores”, pegando mais gente.

Então é o fim? Devo parar de blogar? Fugir da internet? Claro que não. Primeiro, porque estatisticamente é difícil, mas longe de impossível, ser um Crisdias. O tal 80/20 de Pareto é mais um exemplo do que uma fórmula matemática precisa, mas vamos lá: nesse raciocínio você teria, mais ou menos, 20% de chance de virar um Crisdias. Nada desprezível. Só não há a menor possibilidade de você, todos os seus amigos e os amigos de seus amigos virarem Crisdias. Só com clonagem.

Segundo, porque o Cris estava certo. Existem mil formas de capital, todas até mais importantes que a mera monetização dos blogs. E terceiro, porque não é preciso ser um Crisdias para ser um blogueiro/ blipeiro/ twitteiro/ qualquercoisazeiro realizado profissionalmente. O que explica isso é outra característica das redes sociais: se você pegar um pedacinho de uma rede livre de escala e “olhar no microscópio”, ela apresentará a mesma estrutura da mãe. Isto é, não importa a escala (se você está olhando 10%, 50% ou 100% dela), ela terá o mesmo desenho: alguns poucos hubs mega-conectados e uma maioria pendurada na rede por alguns fios.

O que isso quer dizer? Muita coisa. A internet não é uma mídia de massa. Não é comunicação de massa, mas o império da massa de comunicadores. Não existe uma Meca na internet para onde todo mundo olhe ao mesmo tempo. Mesmo o Crisdias é um ilustre desconhecido pra muita gente. Isso acontece porque o mundo – não faz mais sentido separar mundos online e offiline, é tudo a mesma coisa – é assim. Um conjunto de zilhões de pequenos, complexos e incríveis mundos.

O movimento dos busólogos (apaixonados pelo estudo dos ônibus urbanos) certamente tem seus Crisdias. Os médicos também. Os analistas de capital de risco, os umbandistas, os fãs de Maria Rita, os punks, os funkeiros, os palmeirenses e os abraçadores de árvores. Existe, até mesmo, o Crisdias dos bebedores de Santo Daime.

Afinal, para cada Carlos Slim tem sempre uns dez Eike Batistas. E, convenhamos, não é nada mau ser um Eike Batista.

10 coisas para fazer se o Twitter acabar

1 - Compre um caminhão. Passe a escrever tudo o que você twittaria no pára-choque.
2 - Passe a falar seus tweets para estranhos. Por exemplo, vire-se para a senhora a seu lado no ônibus e diga: “Odeio festa em que servem Kovac. Pronto, falei”.
3 – Escreva seus tweets em post-its e prenda na geladeira. De tempos em tempos, fotografe sua geladeira e mande a foto para o Flickr.
4 – Descubra outras funções para seu celular. Como joguinhos ou telefonar, por exemplo.
5 – Dê mais atenção para seu abandonado agregador de RSS.
6 – Leia jornais. De preferência impressos, para evitar a eventual tentação de twittar alguma matéria específica.
7 – Compre uma lata de spray. Imortalize seus tweets em muros e paredes. Recomenda-se aprender Le Parkour e contratar um bom advogado.
8 – Volte a blogar.
9 – Sempre que vier uma vontade de twittar, o braço começar a tremer e você procurar o celular/PDA/smartphone/EeePC/laptop, pense “Só por hoje não twittarei. Só por hoje”
10 – Monte uma Herbalife para ex-twitteiros em abstinência. “Deixe de twittar agora. Pergunte-me como”.

Sou+Web debate Redes Sociais no Rio

Recebi este aviso para mais um evento dedicado às Redes Sociais e compartilho com a turma. Até porque o sempre gente boa Nepô vai participar.

Neste sábado, dia 18, acontecerá o segundo debate do Sou+Web (série de eventos mensais sobre Marketing e Comunicação na Internet, promovidos pelo curso de Pós-Graduação em Gestão Estratégica de Marketing Digital, da Facha).
O bate-papo irá de 10h ao meio-dia, no auditório da Facha (Rua Muniz Barreto, 51, Botafogo, Rio de Janeiro). Ofereceremos sucos, café e biscoitinhos doces e salgados para quem quiser nos acompanhar num café-da-manhã e trocar idéia antes do debate (basta chegar um pouquinho antes das 10h).

O tema será:
Redes Sociais como ferramenta de marketing
Comunidades, Orkut, Facebook, Twitter, Digg, Delicious, Blogs… como estão usando estas ferramentas para comunicação e marketing online?

Estou feliz por ter conseguido juntar três profissionais mega-feras que são muito admirados e respeitados no cenário de internet no Brasil:

Carlos Nepomuceno
Jornalista formado pela PUC-RJ, mestre em Ciência da Informação pela UFRJ, doutorando pela UFF e especialista em informação no ciberespaço, pela Internet Society no Havaí. Consultor de tecnologia para o Sebrae, IBAM e Petrobrás. Professor do MBA do Crie/Coppe/UFRJ e autor do livro “Conhecimento em Rede”. Idealizador do Instituto de Inteligência Coletiva, e do primeiro software livre brasileiro para criação de redes sociais.

Cristina Dissat
Jornalista formada pela UFF, trabalhou com jornalismo de moda nas revistas Desfile, Amiga, Manchete, Fatos e Fotos e Criativa. Desde 1989 atuando em jornalismo científico, passou a se especializar em conteúdo web a partir de 1995. Referência nacional em conteúdo digital na área de saúde e Membro da Academia Ibest de Imprensa por duas vezes e, em 2008, foi da Academia Ibest. Em 2004 criou o blog Fim de Jogo, que acompanha o que acontece nos arredores do Maracanã em dias de jogos e grandes eventos. É a única blogueira credenciada pela Suderj, que acompanha regularmente as coletivas convocadas pela Secretaria.

Raphael Perret
Formando em jornalismo pela UERJ e mestre em Informática pelo NCE/UFRJ, na linha de pesquisa de trabalho colaborativo. Professor do curso de pós-graduação de Gestão em Marketing Digital na Facha. Pesquisa a área de Comunicação Digital, com foco em jornalismo online, blogs e redes sociais. Mantém o blog Butuca Ligada. Tem artigos e reportagens publicadas em veículos como Jornal do Brasil, Jornalistas da Web, Comunique-se e Webinsider. Trabalhou na Prefeitura do Rio de Janeiro. Atualmente, atua na área de Comunicação Social do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Cada um dos convidados irá apresentar suas idéias em 20 minutos. Em seguida, abriremos para perguntas e interação com o público.

O evento é gratuito, basta enviar pedido de inscrição por email (para nino.carvalho@gmail.com) até a sexta-feira, dia 17 (nós enviaremos um reminder):

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