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22 Julho, 2008
Todo rock star tem dois milhões de amigos
Eu queria ser um rock star e disparar sem dó um dó distorcido no meio do salto e cair de joelhos segurando a nota fazendo careta quebrando a guitarra atirando a palheta
e eu me vestiria como se ninguém estivesse ali usaria um cabelo estranho, como se ninguém estivesse vendo mas eles estariam ali, eles estariam sempre ali
meus dois milhões de amigos. meus dois milhões de amigos.
todo rock star tem dois milhões de amigos.
queria ser galã de cinema, beijar a mocinha no fim da cena, ter um dublê para ser eu, sempre que eu correr perigo.
um galã de cinema, letras maiúsculas na fachada nome nos créditos de entrada agradecer pela estátua como se ninguém estivesse vendo, mas eles estariam ali, eles estariam sempre ali
meus dois milhões de amigos. meus dois milhões de amigos.
todo galã de cinema tem dois milhões de amigos.
e eu queria ser um escritor best seller, ter hábitos estranhos, uma casa na escócia e traçaria tramas sobre a escória e sobre a história
e daria autógrafos pra gente na fila livro após livro como se anotasse um telefone como se ninguém estivesse vendo, mas eles estariam ali, eles estariam sempre ali
meus dois milhões de amigos. meus dois milhões de amigos.
todo best seller tem dois milhões de amigos.
onde estarão escondidos onde estarão escondidos o que estarão esperando
meus dois milhões de amigos meus dois milhões de amigos
todo mundo tem direito a dois milhões de amigos.Marcadores: arte, cotidiano, filosofia, literatura, música, poesia
02 Março, 2008
Microconto: O menino que queria ser astronauta
Acorda. Escova os dentes. Xixi. Se arruma. Toma café. Faz número dois. Pega a chave. Sai. Espera o ônibus. Entra no ônibus. Fica em pé. Desce do ônibus. Entra no escritório. Bebe café. Senta. Liga o computador. Escreve coisas. Desce pra rua. Almoça. Volta. Liga o computador. Escreve coisas. Desliga o computador. Espera o ônibus. Entra no ônibus. Fica em pé. Desce do ônibus. Entra em casa. Acende a luz. Toma banho. Bota o pijama. Janta. Toma café. Escova os dentes. Deita. Apaga a luz. Estrelas, planetas, galáxias brilham esverdeadas no teto do quarto. Dorme. Não sonha. Acorda. Escova os dentes. Xixi. Se arruma...Marcadores: arte, humor, literatura, poesia
Microconto: Don’t be evil
“Não faz sentido”. Ele continuava a olhar, perplexo. Tirou os olhos do microscópio. “Não pode ser!”. Olhou ao redor. Ninguém tinha percebido nada. “Puta que pariu!”. Uma assistente olhou pra ele, intrigada. Então ele rapidamente jogou fora a lâmina com uma célula-tronco humana. Lá dentro, no DNA, ele jurava ter lido “© Google Inc.”.Marcadores: arte, humor, literatura, poesia
Microconto: Um dia quente
Quando a bomba atômica explodiu, ele estava lendo jornal no vaso sanitário. Ela estava esperando no quarto, nua. A TV falava de múmias que morreram abraçadas. Ela achou lindo. Chorou. As paredes do banheiro se dissolveram enquanto ele lia no horóscopo que aquele ia ser um dia quente pra ele.Marcadores: arte, humor, literatura, poesia
Microconto: O homem antenado
Já era a terceira antena que nascia atrás da orelha. Começou a ficar preocupado. Fora isso, nada de especial. O pessoal da repartição ainda não tinha reparado. Mas as antenas estavam crescendo. Pelo menos já dava para ouvir o jogo. O problema era pra dormir. Maldita rádio pirata.Marcadores: arte, humor, literatura, poesia
09 Agosto, 2007
Tinha uma nuvem no meu quintal
Tinha uma nuvem no meu quintal.
Acordei e lá estava ela, do outro lado da janela.
Não chovia, nem trovejava ou relampeava - essas coisas que nuvens fazem.
Apenas nuveava, suave e delicada, se esgueirando por entre árvores, o cachorro do vigia e os esqueletos de prédios que alguém que nunca teve a cabeça nas nuvens vendeu mas não terminou de construir.
Do outro lado da janela, a nuvem nuveava.
E era estranho olhar para baixo e ver aquela cena que guardamos para o alto. Olhei para o alto e busquei gatos, grama, coisa de baixo. Nada. Apenas outras nuvens, que nuveavam no alto como minha nuvem nuveava no baixo.
Então surgiu o sol. E a nuvem se deu adeus. Dissipou-se sobre o cachorro, as árvores e os prédios sem gente e sem alma.
E assim terminou a história da nuvem que cansou do alto e veio nuvear aqui em baixo, do outro lado da janela.Marcadores: arte, literatura, poesia
24 Junho, 2007
Publique seu livro agora. Pergunte-me como
Na era das facilidades mil, até publicar um livro ficou fácil. Já existem pela web alguns serviços bacanas de autopublicação, onde o autor paga para ver suas memórias publicadas e disponibilizadas nas prateleiras virtuais da editora e até na Amazon. Mas um novo serviço prima pela simplicidade e pelo design super bacana de sua ferramenta.
O Blurb (www.blurb.com) funciona com um aplicativo gratuito (30 Mb) que você precisa baixar. Com ele, você escolhe o formato, título e conteúdo de seu livro, que pode ser um blogbook (ele importa os posts direto do Blogger e afins), um livro de fotos (de seu computador, de seu Flickr ou Picasa), de poesias, receitas etc. O processo de diagramar seu épico literário é simples.
Finalizado, você faz o upload, morre em cerca de US$ 20 mais o frete, e recebe em casa seu próprio livro, com capa dura e impressão, segundo o site, de primeira. Você ainda pode deixar seu Lusíadas para venda. Como ele só será impresso sob demanda, o risco de encalhe é zero.Marcadores: internet, literatura
12 Maio, 2007
Rapidez, discrição e precisão
Potato potato potato pota... Desligou o motor, desmontou e entrou na cidade à pé, segurando a moto pelo guidão, envolto pelo criquilar dos grilos e pelo barulho das próprias botas chapinhando nas poças sobre a terra enlameada.
A rua principal estava deserta e escura. Apenas a lua e o frágil cintilar das velas e luzes de leitura que escapavam pelas janelas com cortinas de renda. Se tivesse um coldre, estaria tateando as ancas só para se certificar se sua Colt estaria no lugar, tão forte era o clima de faroeste na cidadezinha.
Mas ele não tinha um coldre. Parou e tirou do bolso da camisa um papel amassado e molhado pela chuva. Conferiu o número e buscou por referências nas fachadas das casas de madeira. Número 66. Encostou a Harley na lateral, ao lado de um canteiro de rosas, e desamarrou sua maleta da garupa.
Guardou o papel no bolso e tirou um relógio antigo de algibeira. Dez para meia-noite. Por pouco não se atrasara. Deu a volta e olhou de novo para a fachada. No segundo andar, a única janela estava aberta e a cortina de rendado branco se agitava como uma flâmula.
Limpou as botas no capacho de xaxim. Tocou de leve a fria maçaneta. Um calafrio percorreu todo seu corpo. Sacudiu a cabeça e fez o sinal da cruz. Girou. A porta se abriu. Passou pela cadeira de balanço, onde uma almofada de costura repousava perfurada por agulhas como uma boneca vodu. Notou, na penumbra, os belos pratos de louça na cristaleira. Subiu devagar a escada, com cuidado para não deixar a madeira traiçoeira ranger.
A porta do quarto estava aberta. Depositou a maleta em uma cadeira sob a janela. Puxou a cortina para dentro e fechou-a delicadamente. Sobre a cama de viúva, cansada de tanto se debater, dormia uma moça de uns 20 anos, de pele branca e longos cabelos negros, camisola de pano grosso, amarrada pelos pulsos e pés.
Constantino abriu a maleta. Pegou o incensário e depositou certa quantidade de cânfora nele. O cheiro do incenso rapidamente se espalhou pelo quarto, em espiral, como espíritos flanando pelo éter. Pegou a Bíblia, a abriu e começou a rezar em voz baixa.
Por fim, pegou a pistola. Enquanto atarraxava o silenciador, se aproximou da cama. Era uma bela jovem. Não era de se admirar que o demônio a tivesse possuído. E que todas as tentativas de exorcismo tenham falhado. Não houve qualquer sucesso, e era por isso que ele estava ali. Ele era chamado sempre que as coisas davam errado.
Aquele era seu trabalho. Rapidez, discrição e precisão eram as características. O tiro acertou a testa, a meia distância dos dois olhos. Guardou a pistola e o incensário, enquanto o sangue ensopava o travesseiro. Terminou suas orações e caminhou para a porta.
Quando entrou no beco ao lado da casa, notou uma luz acessa no sobrado da frente e sentiu o aroma de incenso no ar. Ele poderia ter sido visto. Abriu rapidamente a maleta, jogou a pistola num monte de lama e escondeu o punhado de cânfora no tanque de sua Harley.
Puxou a moto até a rua, montou e ligou o motor. Tirou do bolso um papel molhado e amassado e memorizou outro endereço. Rapidez, discrição e precisão. Tudo que um padre como ele precisa. Acelerou. Potato potato potato...Marcadores: arte, contos, literatura
21 Março, 2007
Mais contos de apenas seis palavras
O título deste post tem seis palavras, mas não é um conto. O que, então, faz com que uma frase de seis palavras seja um micro-conto? O fato de, magicamente, elas terem uma história, uma ação, um sentimento, uma imagem na mente, a imaginação do que se sucede ou do que aconteceu antes... experimente. Crie os seus!
Papai, papai! Olha ali um tsunami!
O navio seguiu, alheio ao iceberg.
Amou-a em segredo até a morte.
No último dia de vida, choveu.
Apertou o gatilho. Depois se arrependeu.
Logo ele que refutava os ETs...
O dragão pousou no Planalto destruído.
Marcadores: arte, contos, humor, literatura
17 Março, 2007
O que fazer em caso de pouso...
 As instruções de emergência nas aeronaves nunca me pareceram completas o suficiente para lidar com todas as situações. Afinal, "pouso na água" é algo bem genérico. Que água? Onde? Com quem? Por isso, recorri ao inesgotável interesse humano por acidentes com aviões para trazer um pouco de luz a esse tema tão em queda, digo, em alta.
Em caso de pouso...
... numa ilha tropical: ver Lost e O Náufrago
... no deserto: ler O Pequeno Príncipe
... na Hungria: ler Budapeste
... numa montanha gelada: ver Alive
...num pântano nojento: ver O Império Contra-Ataca
... no passado: ver O Planeta dos Macacos
... na Bósnia: ver Atrás das Linhas Inimigas
... no Planeta Terra: visitar Roswell, nos EUA
... em um aeroporto, durante uma nevasca, com um terrorista a bordo: ver O Aeroporto.
... na Floresta Amazônica, com uma jararaca na poltrona do meio: ver Serpentes a Bordo
... com as asas de cera derretidas: ler a Lenda de Ícaro.
Tenham um bom vôo.
* Obrigado Leo Paiva pelas contribuições.Marcadores: cinema, cotidiano, filosofia, humor, literatura
08 Fevereiro, 2007
Helen Sue
Helen Sue acordou deprimida, magneticamente atraída pelo frasco repleto de Prozacs. Fechou os olhos, apertou os dedos sobre a colcha de cetim azul-turquesa, encheu o pulmão de ar e gritou para que todos os seus neurônios pudessem ouvir:
– Eu posso ser amada! Eu serei amada! Eu... serei... amada!!!
Então fez escova. Maquiou-se como se fosse a um casamento. Depois de quinze trocas, escolheu a sua roupa mais matadora. Pegou sua bolsa e foi para a rua.
Parou no ponto de ônibus, girando sobre o próprio eixo para evitar que o vento estragasse seu penteado. Fez sinal. Então sentiu alguém tocando de leve sobre seu ombro. Mal se virou, e uma voz masculina, firme, forte e destemida fez a pergunta. Não uma pergunta qualquer, mas a pergunta pela qual Helen Sue havia esperado por toda sua triste vida:
– Você acredita em amor à primeira vista?
O coração disparou. 100, 200, 300, um milhão de batidas por minuto... seu coração poderia fazer o ônibus que parara em vão para Helen dar a volta na Lua e voltar. O homem era lindo, e a olhava fixamente nos olhos esperando por uma resposta, que veio num grito a plenos pulmões:
– Sim! Sim! Acredito!
Então ele marcou um “X” num formulário sobre uma prancheta, agradeceu educadamente e foi embora, com seu crachá do Ibope.Marcadores: arte, contos, humor, literatura
16 Janeiro, 2007
Ponte-aérea (2007)
Decolo sob nuvens plúmbeas de São Paulo A cidade a esgueirar-se em pseudópodes de luz. Não termina. Seu concreto negro invade o horizonte por onde quer que olhe meu olhar ovalado da janela do avião.
A cidade não tem fim. Nem começo. Não esbarra no sopé de uma montanha. Não se banha numa espuma de mar. Não abraça uma lagoa, um lago, um delta. Simplesmente a cidade se espalha. A cidade simplesmente resplandece.
Colméia de luzezinhas que piscam. De artérias de elétrons que pulsam. Que se ramificam, se entrelaçam. Neurônios nervosos numa massa cinzenta que escorre pelo horizonte, Crânio rompido à bala. Estilhaço. Foguete. Doce no sinal.
Milhares de metros abaixo, a cidade-monstro brilha. Inofensiva. Gigante. Quilômetros de paulistas, de concreto, de travessas, de imigrantes, de marginais, de metáforas, de dólares, de sangue, de dores, de risos, de sotaques, de cores. Quilômetros paulistas transbordando na pequena janela. Sendo aos poucos devorados pelas nuvens de chumbo. O gigante devorado pelo ar cinza que expira.
A luz se acende. Me servem um sanduíche. Logo a Coca-Cola no copo denuncia a inclinação. O Rio de Janeiro se aproxima.Marcadores: literatura, poesia
14 Janeiro, 2007
Máfia russa
43º andar Sempre soube que ter escritório em andar alto era um bom negócio.
42º andar Bela vista, as formiguinhas andando lá embaixo... acho que aquilo é um caminhão.
41º andar Gerenciamento de crises... por que eu faltei essa aula mesmo?
40º andar Ah, lembrei. Fui sair com a Joana. Nossa, que peitos!
39º andar Eram tão bons assim? Valeram a pena?
38º andar Gerenciamento de crises ou aqueles peitos?
37º andar Os peitos, claro. Os peitos...
36º andar Eles deveriam ter sido mais compreensivos. Com ou sem gestão de crises.
35º andar Porra, um milhão não é tanto dinheiro assim...
34º andar Como se eu só valesse um milhão! Eu valho mais que isso.
33º andar Caramba! Aquilo era um urubu?
32º andar Se bem que a Joana disse que eu não valia nada...
31º andar Mas mamãe disse que eu era um gênio.
30º andar Meu pai me achava criativo.
29º andar Uma vez minha irmã jogou meu autorama da janela.
28º andar Tudo porque meu Falcon matou a Barbie dela.
27º andar A Joana me deixou por causa da Angélica.
26º andar Aquilo de anjinho não tinha nada...
25º andar Se eu tivesse ido à aula de gestão de crises ainda teria meu autorama.
24º andar Se eu tivesse ido à aula de gestão de crises ainda teria a Joana.
23º andar Mas seu eu tivesse ido à aula eu nunca teria pego a Joana.
22º andar Escolhas... a vida é cheia de escolhas.
21º andar O terno, por exemplo. Um Armani teria rasgado?
20º andar Não era para esses ternos terem um reforço na perna?
19º andar Mas não... tinha que comprar um mais barato...
18º andar O infeliz aluga um escritório no 43º andar e compra terno vagabundo.
17º andar Isso nem é nada. O pior é apostar 1 milhão de dólares num negócio furado.
16º andar As formigas estão aumentando... parecem uns ratos zanzando.
15º andar Gente de longe é muito feio. Parecem umas bolas de pelo perambulando.
14º andar Pior é quando o milhão nem era seu.
13º andar Nego não tem espírito esportivo, é foda. E por que me seguraram pela porra da calça?
12º andar Não tem mais diálogo no mundo... todo mundo estressado.
11º andar A gente deveria amar mais o próximo... saber perdoar.
10º andar Joana, me perdoa!
9º andar Eu perdôo minha irmã. O autorama não era tão legal assim.
8º andar Eu perdôo o professor de gerenciamento de crises.
7º andar Como ele ia adivinhar?
6º andar Se bem que não custava nada dar a aula extra.
5º andar Não passei no concurso por causa disso.
4º andar Aí acabei me metendo com gente errada.
3º andar Agora é tarde... tarde mesmo.
2º andar Nunca mais me meto com a máfia russa.
1º andar
* * * Baixe aqui o conto em formato PDF. Marcadores: contos, literatura
13 Janeiro, 2007
Paranoid Android - o conto
Tem conto novo na área!!!
Este é o primeiro de uma série que batizei de "Letras do disco": pequenas histórias que usam como argumento as letras de músicas de álbuns que marcaram minha vida. Ok Computer, do Radiohead, é o primeiro.
Clique aqui e baixe "Paranoid Android", minha modesta homenagem a este disco de 1997, eleito por diversas publicações como o melhor da década de 90. Com justiça.
Saiba mais sobre Ok Computer no Last.fm.
Leia o conto.Marcadores: contos, literatura
21 Dezembro, 2006
Seis bebês... - Capítulo 15 - O FIM
Enfim, o fim de tudo. Confira agora o derradeiro capítulo da saga colaborativa mais confusa da galáxia. Se tiver perdido o fio da meada, baixe o PDF completão com o texto completo do conto escrito por mim e por Leonardo Paiva.
Capítulo 15 – Todo fim tem um começo (e vice-versa)
Balbúrdia. Todos querem falar ao mesmo tempo. Bolinhos de chuva voam pelo espaço sideral. Pedaços de Belo Horizonte flutuam pelo nada, rodopiando serenamente sobre a imensidão estrelada. Parece o cenário do fim do mundo, mas não é. Na verdade, é o cenário de dois minutos depois do fim do mundo.
A Assembléia reúne a cada Aeon todos os departamentos, diretorias, gerências e sub-suplentes envolvidos na reformatação dos planetas alinhados à Corporação. Miguel, ainda vestindo o corpo de um mexicano caliente, discute calorosamente com o corpo furado de bala de Suzanne Cooper. Rose Shelley circula pelo ambiente, completando xícaras de chá que bóiam sobre o éter, oferecendo bolinhos que volta e meia cismam de sair voando de sua bandeja.
Um bebê brasileiro protesta com a boca cheia de guloseimas, e farelos voam pela galáxia. Johnny Hellmont, no corpo de Johnny Hellmont, tenta se livrar do bebê sem-nome de Vanildo e Amarilda, que questiona seus métodos para influenciar o resultado da formatação. Caminha pelo nada até bater de frente com um africano com longas tranças grisalhas. Olha para Yohana, dá meia volta, estica a perna para passar por cima do bebê e caminha para perto da Mesa da Presidência. Sobre a mesa, uma galáxia em forma de olho gira solenemente.
– Protesto! As máquinas foram beneficiadas! – brada um dos bebês queimados por Suzanne. – É. Nós nem tivemos chance!!! É a primeira vez que isso me acontece... – pondera outro bebê. Johnny pega três estrelas do firmamento e começa a fazer malabarismos. – Contra o estatuto reformulação está – afirma Yohana, batendo com seu cajado sobre Júpiter. – Topetudo descumprir regulamento. – Que descumpri o quê, ô Steven Seagall. Não tinha que tacar um neném no vulcão? Taquei um neném no vulcão. Não tinha que explodir o planeta? Então explodi... – REFORMATAR. Silêncio. Quando Ele fala, é bom escutar. A galáxia em forma de olho prossegue: – REFORMATAR É O PLANO. REFORMATAR É O PROCESSO. NÃO DESTRUIR A CRIAÇÃO. ALGO SAIU ERRADO. – Eu disse! – gritam uns três. – Eu sabia! – berram outros dois. – Eu disse que sabia! – bradam os demais. – Quem quer mais bolinho? – pergunta Rose Shelley. Johnny olha para a galáxia em forma de olho. Acha que reconhece aquela voz de algum lugar, mas não se lembra de onde. – Quem é o rosquinha, hein? – SOU O CRIADOR. DE TUDO. MÁQUINAS E HOMENS. PLANETAS E ESTRELAS. PARA VOCÊ, SOU HÉLIX – Helinho, camarada... bem que tava te reconhecendo... você deu uma engordada né, mas ficou bem legal... – CALE A BOCA. – Tá. Valeu.
Johnny recua até perto de Europa (a lua de Júpiter, não o continente, que nesse exato instante entra em órbita ao redor do Sol nas vizinhanças do Cinturão de Orth). A balbúrdia recomeça. Todos os representantes de departamentos estão visivelmente contrariados.
– Olhem só para isso!!! Era para termos recomeçado tudo numa boa, tranqüilos... – explana o bebê de Vanildo e Amarilda, fumando um charuto. – nem naquela Era Glacial que o Departamento de Clima e Expectativas criou por engano foi tão problemática! – O bebê brasileiro, representante do departamento de Clima e Expectativas, partiu para cima do outro, sendo erguido pela fralda por Miguel. – Olha galera... o papo aqui tá bom, o chazinho tá maneiro, né gatinha?, – diz o anjo mexicano, dando uma piscada de olho para Rose Shelley – mas eu tenho mais o que fazer... tem um zilhão de planetas por aí com porrada comendo solta e com umas mulheres... hmmm... de outro mundo.... anh... er... arram. Então? Dá para decidir ou tá difícil?
Silêncio. Se o momento é de decisão, isso é tarefa para o chefe. Hélix se manifesta.
– QUANDO JOHNNY JOGOU SEU BEBÊ NO VULCÃO, OUTROS DOIS BEBÊS, QUE LUTAVAM PRÓXIMO AO CUME, TAMBÉM CAÍRAM DENTRO DELE. ISSO CAUSOU A INSTABILIDADE TEMPO-ESPACIAL. Silêncio de novo. Todos esperam que Hélix conclua seu pensamento, até porque a instabilidade tempo-espacial explica muita coisa mas não resolve nada. – E? –Johnny se atreve a perguntar. – E, POR ISSO, A REFORMATAÇÃO NÃO VALEU. – Recomeçar processo Hélix precisa –argumenta Yohana. – E sem interferências. – Completa, olhando para Johnny, o “Deus das máquinas” de Hélix, que apesar de sua obrigação de isenção parece ter mexido seus pauzinhos mágicos para determinar o final de uma história que fugiu até mesmo a seu controle. – COMO QUISEREM. SEM INTERFERÊNCIAS. SESSÃO ENCERRADA.
* * *O Sol brilha com força sobre o deserto. O mamute bebe água tranqüilamente numa poça ao lado de um cactus gigante quando vê um brilho estranho sobre a superfície da poça. Olha para frente e leva um baita susto quando vê um mexicano correndo atrás de uma neanderthal com uma espada flamejante nas mãos. O mamute ergue seus chifres, recua e esbarra no cactus gigante, saindo em disparada. As passadas do mamute apressado fazem a caverna de Vanildo Sapiens e Amarilda Sapiens tremer. Com isso, o desenho de pequenos morcegos (que obviamente ainda não surgiram na cadeia evolucionária) que Vanildo faz na parede fica total e completamente borrado. Ele sai para ver do que se trata. Amarilda o segue, curiosa. O mamute passa por eles e some no horizonte. Vanildo pede a Amarilda que busque água no riacho que passa em frente à caverna. Ela obedece. Quando se abaixa, se encanta com formas coloridas que começam a surgir na superfície. São galáxias, que giram e rodopiam sem parar. Então aparece uma grande galáxia em forma de olho. Amarilda gosta do que vê. E aquela imagem a inspira a criar coisas. Não pinturas na parede ou roupas com pele de tigres dente-de-sabre. Coisas com madeira, com pedra. Coisas mecânicas. Então ela se levanta e começa a imaginar que uma pedra redonda poderia ajudar a carregar coisas de um lado para o outro. E que uma pedra pontiaguda presa a um pedaço de madeira poderia dar uma boa ferramenta para cortar coisas. Ela se levanta e começa a maquinar mais invenções. Na outra ponta do Cosmos, uma galáxia em forma de olho sorri. FIM (ou melhor, recomeço)Marcadores: contos, humor, literatura
17 Setembro, 2006
Eduardo Galeano na Uerj (ouça a palestra)
No comecinho de setembro, tive a oportunidade de assistir a uma palestra do escritor uruguaio Eduardo Galeano. Dono de uma simpatia e simplicidade ímpar, falou por mais de uma hora para uma platéia de estudantes e professores de espanhol na abertura de um simpósio internacional na Uerj.
O tema da palestra era "O poder da palavra", e o conferencista, falando em português e lendo textos seus em espanhol, reservou boas delas para os ouvintes. Um show de bom senso, coerência, visão de mundo e poesia.
Como todo bom escritor latino-americano, orgulha-se de ser o que costumamos rotular de comunista ou socialista. Confesso que, fora das frias páginas da teoria, já não sei dizer o que estes termos significam. Prefiro não me prender a estereótipos. Chame do que quiser. Eduardo apenas quer um mundo justo e igualitário. É pedir muito?
Gravei a palestra e a sessão de perguntas. Para ouvir, clique nos links abaixo. Para salvar os arquivos (formato MP3), clique com o botão direito e selecione "Salvar arquivo como...".
Palestra de Eduardo Galeano na Uerj (MP3 - 45 min. - 2,6 Mb) Perguntas a Eduardo Galeano na Uerj (MP3 - 25 min - 1,5 Mb)Marcadores: filosofia, literatura
06 Setembro, 2006
O peito do pé do Pedro
O peito do pé do Pedro é preto O dedo do pé do Pedro é preto O braço esquerdo do Pedro é preto O braço direito do Pedro é preto Pedro é preto Pedro não conheceu o pai Pedro não consegue arrumar emprego Pedro nunca entrou numa universidade Pedro ganha menos pelo mesmo trabalho Pedro é sempre parado em blitz Pedro é confundido com bandido E tudo o que as pessoas se lembram é que o peito do pé do Pedro é preto
Marcadores: arte, filosofia, literatura, poesia
04 Setembro, 2006
Eu ainda sonho
Eu estou morto Mas já vivi
Eu estou morto Mas já amei
Eu estou morto Mas já senti o álcool queimar minha garganta como serpente de fogo E gostei disso.
Estou morto Mas já investiguei gotas de chuva na janela
Já vi Deus no farfalhar das folhas ao vento
Já soei o nariz para esconder lágrimas no cinema
Já confiei e me decepcionei, para tornar a confiar
Já desci de ônibus andando. Já subi em ônibus andando
Já dormi e passei do ponto. Já falei demais e passei do ponto
Já falei de menos e deixei o silêncio ensurdecer a vida
Já tive fé. Já tive dúvida.
Já almocei de pé. Já jantei prato feito, requentado no forno
Já acordei cedo. Já dormi tarde. Já dormi cedo. Já acordei tarde.
Já cantei errado, conheci o cerrado, a Mata Atlântica e a Avenida Atlântica
Já nadei no mar. Já tive medo das ondas. Já me queimou uma água-viva
Já coloquei dedo em vela para ver se era quente
Já chupei gelo, estiquei corrente. Tive medo de altura. Subi mais alto
Já disse adeus. Já disse olá. Já disse bom dia, já disse como vai.
Falei mentiras. Contei verdades.
Eu estou morto. Mas ainda sonho.
Eu estou morto. Mas eu ainda sonho!
Eu ainda sonho. Eu estou morto. Mas posso viver de novo. Porque eu ainda sonho.Marcadores: literatura, poesia
09 Julho, 2006
Sentido ou direção
Eu só procuro Sentido Eu só procuro Sentido ou direção
Sinto muito Por favor, obrigado De nada, volte sempre Palavrinhas mágicas Cartão de crédito Imposto de renda E nada faz sentido
Procuro instruções Letras miúdas, contratos Anexos, adendos Cláusulas, clausuras Oração e desespero Ecstasy e hóstia E nenhuma placa me indica a direção
Devolvo essa existência Por defeito de fabricação Ela veio sem manual, Vivo sem instrução
Veio com peças que não se encaixam Desaconselhável para menores de 83 anos Se ao menos eu soubesse Se ao menos eu soubesse A direção
Eu só procuro Eu só procuro Sentido ou direção
Pergunto a turistas perdidos na praça Imersos em seus mapas e dicionários e aos pivetes perdidos na praça que dividem o espólio dos turistas
Pergunto a livros perdidos na praça Ignorados, pegando chuva Suas tintas se tingem, palavras escorrem Poesia pelo ralo. Poesia no esgoto. Palavras aos ratos.
Pergunto aos ratos, Eles me falam em rima E riem da ignorância Dos que vivem cá em cima
Eu só procuro Eu só procuro Sentido ou direção
Enquanto não acho sigo em frente Sigo em frente e vivo em círculos Na certeza de que parar é recuar E que recuar é voltar ao começo Onde não havia dúvidas e eram poucas as esperanças
Bifurcações são o preço que paga aquele que avança na estrada Enquanto me perco espero A luz salvadora e guia Que me mostre o sentido Que faça sentido Ou direçãoMarcadores: literatura, poesia
16 Maio, 2006
O ar é 80% nitrogênio
Inspire Chore Inspire Espire Inspire Espire Inspire Espire Inspire Espire Inspire Espire Suspire ExpireMarcadores: arte, literatura, poesia
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