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22 Agosto, 2008
Top 5 melhores usos de “filho da puta” na música brasileira
1. Faroeste Caboclo – Legião Urbana
"Jeremias, eu sou homem. coisa que você não é E não atiro pelas costas não Olha pra cá filha-da-puta, sem-vergonha Dá uma olhada no meu sangue e vem sentir o teu perdão” -- Simplesmente libertador. O que mais dizer pro safado que te mete bala nas costas? Me lembro quando essa música tocava na Rádio Cidade (RIP), e o f.d.p. era substituído por um apito. Aí era hora de cantar a plenos pulmões e, quando a mãe vinha brigar, a resposta era sempre a mesma: “É a música, mãe!”
2. Papai Noel Velho Batuta – Garotos Podres
“Papai Noel velho batuta Rejeita os miseráveis Eu quero matá-lo! Aquele porco capitalista
Presenteia os ricos E cospe nos pobres Presenteia os ricos E cospe nos pobres.” -- Pérola do punk brasileiro, esse hit dos garotos podres é sublime porque a letra NÃO fala f.d.p. Mas a rima é inevitável. E punk que se preze não despreza uma rima que termine com “uta”.
3. Filha da puta - Ultraje a Rigor
“Filha da puta É tudo filho da puta.”
-- Pra mim, não tem Roberto DaMatta, não tem Vinícius, nem Gilberto Freire. O maior pensador e filósofo sobre o brasileiro é o Roger, do Ultraje. Essa música resume o que a gente pensa, se não dos brasileiros, mas dessa corja que nos governa.
4. Esporrei na manivela – Raimundos
“Entrei no trem, esporrei na manivela Cobrador filha-da-puta me jogou pela janela” -- Essa é a música com mais palavrões por metro quadrado do mundo. O legal aqui é que, perto dos outros termos na letra, o “filha-da-puta” chega a ser singelo. É quase um “papai me dá um abraço?”.
5. Vossa excelência – Titãs
“Senhores! Senhores! Senhores! Minha Senhora! Senhores! Senhores! Filha da Puta! Bandido! Corrupto! Ladrão!” -- De novo, eles! Os maiores, os conhecidos. Os verdadeiros filhos da puta dessa terra de Cabral. Como se escreve f.d.p. na urna eletrônica?Marcadores: cotidiano, filosofia, humor, música, poesia
22 Julho, 2008
Todo rock star tem dois milhões de amigos
Eu queria ser um rock star e disparar sem dó um dó distorcido no meio do salto e cair de joelhos segurando a nota fazendo careta quebrando a guitarra atirando a palheta
e eu me vestiria como se ninguém estivesse ali usaria um cabelo estranho, como se ninguém estivesse vendo mas eles estariam ali, eles estariam sempre ali
meus dois milhões de amigos. meus dois milhões de amigos.
todo rock star tem dois milhões de amigos.
queria ser galã de cinema, beijar a mocinha no fim da cena, ter um dublê para ser eu, sempre que eu correr perigo.
um galã de cinema, letras maiúsculas na fachada nome nos créditos de entrada agradecer pela estátua como se ninguém estivesse vendo, mas eles estariam ali, eles estariam sempre ali
meus dois milhões de amigos. meus dois milhões de amigos.
todo galã de cinema tem dois milhões de amigos.
e eu queria ser um escritor best seller, ter hábitos estranhos, uma casa na escócia e traçaria tramas sobre a escória e sobre a história
e daria autógrafos pra gente na fila livro após livro como se anotasse um telefone como se ninguém estivesse vendo, mas eles estariam ali, eles estariam sempre ali
meus dois milhões de amigos. meus dois milhões de amigos.
todo best seller tem dois milhões de amigos.
onde estarão escondidos onde estarão escondidos o que estarão esperando
meus dois milhões de amigos meus dois milhões de amigos
todo mundo tem direito a dois milhões de amigos.Marcadores: arte, cotidiano, filosofia, literatura, música, poesia
02 Março, 2008
Microconto: O menino que queria ser astronauta
Acorda. Escova os dentes. Xixi. Se arruma. Toma café. Faz número dois. Pega a chave. Sai. Espera o ônibus. Entra no ônibus. Fica em pé. Desce do ônibus. Entra no escritório. Bebe café. Senta. Liga o computador. Escreve coisas. Desce pra rua. Almoça. Volta. Liga o computador. Escreve coisas. Desliga o computador. Espera o ônibus. Entra no ônibus. Fica em pé. Desce do ônibus. Entra em casa. Acende a luz. Toma banho. Bota o pijama. Janta. Toma café. Escova os dentes. Deita. Apaga a luz. Estrelas, planetas, galáxias brilham esverdeadas no teto do quarto. Dorme. Não sonha. Acorda. Escova os dentes. Xixi. Se arruma...Marcadores: arte, humor, literatura, poesia
Microconto: Don’t be evil
“Não faz sentido”. Ele continuava a olhar, perplexo. Tirou os olhos do microscópio. “Não pode ser!”. Olhou ao redor. Ninguém tinha percebido nada. “Puta que pariu!”. Uma assistente olhou pra ele, intrigada. Então ele rapidamente jogou fora a lâmina com uma célula-tronco humana. Lá dentro, no DNA, ele jurava ter lido “© Google Inc.”.Marcadores: arte, humor, literatura, poesia
Microconto: Um dia quente
Quando a bomba atômica explodiu, ele estava lendo jornal no vaso sanitário. Ela estava esperando no quarto, nua. A TV falava de múmias que morreram abraçadas. Ela achou lindo. Chorou. As paredes do banheiro se dissolveram enquanto ele lia no horóscopo que aquele ia ser um dia quente pra ele.Marcadores: arte, humor, literatura, poesia
Microconto: O homem antenado
Já era a terceira antena que nascia atrás da orelha. Começou a ficar preocupado. Fora isso, nada de especial. O pessoal da repartição ainda não tinha reparado. Mas as antenas estavam crescendo. Pelo menos já dava para ouvir o jogo. O problema era pra dormir. Maldita rádio pirata.Marcadores: arte, humor, literatura, poesia
09 Agosto, 2007
Tinha uma nuvem no meu quintal
Tinha uma nuvem no meu quintal.
Acordei e lá estava ela, do outro lado da janela.
Não chovia, nem trovejava ou relampeava - essas coisas que nuvens fazem.
Apenas nuveava, suave e delicada, se esgueirando por entre árvores, o cachorro do vigia e os esqueletos de prédios que alguém que nunca teve a cabeça nas nuvens vendeu mas não terminou de construir.
Do outro lado da janela, a nuvem nuveava.
E era estranho olhar para baixo e ver aquela cena que guardamos para o alto. Olhei para o alto e busquei gatos, grama, coisa de baixo. Nada. Apenas outras nuvens, que nuveavam no alto como minha nuvem nuveava no baixo.
Então surgiu o sol. E a nuvem se deu adeus. Dissipou-se sobre o cachorro, as árvores e os prédios sem gente e sem alma.
E assim terminou a história da nuvem que cansou do alto e veio nuvear aqui em baixo, do outro lado da janela.Marcadores: arte, literatura, poesia
30 Janeiro, 2007
PING KONG | KING PONG
PING..............I..............PONG
.....PING.........I.......PONG.......
...........PING...I...PONG...........
............PING..I..PONG............
..............KING KONG.............. I 0 III I000I I000I I000I I000I I000I I000I I00000I I00000I I00000I I00000I I00000I
Marcadores: arte, cinema, humor, poesia
16 Janeiro, 2007
Ponte-aérea (2007)
Decolo sob nuvens plúmbeas de São Paulo A cidade a esgueirar-se em pseudópodes de luz. Não termina. Seu concreto negro invade o horizonte por onde quer que olhe meu olhar ovalado da janela do avião.
A cidade não tem fim. Nem começo. Não esbarra no sopé de uma montanha. Não se banha numa espuma de mar. Não abraça uma lagoa, um lago, um delta. Simplesmente a cidade se espalha. A cidade simplesmente resplandece.
Colméia de luzezinhas que piscam. De artérias de elétrons que pulsam. Que se ramificam, se entrelaçam. Neurônios nervosos numa massa cinzenta que escorre pelo horizonte, Crânio rompido à bala. Estilhaço. Foguete. Doce no sinal.
Milhares de metros abaixo, a cidade-monstro brilha. Inofensiva. Gigante. Quilômetros de paulistas, de concreto, de travessas, de imigrantes, de marginais, de metáforas, de dólares, de sangue, de dores, de risos, de sotaques, de cores. Quilômetros paulistas transbordando na pequena janela. Sendo aos poucos devorados pelas nuvens de chumbo. O gigante devorado pelo ar cinza que expira.
A luz se acende. Me servem um sanduíche. Logo a Coca-Cola no copo denuncia a inclinação. O Rio de Janeiro se aproxima.Marcadores: literatura, poesia
06 Setembro, 2006
O peito do pé do Pedro
O peito do pé do Pedro é preto O dedo do pé do Pedro é preto O braço esquerdo do Pedro é preto O braço direito do Pedro é preto Pedro é preto Pedro não conheceu o pai Pedro não consegue arrumar emprego Pedro nunca entrou numa universidade Pedro ganha menos pelo mesmo trabalho Pedro é sempre parado em blitz Pedro é confundido com bandido E tudo o que as pessoas se lembram é que o peito do pé do Pedro é preto
Marcadores: arte, filosofia, literatura, poesia
04 Setembro, 2006
Eu ainda sonho
Eu estou morto Mas já vivi
Eu estou morto Mas já amei
Eu estou morto Mas já senti o álcool queimar minha garganta como serpente de fogo E gostei disso.
Estou morto Mas já investiguei gotas de chuva na janela
Já vi Deus no farfalhar das folhas ao vento
Já soei o nariz para esconder lágrimas no cinema
Já confiei e me decepcionei, para tornar a confiar
Já desci de ônibus andando. Já subi em ônibus andando
Já dormi e passei do ponto. Já falei demais e passei do ponto
Já falei de menos e deixei o silêncio ensurdecer a vida
Já tive fé. Já tive dúvida.
Já almocei de pé. Já jantei prato feito, requentado no forno
Já acordei cedo. Já dormi tarde. Já dormi cedo. Já acordei tarde.
Já cantei errado, conheci o cerrado, a Mata Atlântica e a Avenida Atlântica
Já nadei no mar. Já tive medo das ondas. Já me queimou uma água-viva
Já coloquei dedo em vela para ver se era quente
Já chupei gelo, estiquei corrente. Tive medo de altura. Subi mais alto
Já disse adeus. Já disse olá. Já disse bom dia, já disse como vai.
Falei mentiras. Contei verdades.
Eu estou morto. Mas ainda sonho.
Eu estou morto. Mas eu ainda sonho!
Eu ainda sonho. Eu estou morto. Mas posso viver de novo. Porque eu ainda sonho.Marcadores: literatura, poesia
09 Julho, 2006
Sentido ou direção
Eu só procuro Sentido Eu só procuro Sentido ou direção
Sinto muito Por favor, obrigado De nada, volte sempre Palavrinhas mágicas Cartão de crédito Imposto de renda E nada faz sentido
Procuro instruções Letras miúdas, contratos Anexos, adendos Cláusulas, clausuras Oração e desespero Ecstasy e hóstia E nenhuma placa me indica a direção
Devolvo essa existência Por defeito de fabricação Ela veio sem manual, Vivo sem instrução
Veio com peças que não se encaixam Desaconselhável para menores de 83 anos Se ao menos eu soubesse Se ao menos eu soubesse A direção
Eu só procuro Eu só procuro Sentido ou direção
Pergunto a turistas perdidos na praça Imersos em seus mapas e dicionários e aos pivetes perdidos na praça que dividem o espólio dos turistas
Pergunto a livros perdidos na praça Ignorados, pegando chuva Suas tintas se tingem, palavras escorrem Poesia pelo ralo. Poesia no esgoto. Palavras aos ratos.
Pergunto aos ratos, Eles me falam em rima E riem da ignorância Dos que vivem cá em cima
Eu só procuro Eu só procuro Sentido ou direção
Enquanto não acho sigo em frente Sigo em frente e vivo em círculos Na certeza de que parar é recuar E que recuar é voltar ao começo Onde não havia dúvidas e eram poucas as esperanças
Bifurcações são o preço que paga aquele que avança na estrada Enquanto me perco espero A luz salvadora e guia Que me mostre o sentido Que faça sentido Ou direçãoMarcadores: literatura, poesia
16 Maio, 2006
O ar é 80% nitrogênio
Inspire Chore Inspire Espire Inspire Espire Inspire Espire Inspire Espire Inspire Espire Suspire ExpireMarcadores: arte, literatura, poesia
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