Motos perpétuos e boca-a-boca em redes sociais

Como prometido, aqui está a pequena apresentação que fiz no Social Media Brasil (SMBR), dia 5 de junho último, em São Paulo. A idéia foi pensar como a usabilidade de uma rede social afeta o trabalho de disseminação de uma mensagem de pessoa em pessoa.

Fantasmas na máquina

Eu me impressiono com algumas coisas. Filmes, acontecimentos. As imagens do tsunami demoraram a sair da minha cabeça. Quase virei terrorista depois de Clube da Luta e nem mesmo o Robin Williams, no papel de uma babá bicentenária interpretando um professor, conseguiu reduzir o efeito que Sociedade dos Poetas Mortos fez em meu espírito candidato a escritor.

E já escrevi aqui, na forma de poemas ou posts, sobre o pavor e fascínio que sinto pelo vazio, pelo desaparecimento. Seja o desaparecimento do que criamos – aprisionado em um suporte digital fadado ao apodrecimento – seja o desaparecimento de quem amamos, ou de nós mesmos.

Este ano já experimentei a perda de várias pessoas. De algumas muito próximas a desconhecidos que, pelas circunstâncias de suas partidas, nos fazem refletir sobre como aproveitamos nossa estada. Quando vejo gente sendo subitamente subtraída deste mundo físico, por acidentes ou fatalidades, não consigo não olhar com estranheza para os fantasmas na máquina que permanecem. Os registros inacabados nos perfis sociais que ficam perdidos, órfãos de nós mesmos, pela internet.

Um perfil é diferente de um texto, de uma foto. Se deixamos cartas, textos, posts, filmes… são coisas que criamos. E que ajudarão os outros a se lembrarem de nós quando partirmos. Mas os perfis, supostamente, não são coisas que criamos. Eles são nós mesmos. Os perfis, teoricamente, são uma representação digital do que somos. Do que pensamos, do que sentimos.

Os perfis pretendem ser a digitalização de nossa alma.

E se partimos sem chance de responder, pela última vez, “o que estou fazendo agora?”, “o que estou ouvindo?” e todas as perguntas que nos forçam a viver cada vez mais presos ao presente, sobrevivem nossos fantasmas digitais, como obras inacabadas.

Que fim eles deveriam levar? Devem ficar ali, congelados no tempo até que sucumbam ao fim inevitável das redes sociais (sim, porque não há empresa eterna, serviço eterno)? Deveriam continuar envelhecendo no Orkut, com sua idade atualizada e suas “fotos recentes”? Deveriam retirar-se de cena? Ou, no fundo, será que nada disso importa?

Tenho conhecidos e amigos que partiram e cujos perfis viveram ainda por muito tempo, recebendo mensagens e comentários, num ritual moderno de celebração aos que se foram. A cada tragédia de comoção nacional, os perfis das vítimas em redes sociais recebem dezenas, centenas de mensagens que nunca serão lidas, como flores deixadas num túmulo. É um gesto tão mórbido quanto singelo e comovente. Como se a pessoa virtual sobrevivesse à sua metade real.

Parece que o cenário de ficção científica onde transferiríamos nossa consciência para a máquina, a fim de nos livrarmos de nossos corpos físicos, não é assim tão absurdo. Quando eu me for, continuarei vivo digitalmente naquilo que crio na Rede. Virtualmente vivo até que se apague meu último eu virtual. Um Gato de Schrödinger contemporâneo, onde não se saberá ao certo se eu de fato ainda respiro ou não. Existe vida após o shut down?

Blog de papel ensina a escrever

Por meio de minha mãe, que é professora da Rede Estadual do Rio de Janeiro, tomei contato com um projeto muito interessante: o Almanaque da Rede. Concebido por Sonia Rodrigues, filha do imortal tricolor Nelson Rodrigues, trata-se um uma abordagem inovadora para um desafio e tanto: fazer a geração Orkut-Créu-MSNaprender, exercitar e, principalmente, gostar de escrever. E de conhecer as diferentes formas de escrita, do miguxês ao português erudito.

almanaquedarede O projeto contempla uma espécie de agenda de papel, distribuída para alunos do primeiro ano do ensino médio da rede estadual. Nela, além de espaço para dados do aluno (nome, e-mail, perfil no Facebook, perfil no Orkut, comunidades favoritas etc), há dicas de internet (como fazer buscas, downloads, sites interessantes, o que é e como usar blogs, Twitter e afins), dicas de Português e outras disciplinas (por exemplo, comparando o texto de um scrap de Orkut com o de um currículo) e muitos, mas muitos, exercícios de construção de textos.

No lugar de regrinhas chatas, regras de um jogo. Ícones coloridos representam diversos elementos de uma narrativa (personagem, motivo, desfecho etc), de uma dissertação, descrição etc. Para fazer uso do Almanaque e de seu “Blog de Papel”, o aluno precisa encarar a construção de textos como um jogo. Um desafio a ser vencido. Um enigma a ser desvendado. É bem mais do que uma redação de “Minhas férias”.

A parte digital tem ferramentas e conteúdos para alunos e professores. Entre elas, a possibilidade de transpor o blog de papel para um ambiente online. E espaços para os alunos publicarem suas redações, que concorrerão a prêmios.

Parece uma tentativa desesperada de juntar tudo que é inovador e atraente num projeto só – interatividade, tecnologia, redes sociais, jogos e uma linguagem jovem e contemporânea. Mas tudo ali parece ter sido bem pensado, bem estruturado. Nada soa gratuito. O projeto, fruto da tese de doutorado em Literatura de Sonia, é muito consistente e autêntico.

É uma corajosa e valiosa tentativa de se modernizar o ensino. Em minha visão de leigo em educação, o Almanaque busca ensinar os alunos a pensar – não há melhor exercício para organizar o pensamento do que escrever – , e, ao usar a internet como isca para o estudo, acaba realizando uma efetiva inclusão digital, ao dar o básico de informações e mostrar o vasto mundo digital para uma turma que, por mais que esteja conectada, na maioria das vezes não vai além do Orkut e do MSN.

Pena que em muitos colégios, o Almanaque não veio junto com uma boa apresentação sobre o projeto, e o material impresso foi desprezado como “mais uma agendinha”.

Poeminhas matemáticos

Zero à esquerda

O zero era revolucionário de esquerda.
Um dia o zero se apaixonou pela vírgula.
Não que ela fosse formosa, muito pelo contrário.
Era magra, meio torta. Cambava prum lado.
Mas o zero se apaixonou porque percebeu que
longe da vírgula ele não era nada.

Números primos

Tio Pi se dividiu de raiva quando soube
que o 2 e o 17 andavam de mãos dadas
num logarítmo escuro, longe dos pais.

Um escândalo que rompia com todos
os denominadores da alta sociedade.

Pensou logo na imprensa sensacionalista,
doida para fatorar em cima da multiplicação
de fofocas sobre a família Tabuada.

Tio Pi chamou os jovens expoentes
e deu-lhes um pito de segundo grau,
ameaçou-lhes cortar o mal pela raiz
e pôs fim ao namorico.

Que futuro teria esse namoro de primos?

Vida

Criança
1+0=1000
1+0=1000
1+0=1000
1+0=1000

Adolescente
5 x 1
5 x 1
5 x 1
5 x 1

Jovem
1+1=1
1+2=1
1+3=1
1+4=1

Adulto
1+1=2
1+1=2
1+1=2
1+1=3

Idoso
3-1=1
2-1=1
2-1=0
1-1=0

Todo mundo quem?

“Todo mundo está falando que fulano vendeu um post”. É comum ouvir isso a cada polêmica ou nova febre no Twitter. “Todo mundo” alguma coisa. Na verdade, se você fizer uma enquete pelas ruas do Rio, de SP e de Recife, raríssimas serão as pessoas que estarão indignadas com o uso de scripts para seguir milhares de pessoas no Twitter.

O assunto, tampouco, foi pauta na reunião do G20, enredo de escola de samba (“tuiteeeei… Lá da Sapucaí… E aí, e aí…“) ou tema no sermão do padre (“irmão, não seguireis a quem não te queres seguindo“). Mas ainda assim a gente considera isso a preocupação maior de “todo mundo”.

Quem é “todo mundo”? Se a resposta é o infalível “depende”, o Twitter a torna ainda mais curiosa. A partir do momento em que você monta sua rede de 100, 200 seguidos, e começa a seguir aqueles desconhecidos com quem seus conhecidos conversam, você monta um universo fechado onde, mais ou menos, todo mundo segue todo mundo. É como um Barrados no Baile, onde todo mundo pegava todo mundo, só que sem a Shannon Doherty.

Como praticamente todas as conversas, desabafos, babados e polêmicas que você acompanha parecem fazer sentido – afinal você lê os diálogos quase inteiros -, têm-se a impressão de que você de fato segue “todo mundo”. Se seu universo de seguidos não toca no assunto, é porque o assunto obviamente não existe.

O novo Google somos nozes. São nossos contatos de primeiro e segundo grau que definem, via Twitter, o que é ou não é tendência. O que existe ou não. O que eu devo ver ou não. São eles que definem que posts pagos ou o viral da moda são o assunto preferido de “todo mundo”.

Para um humano normal, tal comportamento não passa de um fenômeno delicioso para os cientistas sociais analisarem. No fundo, ele não é novo. O “todo mundo” de cada sempre foi muito reduzido. A diferença é que agora ele tem ares de coisa quantificável. De fato aquele interminável rio de frases curtas parece ser tudo. Parece ser todo mundo.

Mas para quem trabalha com redes sociais, esse comportamento é perigoso. Precisamos praticar o sempre saudável exercício de nos afastarmos. De reconhecermos que, sim, “Hanna Montanna” é um dos assuntos mais quentes no Twitter hoje, embora ninguém que eu siga tenha falado sobre isso. É fundamental fugirmos do etnocentrismo, aqui travestido de um ciberetnocentrismo. De acharmos que virais, posts pagos e panes no Speedy são a paixão nacional. Mesmo que “todo mundo” só fale disso.

Faculdade: fazer ou não?

Assim que terminou a sessão de perguntas do 14º Encontro de Web Design (EWD), uma jovem estudante interpelou os palestrantes, que conversávamos num canto do auditório. Ela queria escolher uma faculdade de design e não sabia qual escolher.

Acho que as dicas que recebeu não eram exatamente as que procurava. Com estilos ou motivos diferentes, nós a fizemos pensar duas vezes antes de fazer uma faculdade apenas por fazer uma faculdade, como se sua carreira dependesse disso e só começasse pra valer daqui a quatro ou cinco anos.

Isso me fez voltar a pensar sobre aquela história de profissões e carreiras. Não consigo desprezar o curso universitário. Podem me chamar de antiquado, mas eu não abriria mão de minha graduação. Ela foi muito importante, mas não pelo conhecimento técnico que adquiri. Foi, sim, pelo processo de amadurecimento, pelo rito de passagem e pela cultura geral que fui forçado a absorver.

Hoje, não vejo muito sentido em graduações técnicas, como Jornalismo, Publicidade, Design ou Informática. Não tem nada ali – no que diz respeito aos lides, campanhas, serifas ou classes da vida – que não se aprenda quebrando a cabeça em casa ou em cursos menores, focados.

Acho que seríamos profissionais melhores se os publicitários fizessem cursos de técnica publicitária e se formassem em algo que os ajudasse a entender melhor as pessoas e suas necessidades, como Antropologia, Psicologia ou Sociologia. A mesma coisa para jornalistas, que poderiam estudar a fundo História, Ciências Sociais ou as mesmas graduações do publicitário e em seis meses (ou num bom estágio) pegar toda a técnica necessária.

E por aí vai. Se um designer vai ficar quatro anos estudando, é melhor que seja a História da Arte e do Design do que aprendendo técnicas ou ferramentas que estarão defasadas quando ele se formar.

Bom, respondendo à jovem do EWD: faça sim uma faculdade. Mas não aquela que te ensine a usar o martelo, mas sim a que te ensine porque martelar, quem já martelou antes e qual o papel do martelo no mundo.

10 coisas que aprendi sobre redes sociais – a palestra do 14o EWD/EDTED

Mais uma vez, foi uma experiência incrível participar do Encontro de Web Design. Foi minha terceira vez como palestrante. Desta vez, resolvi compartilhar um pouco do que aprendi, na prática, sobre redes sociais.

Como prometido, aí estão os slides:

O que você aprendeu sobre redes sociais?

Conjugações do verbo tuitar

Quando vós tuitardes, lembrai-vos destas conjugações.

Formas Nominais:
infinitivo: tuitar
gerúndio: tuitando
particípio: tuitado

Presente do Indicativo
eu tuito
tu tuitas
ele tuita
nós tuitamos
vós tuitais
eles tuitam

Imperfeito do Indicativo
eu tuitava
tu tuitavas
ele tuitava
nós tuitávamos
vós tuitáveis
eles tuitavam

Perfeito do Indicativo
eu tuitei
tu tuitaste
ele tuitou
nós tuitamos
vós tuitastes
eles tuitaram

Mais-que-perfeito do Indicativo
eu tuitara
tu tuitaras
ele tuitara
nós tuitáramos
vós tuitáreis
eles tuitaram

Futuro do Pretérito do Indicativo
eu tuitaria
tu tuitarias
ele tuitaria
nós tuitaríamos
vós tuitaríeis
eles tuitariam

Futuro do Presente do Indicativo
eu tuitarei
tu tuitarás
ele tuitará
nós tuitaremos
vós tuitareis
eles tuitarão

Presente do Subjuntivo
que eu tuite
que tu tuites
que ele tuite
que nós tuitemos
que vós tuiteis
que eles tuitem

Imperfeito do Subjuntivo
se eu tuitasse
se tu tuitasses
se ele tuitasse
se nós tuitássemos
se vós tuitásseis
se eles tuitassem

Futuro do Subjuntivo
quando eu tuitar
quando tu tuitares
quando ele tuitar
quando nós tuitarmos
quando vós tuitardes
quando eles tuitarem

Imperativo Afirmativo
tuita tu
tuite ele
tuitemos nós
tuitai vós
tuitem eles

Imperativo Negativo
não tuites tu
não tuite ele
não tuitemos nós
não tuiteis vós
não tuitem eles

Infinitivo Pessoal
por tuitar eu
por tuitares tu
por tuitar ele
por tuitarmos nós
por tuitardes vós
por tuitarem eles

A inspiração para o Tie Fighter?

Todo fã de Star Wars sabe que as cenas de batalha entre a Millenium Falcon (a nave pilotada por Han Solo) e Tie Fighters (os caças do Império) foram inspiradas em registros cinematográficos de pegas-pra-capar aéreos da Segunda Guerra Mundial.

Mas o que eu não sabia – e acredito que muitos não saibam – é que o design do próprio Tie Fighter foi inspirado em aeronaves da Grande Guerra. Na imagem abaixo, o modelo original utilizado nas filmagens dos episódios IV, V e VI. Ao lado, foto tirada no Museu das Armas, em Paris, na fantástica exposição permanente sobre as guerras mundiais. Trata-se de um módulo de artilharia dos grandes aviões da época.

São ou não são muito parecidos?

Tie Fighter original Vs Artilharia da Segunda Guerra