E se um dia deletarem nossas almas?
Recentemente perdi minha avó, pessoa a quem muito amei e que muito me amou. Alguém que viu o Zeppelin sobrevoando o Rio de Janeiro, que cantou em rádio e ganhou os grandes prêmios da época (jogos de panelas e óleo de soja), que empreendeu de todas as formas que soube, enfim, que viveu intensamente.
No triste trabalho de desmontar sua antiga casa, cercado por objetos pessoais, pela máquina de costura onde eu me escondia e fingia estar pilotando alguma coisa (ônibus, submarino, caminhão), me deparei com pequenos tesouros.
Fotos, muitas fotos. Algumas amareladas, outras em preto-e-branco. Pelas bordas, pelo tipo de impressão, pela data que algumas trazem gravadas, por diversos elementos além da foto em si, revive-se muito destes momentos. Situações que jamais vivi. Histórias em que não era nem nascido.
E, mais que as fotos, agendas que durante algumas décadas se transformaram em diários. Eram o MS Office da minha avó. Traziam a contabilidade do mês, os sonhos, as pequenas alegrias e muitas receitas culinárias. Na caligrafia inconfundível, traziam a alma de minha avó. Nas agendas, ela permanece. Sua força permanece.
Percorri minha vida inteira lendo as páginas daquelas agendas e não pude deixar de fazer o paralelo comigo mesmo. Quando eu bater as botas, o que as pessoas vão encontrar em meu apartamento? HDs? DVDs? Será que terão tempo, interesse ou equipamentos para ler o que está armazenado ali?
Que vestígio de mim encontrarão? Que seja autêntico? Nenhuma foto, nenhuma carta, nenhum diário à mão. Um ou outro cartão de datas festivas, uma ou outra anotação furtiva. Nada mais.
Já escrevi sobre isso antes. Mas o contexto e a falta de qualquer solução desde então me habilita a retomar o tema. Estamos vivendo uma geração que deixará poucos vestígios. É bem possível que, no futuro, quando vierem escavar nossas ruínas, descubram que nosso povo era meio estranho e tinha como objetos de adoração maior sacos plásticos de supermercado, garrafas PET e CDs da America Online.




