Arquivo por Tag: CIBT

Ciborgues em rede – as redes sociais e o mito do homem-máquina

Lá está ela sobre a mesa, o encarando. Branca, pálida, com enunciados que zombam de você. Eles sabem a verdade. Sabem que você não sabe o que eles sabem. No caso, eles sabem a resposta, e você não. A professora caminha por entre as fileiras de carteiras de madeira, seus colegas concentrados, o barulho do grafite rascunhando somas, multiplicações, divisões. E os enunciados das questões zombando de você.

Você trava. “Quanto é 8 vezes 7?”. A resposta não vem. Você repassa mentalmente a tabuada, mas se perde antes de chegar lá. A professora passa por você. Desta vez, o cálculo vem rápido: “faltam umas cinco carteiras até ela se virar novamente. Dá tempo.” Você força o lápis contra a mesa. A ponta se quebra. Então, discretamente leva os dedos até o estojo. Puxa o zíper com cuidado para não fazer qualquer barulho. Enquanto os dedos tateiam sem pressa pelo apontador, os olhos vasculham o interior do estojo, em busca do lápis-tabuada. Lá está a resposta. Você aponta seu lápis e escreve “56” na prova.

Quase todo mundo já recorreu aos préstimos do lápis-tabuada, ou do colega da carteira da frente. O que fizemos, nessas situações, foi recorrer a uma ferramenta externa – o lápis ou os neurônios do colega – para ampliar nossos sentidos, nossas habilidades ou capacidades físicas.

Macacos e humanos possuem cérebros mais desenvolvidos que a maioria dos seres vivos. Some o cérebro a polegares opositores e você tem espécies animais plenamente adaptadas à invenção e ao uso de ferramentas. O monolito de 2001 – Uma Odisséia no Espaço, que motiva os saltos evolutivos, faz com que o neanderthal perceba que ossos de mamute podem dar excelentes porretes e, com isso, ele ganha vantagem na luta pela sobrevivência. O lápis-tabuada, no dia da prova de matemática, cumpriu exatamente o papel do osso pré-histórico em 2001. A diferença é que você não precisou golpear a professora com o lápis até ela te dar uma nota 10.

Costumamos associar tecnologia a coisas que piscam, têm fios e custam caro. Na prática, quaisquer ferramentas que ampliam nossos sentidos e capacidades – de ossos de mamute a iPhones – são tecnologias. E quando a tecnologia e a ferramenta se tornam tão íntimas de nós, tão ligadas a nossos cérebros, ela se torna parte de nós. Nós viramos ciborgues.

Todo taxista é um Robocop
Se você dirige, parabéns, você é praticamente um Robocop. Você não pensa: “vou girar o volante 30 graus, pressionar o pedal direito uns quatro centímetros, soltar o pé dois centímetros, pisar com o pé esquerdo o máximo que puder e mover esta alavanca da posição superior esquerda para esta imediatamente à direita e inferior”. Você simplesmente faz a curva e engata a segunda. O carro é uma extensão de seu corpo.

O mesmo vale para lápis, canetas, o mouse e, agora, a internet e as redes sociais.

Eu tenho uma memória horrível. Ruim mesmo. Há tempos brinco que terceirizei meu cérebro com o Google para livrar neurônios para coisas mais importantes. E é meio que verdade. Eu já não preciso saber dados exatos, números de telefone, endereços. Só preciso saber usar a discreta caixa sobre fundo branco, de onde surgem todas as respostas.

Se você não está no Orkut, você não faz aniversário
Dia desses ouvi uma frase que achei tão divertida quanto simbólica: “Se você não está no Orkut, você não faz aniversário”. Faz sentido. Quando decidimos nos tornar dependentes dos telefones celulares, passamos a não saber mais nenhum número de telefone de cor. Agora, as agendas de papel foram definitivamente enterradas, já que recorremos aos avisos do Orkut – e de outras redes sociais – para saber quando é o aniversário de nossos amigos. Terceirizamos com o Google inclusive nossa memória afetiva. E quanto mais nos sentirmos à vontade com esta relação, mais ciborgues seremos.

O celular é um excelente exemplo da simbiose homem-máquina. Os heavy users manipulam seus aparelhos sem sequer olhar para eles. Sabem exatamente onde está cada coisa e liberam importantes áreas do cérebro para raciocinar sobre outras coisas. Usar o celular se torna um processo mecânico, como caminhar, descascar uma banana ou amarrar os sapatos.

Será que, além de alertar aniversários dos amigos, as redes sociais produzem a mesma relação? O que acontecerá conosco conforme deixarmos de terceirizar nossos cérebros com máquinas e passarmos a terceirizar nossos cérebros mais e mais com outras pessoas – algumas próximas como os colegas da escola, outras desconhecidas no outro lado do planeta?

Nasce o homem-humano?
Será de fato o nascimento de um novo ciborgue? Não um homem-máquina, mas o ciborgue homem-humanidade? Será que precisamos mergulhar de cabeça numa Matrix tecnológica para nos conectarmos aos outros humanos?

Pois há indícios que nos ajudam a pensar desta forma.

No RPG Dungeons & Dragons, o Observador (Beholder) é um monstro dos mais cascudos. Ele é uma esfera flutuante com centenas de olhos, e essa capacidade de ver em todas as direções, além de um raio petrificante, fazem dele um inimigo cruel. Em O Senhor dos Anéis, inspiração para o próprio D&D, as palantíri eram espécies de bolas de cristal, usadas apenas por reis e grandes magos, para, entre outras coisas, poder observar o que se passava em terras distantes.

As redes sociais fizeram com que nossos computadores mais triviais, que nossos celulares e videogames se transformassem em palantíris. A cada instante, milhares de fotos são tiradas em câmeras digitais e celulares ao redor do mundo. E uma parcela cada vez maior dessas fotos têm destino certo: a “nuvem”, como é chamada a camada de serviços em rede que disponibilizam acesso a conteúdo de e para qualquer lugar.

O Olho do Observador
As fotos que são capturadas e enviadas para redes sociais como o Twitter, por exemplo, tem por característica o imediatismo. Não são fotos elaboradas e artísticas, comuns às comunidades de imagem, como o Flickr. São registros – muitas vezes sem foco ou enquadramento adequado – do agora. Aqui, hoje, ao vivo. Quando se resolve acompanhar a timeline – seqüência de imagens postadas a cada instante, independentemente do autor –, o resultado é um sentimento de voyerismo extremo, mágico como numa bola de cristal. Temos a sensação – quase real e acertada – de estarmos vendo o mundo todo, agora, ao vivo. Não por câmeras instaladas em monumentos e praças, mas na intimidade de gente de toda a parte. Polaróides daquilo que pessoas de todo tipo julgaram relevante de ser compartilhado, de ser registrado, de ser preservado.

Também ligado ao Twitter e reforçando o famoso “jeitinho brasileiro” está um serviço informal de alertas que se utiliza da agilidade dos microblogs e da possibilidade de atualização da rua, por meio de celulares, para compartilhar a localização de blitzes policiais com bafômetros. Desta forma, pessoas dispostas a correr o risco de consumir álcool e dirigir podem evitar os bloqueios policiais da Operação Lei Seca.

É claro que o exemplo aqui é de algo no mínimo irresponsável e ilegal. Espancar pessoas com ossos de mamutes também não devia ser algo bacana nem na pré-história. Bombas atômicas nunca foram divertidas. Seria leviano achar que só usaríamos tecnologia para fins benéficos e altruístas. O fato é que, usando redes sociais e os neurônios dos amigos, estamos adquirindo poderes, como a famosa Percepção Extra-sensorial (PES), um sexto sentido que nos torna homens-aranha, capazes de notar quando um perigo se aproxima. Mesmo que esse perigo seja justamente a Lei.

Usaremos a simbiose homem-humanos para o mal? Para a criação de uma sociedade padronizada e pasteurizada? Correremos risco do controle por algum Grande Irmão? Ou seremos capazes de coisas antes restritas aos magos da ficção? Será que um dia, como no livro Neuromancer, de William Gibson, vamos mudar nossa alma para a máquina, como um software buscando um novo hardware, mais potente, durador e com menos bugs e limitações?

Nos idos de 1999, o hiperconectado jornalista Carlos Alberto Teixeira, o C.A.T. antecipava: “Um dia, todo mundo ainda vai implantar um chip no quengo”. A minha dúvida não é se um dia isso vai mesmo acontecer. A questão é: já aconteceu?

Gerador de pautas para o Globo Repórter

O Globo Repórter sempre foi uma das melhores coisas da TV aberta. Em tempos pré-TV a cabo, era a fonte praticamente exclusiva de bons documentários e ainda hoje traz reportagens excelentes, mas que acabam seguindo uma fórmula bastante específica.

Pensando nisso, os especialistas do Cassano Institute of Bizarre Technologies (CIBT) desenvolveram uma ferramenta para ajudar a criar pautas para muitas sextas-feiras. Para utilizar, basta selecionar um trecho de cada campo abaixo e ver o tema que surge.

E você? Tem alguma sugestão de pauta?

Sobre rankings, celebridades e a natureza humana

O brilhante Alex Primo tem feito alguns posts em seu blog discutindo o sentido (ou a falta de) em se falar de celebridades da web. Isso me remeteu a outra boa e velha discussão: por que continuamos obcecados por virais, celebridades, TOP 10s e rankings que, teoricamente, deveriam ter sido banidos com a disseminação da internet e das redes sociais?

Ora, acreditávamos que, livres da ameaça perniciosa da mídia de massa, finalmente poderíamos ver os filmes que quiséssemos, ouvir as bandas mais obscuras, nos informar nas fontes mais diversas. Estaríamos livres dos rankings da Billboard, mais vendidos da Veja ou maiores bilheterias nos EUA. Também estaríamos livres das celebridades ocas da TV.

Antes de entrar nos detalhes dessa discussão, vale um breve exercício. Acho que, cegos e apaixonados pela revolução tecnológica, atribuímos a ela uma responsabilidade além do que a tecnologia (qualquer uma) pode entregar: ousamos pensar que ela mudaria a essência do que somos.

Que me perdoem os ciberpunks, mas a tecnologia não muda o Homem. Darwin muda o Homem. Ou Deus, se preferir, muda o Homem. A internet e as tecnologias em geral mudam COMO fazemos as coisas, mudam O QUE fazemos, mudam até o QUANDO ou QUANTO fazemos. Mas a tecnologia não consegue mudar POR QUE fazemos. Porque o motivador de nossas ações são nossas necessidades e desejos mais íntimos.

Em alguma instância, mais próxima ou remota, comer um Big Mac, esperar o chefe sair da sala para ver o vídeo da Maíra do BBB no computador do trabalho ou baixar o filme dos X-Men são ações solicitadas pelo TCP-IP da existência: nosso DNA.

Partindo-se da premissa de que as tecnologias trazem respostas novas para problemas reformulados a partir de necessidades perenes, celebridades, rankings e TOP 10s são respostas a uma necessidade orgânica e psicológica nossa. Não são invenção maquiavélica e exclusiva da comunicação de massa.

Provavelmente, a gente gosta mesmo de baixaria e violência. Seja em que mídia for.

Sem entrar no mérito da validade ou não de se usar o termo “celebridade” para os fenômenos específicos da blogosfera, acredito que um conceito fundamental para entendermos esse comportamento da mídia de massa no contexto das redes sociais é o da escala: em muitos aspectos (não em todos, é claro), as redes sociais se comportam como um emaranhado de redes massivas em miniatura.

Explico antes que me crucifiquem: no que diz respeito a nossas buscas por referências externas, a internet não veio acabar com rankings, blockbusters, “mais vendidos”etc. Ela apenas fragmentou estes universos. Mudou as fontes. Se antes dependíamos da Billboard para nos dizer quais os 10 melhores discos do mês, hoje formamos nosso próprio ranking no Last.fm.

Se antes a Veja nos dizia que livros ler, hoje vemos que livros as pessoas mais parecidas conosco estão lendo na Amazon ou em redes sociais de livros. Se antes a bilheteria nos EUA era fundamental para definirmos que filmes veríamos no final de semana, hoje esse processo acontece na Net Movies, acontece no Torrent.

Mas os rankings permanecem. Se antes lia-se Paulo Coelho porque ele vendeu milhões de exemplares, hoje se segue o @fulano porque ele já tem 2 mil seguidores. “E não deve ter 2 mil seguidores à toa”.

Os meios, as ferramentas, os formadores de opinião mudaram. Mas a necessidade de termos respaldo na opinião de nossas (agora múltiplas) tribos permanecem. Antes pensávamos: “Um milhão de pessoas não podem estar erradas”. Hoje pensamos: “Todo mundo não pode estar errado.”

E nosso “todo mundo” equivale a 200 pessoas que curtem Zumbi do Mato (eu curto). 50 cineastas amadores de Botucatu. 20 evangélicas lésbicas de Bom Jesus do Itabapoana. O francês Michel Maffesolli retratou com precisão o aspecto tribal da geração das redes sociais… antes de existirem as redes sociais.

Porque isso não vem de Cupertino ou Mountain View, na Califórnia, vem de nosso cérebro. A gente simplesmente não consegue pensar sozinho. “Certo” ou “Errado” são conceitos relativos que dependem da cara de aprovação ou condenação do sujeito a seu lado.

Precisamos da “opinião dos outros”, mesmo que seja para negá-la. E isso gera as sub-pseudo-celebridades da web, isso gera as tag clouds, trending topics, trendhunters e o que mais você disser em inglês que responda a uma pergunta básica: “Isso aqui é bom mesmo ou eu que sou um idiota?”

Isso explica nossa ridícula fascinação por número de seguidores, leitores de feed, amigos no Orkut. Ser uma pessoa tímida offline fazia você ser um forasteiro nas diversas tribos que freqüentava, mas você só era um Zé Ninguém uma tribo por vez. Não ter amigos no Orkut ou seguidores no Twitter faz de você um forasteiro no mundo, um lunático falando sozinho, um segregado, um Botsuana do capital social.

Voltando às celebridades da web, elas podem não ter o mesmo alcance de seus pares tradicionais. Podem não ter a disseminação multi-plataforma, nem ter um altar bacana como o da Paris Hilton. É, pode ser. Mas a motivação para colocá-las no alto desse altar é igualzinha. E a total falta de necessidade de algum conteúdo, ato, feito ou propósito real para se levar a celebridade ao altar também.

As redes são outras, as escalas são outras, as dinâmicas totalmente diferentes. Mas as pessoas… ah, essas são as mesmas. E continuarão sendo.

Campus Party: de woodstock a micareta

Algo se perdeu na última edição da Campus Party. Pode ter sido o frescor da novidade. Ou a bela arquitetura do Pavilhão da Bienal, substituído pelo “sem-sal” Centro Imigrantes. Ou a mudança no perfil dos participantes, talvez interessados demais em social e menos em mídia, tecnologia, inovação. Enfim, senti (no curto tempo que fiquei por lá, apenas um dia), um clima mais de micareta geek do que o Woodstock geek do ano anterior.

Mas há coisas boas, e muitas. O evento mostrou, mais uma vez, que existe um mercado em torno deste universo, com diversas empresas que crescem e coexistem de forma pacífica, colaborativa. Mostrou que existe um considerável número de pessoas interessadas em tecnologia, mas não como produtos de consumo, um DVD que você compra e leva pra casa. Tecnologia como agente de mudança. Como inovação, como invenção, como revolução.

Perdi apresentações e debates que sei que foram excelentes. Temas que sua mera inclusão no Painel já justificam a plenária. E encontrei pessoas que estavam ali deixando seu tijolinho na construção do futuro. Os empreendedores, que exibiram seus projetos no CPLabs, a turma do faça-você-mesmo, e os sempre fascinantes garotos e garotas da robótica. Convenhamos, não há muitos espaços onde você pode passar dias imerso aprendendo a construir robôs. Isso muda uma vida. Isso faz perceber que, hoje e no futuro, não precisamos ter uma profissão. Podemos simplesmente fazer coisas, como escrevi num post logo depois da Cparty do ano passado. Esse espírito continua.

Esse espírito, que permaneceu em alguns grupos e bancadas, meio que se perdeu no todo (ou estava lá mas não consegui perceber). Para mim, a Campus Party é valiosa como espaço único para se reunir com conhecidos e desconhecidos e criar juntos. Em construir algo juntos. Para plantar a semente de projetos que poderão crescer nos meses seguintes, ou para despertar vocações. E nem tanto como um espaço para aparecer ou “rickrollear” mais que os outros. Não é o espírito Sapucaí do “ver-e-ser-visto”. Isso faz parte? Quebra gelo? Diverte? Claro! A Campus Party, como o nome diz, é uma grande festa. Mas isso a gente consegue em qualquer lugar. Até mesmo no carnaval que se aproxima.

Aceita cartão? Posso passar no caixa?

Sabe aquela interface mega-hiper falada de Minority Report? Então, é ela de novo. Só que desta vez é de verdade.


g-speak overview 1828121108 from john underkoffler on Vimeo

Galeria de fotos da Campus Party

Povo da terra,

Cliquem na imagem abaixo para abrir a Galeria de fotos do Brogue na Campus Party Brasil.


Campus Party BR 2008

P.S. O link para a palestra do Ronaldo Lemos é http://www.campus-party.com.br/archivos/apresentacaoronaldolemos_campus_party.pdf