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Sobre rankings, celebridades e a natureza humana

O brilhante Alex Primo tem feito alguns posts em seu blog discutindo o sentido (ou a falta de) em se falar de celebridades da web. Isso me remeteu a outra boa e velha discussão: por que continuamos obcecados por virais, celebridades, TOP 10s e rankings que, teoricamente, deveriam ter sido banidos com a disseminação da internet e das redes sociais?

Ora, acreditávamos que, livres da ameaça perniciosa da mídia de massa, finalmente poderíamos ver os filmes que quiséssemos, ouvir as bandas mais obscuras, nos informar nas fontes mais diversas. Estaríamos livres dos rankings da Billboard, mais vendidos da Veja ou maiores bilheterias nos EUA. Também estaríamos livres das celebridades ocas da TV.

Antes de entrar nos detalhes dessa discussão, vale um breve exercício. Acho que, cegos e apaixonados pela revolução tecnológica, atribuímos a ela uma responsabilidade além do que a tecnologia (qualquer uma) pode entregar: ousamos pensar que ela mudaria a essência do que somos.

Que me perdoem os ciberpunks, mas a tecnologia não muda o Homem. Darwin muda o Homem. Ou Deus, se preferir, muda o Homem. A internet e as tecnologias em geral mudam COMO fazemos as coisas, mudam O QUE fazemos, mudam até o QUANDO ou QUANTO fazemos. Mas a tecnologia não consegue mudar POR QUE fazemos. Porque o motivador de nossas ações são nossas necessidades e desejos mais íntimos.

Em alguma instância, mais próxima ou remota, comer um Big Mac, esperar o chefe sair da sala para ver o vídeo da Maíra do BBB no computador do trabalho ou baixar o filme dos X-Men são ações solicitadas pelo TCP-IP da existência: nosso DNA.

Partindo-se da premissa de que as tecnologias trazem respostas novas para problemas reformulados a partir de necessidades perenes, celebridades, rankings e TOP 10s são respostas a uma necessidade orgânica e psicológica nossa. Não são invenção maquiavélica e exclusiva da comunicação de massa.

Provavelmente, a gente gosta mesmo de baixaria e violência. Seja em que mídia for.

Sem entrar no mérito da validade ou não de se usar o termo “celebridade” para os fenômenos específicos da blogosfera, acredito que um conceito fundamental para entendermos esse comportamento da mídia de massa no contexto das redes sociais é o da escala: em muitos aspectos (não em todos, é claro), as redes sociais se comportam como um emaranhado de redes massivas em miniatura.

Explico antes que me crucifiquem: no que diz respeito a nossas buscas por referências externas, a internet não veio acabar com rankings, blockbusters, “mais vendidos”etc. Ela apenas fragmentou estes universos. Mudou as fontes. Se antes dependíamos da Billboard para nos dizer quais os 10 melhores discos do mês, hoje formamos nosso próprio ranking no Last.fm.

Se antes a Veja nos dizia que livros ler, hoje vemos que livros as pessoas mais parecidas conosco estão lendo na Amazon ou em redes sociais de livros. Se antes a bilheteria nos EUA era fundamental para definirmos que filmes veríamos no final de semana, hoje esse processo acontece na Net Movies, acontece no Torrent.

Mas os rankings permanecem. Se antes lia-se Paulo Coelho porque ele vendeu milhões de exemplares, hoje se segue o @fulano porque ele já tem 2 mil seguidores. “E não deve ter 2 mil seguidores à toa”.

Os meios, as ferramentas, os formadores de opinião mudaram. Mas a necessidade de termos respaldo na opinião de nossas (agora múltiplas) tribos permanecem. Antes pensávamos: “Um milhão de pessoas não podem estar erradas”. Hoje pensamos: “Todo mundo não pode estar errado.”

E nosso “todo mundo” equivale a 200 pessoas que curtem Zumbi do Mato (eu curto). 50 cineastas amadores de Botucatu. 20 evangélicas lésbicas de Bom Jesus do Itabapoana. O francês Michel Maffesolli retratou com precisão o aspecto tribal da geração das redes sociais… antes de existirem as redes sociais.

Porque isso não vem de Cupertino ou Mountain View, na Califórnia, vem de nosso cérebro. A gente simplesmente não consegue pensar sozinho. “Certo” ou “Errado” são conceitos relativos que dependem da cara de aprovação ou condenação do sujeito a seu lado.

Precisamos da “opinião dos outros”, mesmo que seja para negá-la. E isso gera as sub-pseudo-celebridades da web, isso gera as tag clouds, trending topics, trendhunters e o que mais você disser em inglês que responda a uma pergunta básica: “Isso aqui é bom mesmo ou eu que sou um idiota?”

Isso explica nossa ridícula fascinação por número de seguidores, leitores de feed, amigos no Orkut. Ser uma pessoa tímida offline fazia você ser um forasteiro nas diversas tribos que freqüentava, mas você só era um Zé Ninguém uma tribo por vez. Não ter amigos no Orkut ou seguidores no Twitter faz de você um forasteiro no mundo, um lunático falando sozinho, um segregado, um Botsuana do capital social.

Voltando às celebridades da web, elas podem não ter o mesmo alcance de seus pares tradicionais. Podem não ter a disseminação multi-plataforma, nem ter um altar bacana como o da Paris Hilton. É, pode ser. Mas a motivação para colocá-las no alto desse altar é igualzinha. E a total falta de necessidade de algum conteúdo, ato, feito ou propósito real para se levar a celebridade ao altar também.

As redes são outras, as escalas são outras, as dinâmicas totalmente diferentes. Mas as pessoas… ah, essas são as mesmas. E continuarão sendo.

Verdade é um conceito relativo?

(ou melhor, a REALIDADE é um conceito relativo?) (update)

Num artigo da Wired desse mês, Clive Thompson fala sobre como a oferta cada vez mais abundante de informações nos torna mais ignorantes. Ou seja: quando há excesso de verdades, acabamos ficando sem nenhuma.

Isso me faz lembrar outro ponto que sempre me assola (junto com o efeito de tantas redes wireless em nosso cérebro e a consistência ideal de um milkshake de Ovomaltine): verdade é um conceito relativo?

Eu acredito que sim. Que cada vez mais, a verdade é relativa.

Já faz um tempo que terceirizamos nosso cérebro para o Google. Já não se precisa saber nada. Você só precisa saber fazer a pergunta certa. Experimente fazer uma busca por “the answer to life, the universe and everything” no Google e veja o que ele responde.

Só que tem um problema. O Google não traz A resposta. Não traz UMA resposta. Traz 6.584.394 respostas. E qual é um comportamento totalmente previsível nosso? Vasculhar os links que ele retorna até aquele com a informação QUE NOS PARECE CORRETA.

Ou seja: escolhemos a verdade que mais se parece com aquela que imaginávamos. Pegamos a verdade que melhor cabe na gente. A verdade que não fica nem apertada na cintura nem muito longa nos braços.

Algo que me intriga (filósofos de plantão, manifestem-se) é se isso é mau. É realmente bom, ruim ou apocalíptico que cada um tenha sua verdade pessoal? Faz realmente diferença, no meio de tanta realidade aumentada, virtual, ficções que viram mitos e vice-versa, saber se algo existiu ou não?

O que é a verdade em tempos de Google?

Proponho um desafio: responda com sinceridade às perguntas abaixo e depois conte quantos “Não importa” você respondeu.

Teste: Falso, Verdadeiro ou Não importa

- Leonardo diCaprio esteve a bordo do verdadeiro Titanic
Falso
Verdadeiro
Não importa
- Existiu um navio chamado Poseidon, que virou de cabeça para baixo e afundou
Falso
Verdadeiro
Não importa
- Anakin Skywalker é o pai de Luke Skywalker
Falso
Verdadeiro
Não importa
- A área 51 fica no deserto de Nevada
Falso
Verdadeiro
Não importa
- Tem um E.T. dissecado lá dentro
Falso
Verdadeiro
Não importa
- A Atlântida tinha tecnologias muito avançadas para a época
Falso
Verdadeiro
Não importa
- Os deuses eram astronautas
Falso
Verdadeiro
Não importa
- Forrest Gump conheceu Elvis Presley
Falso
Verdadeiro
Não importa
- Elvis não morreu
Falso
Verdadeiro
Não importa
- Mario Gomes gosta de cenouras
Falso
Verdadeiro
Não importa
- Nos anos 80, vendia-se tatuagens adesivas que, na verdade, era uma potente dose de LSD
Falso
Verdadeiro
Não importa