Arquivo por Tag: futuro

Chuva na Tailândia prejudica festa do Pedrinho

A gente só se dá conta da globalização quando ela dá errado. Foi o que pudemos ver quando uma enchente de grandes proporções na Tailândia alagou casas, escritórios, empresas e as principais fábricas de discos rígidos do planeta.

Com a chuva, provocada pelo período de monções mais intensos dos últimos 50 anos, as exportações de HDs pelo país já caíram mais de 20%. Em diversos mercados pelo mundo, já se sente um encarecimento no custo dos computadores e a alta pode persistir até o segundo semestre de 2012. Segundo Loren Loverde, Vice Presidente da empresa de consultoria IDC, crises no fornecimento de componentes não são novidade para a indústria de fabricação de PCs, mas uma falta de hard disks será um choque, já que a Tailândia responde por quase 45% de todo o mercado, com empresas do porte da Seagate e Western Digital.

Aumento de preço é sempre ruim, claro, mas para nossas necessidades cotidianas, o máximo que pode acontecer é postergarmos um pouco a compra daquele HD externo de 2 TB. Imagine o impacto do encarecimento ou, pior, do total desaparecimento dos HDs para as gigantes da Web, cada vez mais mergulhadas de cabeça na oferta de soluções baseadas em hospedagem de dados e de aplicações online, o cloud computing.

Amazon, Google, Apple, todas apostam nisso, sugando e armazenando milhões de megabytes de fotos, músicas, planilhas, receitas de bolo e vídeos. Sem discos para suprir a insaciável demanda por hospedagem, as gigantes ficariam numa baita encruzilhada, que poderia derrubar suas ações nas bolsas de valores e iniciar uma grave crise de confiança do mercado aos cada vez mais prevalentes modelos baseados na Nuvem. Tudo isso porque outras nuvens carregadas fizeram chover além da conta na Tailândia.

O bad block global ainda não aconteceu, mas a simples possibilidade me fez pensar que não estamos tratando o conteúdo digital com o devido respeito no que tange ao uso racional de recursos. Temos para nós que o espaço na Nuvem é infinito e a cada dia mais barato.

O Chris Anderson, editor executivo da fantástica revista Wired, baseou seu best-seller “A Cauda Longa” em algumas premissas, sendo uma delas justamente a de que o preço do megabyte tende a zero. E zilhões de planos de negócio e palestras repetiram e se basearam nesse conceito. Faltou combinar com os russos, japoneses, chineses, tailandeses e com São Pedro.

“E se estiver tudo errado?” é um péssimo pensamento para se ter quando você está no meio de uma empreitada, como pular de paraquedas, por exemplo, mas é melhor refletir sobre o tema agora do que depois que a História responder por nós. Fato é que essa cultura do megabyte infinito está por toda parte, até mesmo em salões de festas infantis, onde pais babões registram seus pimpolhos em câmeras digitais a 14 megapixels quando 2 megapixels seriam totalmente necessários para dar o devido brilho às fotos tremidas e sem foco de crianças correndo em círculos.

Uma foto de 2 megapixels possui resolução de 1600 x 1200 pontos, o suficiente para imprimir em 10×15 (o tamanho padrão de fotos) e para exibição em telas de alta definição. E tudo isso em 0,9 Mb por foto.

Com 14 megapixels, a mesma imagem teria 4320 x 3240 pontos e ocuparia 2,7 Mb, ou três vezes mais em JPG com 100% de compressão. Dá para imprimir um pôster de 73×55 cm, coisa que nem eu nem você fazemos toda semana.

Esses 2,7 Mb ficam no cartão de memória, no HD do laptop, no HD externo de backup e na Nuvem, no serviço de álbuns online do cidadão, e em seu perfil no Facebook. Em cada um deles, há ainda réplicas de backup. Ou seja, cada foto de seu filho ocupa pelo menos 7 vezes o tamanho do arquivo, isso para ser conservador. Nessa conta, cada foto de seu pimpolho ocupa 19Mb espalhados pelo mundo. Uma festinha básica, com Bob Esponja, bolo e 100 fotos, ocupam 1,9 Gb por aí.

E por mais que os discos sejam cada vez mais potentes e velozes, eles continuam sendo construídos com minérios raros e recursos naturais, demandam energia elétrica e emitem calor (ok, isso algumas tecnologias já superaram).

Sozinhos, os data centers do Google consomem 260 milhões de Watts, mais ou menos um quarto da produção de uma usina nuclear e suficiente para iluminar 200.000 residências e um pouco menos de casas de festas infantis. Essa energia vem do acesso a dados, desde fotos a vídeos do YouTube, passando pela fatia importante consumida por cada busca realizada. Em 2010, o Google emitiu 1,5 milhão de toneladas cúbicas de carbono, isso porque 25% de sua energia já vem de fontes renováveis, como usinas eólicas.

Some a isso o consumo das demais gigantes, das empresas de backup online e etc e temos um lado negro, global e esfumaçado do mundo digital. Em última instância, o mundo pode sobreviver à Guerra Fria e acabar com o excesso de festas infantis e tios com câmeras potentes. Com ou sem chuva na Tailândia.

Publicado originalmente no Techtudo, em 18/11/2011.

Mini-conto: O futuro da espécie

Foi revelado a ele todo o futuro de nossa espécie, todas as próximas conquistas, catástrofes, nossa evolução e nosso inevitável fim.

“Hmmm… ok. E o resto?”

“Não tem resto. É isso.”

“Hmmm… só isso?”

“Sim. Só isso.”

“Então tá.”

“Alguma outra pergunta?”

“Não… tipo… não rola aquelas coisas…”

“Não.”

“Nem eventos do tipo…”

“Nana…”

“ou invenções como aquela…”

“Neca.”

“Hmmm…”

“Posso ir?”

“Tá. Ok então. Obrigado por mostrar”.

“De nada. Adeus.”

Então ele se viu de volta a seu quarto, colocou a mochila nas costas e correu para pegar o ônibus, pois estava atrasado para o trabalho.

Qual o futuro da internet?

Quase sempre que alguém me entrevista sobre redes sociais há uma pergunta recorrente. Deve ser o equivalente a perguntar ao jogador de futebol após uma vitória se o resultado foi positivo. E a pergunta é: “Qual o futuro da internet?”

Adianto então a resposta. E ela é simples. Não chega à mágica simplicidade do “42”, a resposta para A Vida, o Universo e Tudo o Mais, mas é quase. Tem duas palavras apenas:

“Ninguém sabe”.

Poucas coisas são mais imprevisíveis do que tecnologia. Ou melhor, do que a gente é capaz de fazer com novas tecnologias.

É como se a tecnologia quisesse seguir sempre em frente, mas a gente pega aquele trilho e faz um desvio nele. A partir daí, tudo se reconfigura para seguir em frente a partir do desvio. Até a gente fazer um puxadinho pra outro lado.
Um monte de coisas vai moldar esse futuro. Listo algumas:

1) Qual será o dispositivo? Vamos interagir com os outros e com o conteúdo pela TV? Pelo celular? Torradeira? Computador? A Web está morta, como cogita a Wired?

2) O que vai colar? E o que não vai? O Orkut não foi feito, ele aconteceu. Idem para o Twitter. Na outra ponta, Foursquare e Chatroulette não vingaram como prometiam. Discutir ferramentas me desinteressa profundamente, mas elas são, não posso negar, parte da equação.

3) Teremos tempo e dinheiro para brincar? Brincar é o primeiro passo. Perder tempo, bater papo, namorar digitalmente, comprar uma coisa ou outra. Pelo que mostra nosso comportamento digital, definitivamente os humanos não vieram ao mundo a trabalho.

4) E a inclusão? A internet se populariza no Brasil com velocidade assustadora, mas ainda não chega de forma rotineira nem à metade da população. E seu principal carro-chefe, o Orkut, já não cresce. Teremos alcançando o teto de alcance e interesse que essa web atual oferece a nosso povo?

5) E a grande mídia? Desprezar o poder de uma mídia que chega a 95% dos lares brasileiros, como a TV, é doideira. Que modas ela vai abraçar? Quem será o novo Twitter a ganhar capas e capas de revistas? Vale lembrar que os grandes saltos da web se deram quando ela soube cooptar o mainstream e usar a mídia de massa, monolítica e desajeitada, a seu favor. Ou vice-versa.

6) E o dinheiro? Conseguiremos juntar a inevitável digitalização de tudo a modelos de negócio que funcionem? A internet é fruto da árvore capitalista. Se, no fim, a coisa não der dinheiro, não haverá pesquisa nem inovação. E se o Google for dividido em vários por ter se tornado um monopólio global? E se surgir um novo Google? E se Steve Jobs reinventar a roda de novo (leia-se, lançar algo que já existe, só que banhado numa aura cool e com pitadas de genialidade)?

7) E você? O que você vai fazer? Continuará sendo os 80% que só consomem? Resquícios de nosso papel social de “audiência” ou vai criar algo? O que você vai criar? O que você fizer é o que o mundo digital será.

O que você acha?

Ciborgues em rede – as redes sociais e o mito do homem-máquina

Lá está ela sobre a mesa, o encarando. Branca, pálida, com enunciados que zombam de você. Eles sabem a verdade. Sabem que você não sabe o que eles sabem. No caso, eles sabem a resposta, e você não. A professora caminha por entre as fileiras de carteiras de madeira, seus colegas concentrados, o barulho do grafite rascunhando somas, multiplicações, divisões. E os enunciados das questões zombando de você.

Você trava. “Quanto é 8 vezes 7?”. A resposta não vem. Você repassa mentalmente a tabuada, mas se perde antes de chegar lá. A professora passa por você. Desta vez, o cálculo vem rápido: “faltam umas cinco carteiras até ela se virar novamente. Dá tempo.” Você força o lápis contra a mesa. A ponta se quebra. Então, discretamente leva os dedos até o estojo. Puxa o zíper com cuidado para não fazer qualquer barulho. Enquanto os dedos tateiam sem pressa pelo apontador, os olhos vasculham o interior do estojo, em busca do lápis-tabuada. Lá está a resposta. Você aponta seu lápis e escreve “56” na prova.

Quase todo mundo já recorreu aos préstimos do lápis-tabuada, ou do colega da carteira da frente. O que fizemos, nessas situações, foi recorrer a uma ferramenta externa – o lápis ou os neurônios do colega – para ampliar nossos sentidos, nossas habilidades ou capacidades físicas.

Macacos e humanos possuem cérebros mais desenvolvidos que a maioria dos seres vivos. Some o cérebro a polegares opositores e você tem espécies animais plenamente adaptadas à invenção e ao uso de ferramentas. O monolito de 2001 – Uma Odisséia no Espaço, que motiva os saltos evolutivos, faz com que o neanderthal perceba que ossos de mamute podem dar excelentes porretes e, com isso, ele ganha vantagem na luta pela sobrevivência. O lápis-tabuada, no dia da prova de matemática, cumpriu exatamente o papel do osso pré-histórico em 2001. A diferença é que você não precisou golpear a professora com o lápis até ela te dar uma nota 10.

Costumamos associar tecnologia a coisas que piscam, têm fios e custam caro. Na prática, quaisquer ferramentas que ampliam nossos sentidos e capacidades – de ossos de mamute a iPhones – são tecnologias. E quando a tecnologia e a ferramenta se tornam tão íntimas de nós, tão ligadas a nossos cérebros, ela se torna parte de nós. Nós viramos ciborgues.

Todo taxista é um Robocop
Se você dirige, parabéns, você é praticamente um Robocop. Você não pensa: “vou girar o volante 30 graus, pressionar o pedal direito uns quatro centímetros, soltar o pé dois centímetros, pisar com o pé esquerdo o máximo que puder e mover esta alavanca da posição superior esquerda para esta imediatamente à direita e inferior”. Você simplesmente faz a curva e engata a segunda. O carro é uma extensão de seu corpo.

O mesmo vale para lápis, canetas, o mouse e, agora, a internet e as redes sociais.

Eu tenho uma memória horrível. Ruim mesmo. Há tempos brinco que terceirizei meu cérebro com o Google para livrar neurônios para coisas mais importantes. E é meio que verdade. Eu já não preciso saber dados exatos, números de telefone, endereços. Só preciso saber usar a discreta caixa sobre fundo branco, de onde surgem todas as respostas.

Se você não está no Orkut, você não faz aniversário
Dia desses ouvi uma frase que achei tão divertida quanto simbólica: “Se você não está no Orkut, você não faz aniversário”. Faz sentido. Quando decidimos nos tornar dependentes dos telefones celulares, passamos a não saber mais nenhum número de telefone de cor. Agora, as agendas de papel foram definitivamente enterradas, já que recorremos aos avisos do Orkut – e de outras redes sociais – para saber quando é o aniversário de nossos amigos. Terceirizamos com o Google inclusive nossa memória afetiva. E quanto mais nos sentirmos à vontade com esta relação, mais ciborgues seremos.

O celular é um excelente exemplo da simbiose homem-máquina. Os heavy users manipulam seus aparelhos sem sequer olhar para eles. Sabem exatamente onde está cada coisa e liberam importantes áreas do cérebro para raciocinar sobre outras coisas. Usar o celular se torna um processo mecânico, como caminhar, descascar uma banana ou amarrar os sapatos.

Será que, além de alertar aniversários dos amigos, as redes sociais produzem a mesma relação? O que acontecerá conosco conforme deixarmos de terceirizar nossos cérebros com máquinas e passarmos a terceirizar nossos cérebros mais e mais com outras pessoas – algumas próximas como os colegas da escola, outras desconhecidas no outro lado do planeta?

Nasce o homem-humano?
Será de fato o nascimento de um novo ciborgue? Não um homem-máquina, mas o ciborgue homem-humanidade? Será que precisamos mergulhar de cabeça numa Matrix tecnológica para nos conectarmos aos outros humanos?

Pois há indícios que nos ajudam a pensar desta forma.

No RPG Dungeons & Dragons, o Observador (Beholder) é um monstro dos mais cascudos. Ele é uma esfera flutuante com centenas de olhos, e essa capacidade de ver em todas as direções, além de um raio petrificante, fazem dele um inimigo cruel. Em O Senhor dos Anéis, inspiração para o próprio D&D, as palantíri eram espécies de bolas de cristal, usadas apenas por reis e grandes magos, para, entre outras coisas, poder observar o que se passava em terras distantes.

As redes sociais fizeram com que nossos computadores mais triviais, que nossos celulares e videogames se transformassem em palantíris. A cada instante, milhares de fotos são tiradas em câmeras digitais e celulares ao redor do mundo. E uma parcela cada vez maior dessas fotos têm destino certo: a “nuvem”, como é chamada a camada de serviços em rede que disponibilizam acesso a conteúdo de e para qualquer lugar.

O Olho do Observador
As fotos que são capturadas e enviadas para redes sociais como o Twitter, por exemplo, tem por característica o imediatismo. Não são fotos elaboradas e artísticas, comuns às comunidades de imagem, como o Flickr. São registros – muitas vezes sem foco ou enquadramento adequado – do agora. Aqui, hoje, ao vivo. Quando se resolve acompanhar a timeline – seqüência de imagens postadas a cada instante, independentemente do autor –, o resultado é um sentimento de voyerismo extremo, mágico como numa bola de cristal. Temos a sensação – quase real e acertada – de estarmos vendo o mundo todo, agora, ao vivo. Não por câmeras instaladas em monumentos e praças, mas na intimidade de gente de toda a parte. Polaróides daquilo que pessoas de todo tipo julgaram relevante de ser compartilhado, de ser registrado, de ser preservado.

Também ligado ao Twitter e reforçando o famoso “jeitinho brasileiro” está um serviço informal de alertas que se utiliza da agilidade dos microblogs e da possibilidade de atualização da rua, por meio de celulares, para compartilhar a localização de blitzes policiais com bafômetros. Desta forma, pessoas dispostas a correr o risco de consumir álcool e dirigir podem evitar os bloqueios policiais da Operação Lei Seca.

É claro que o exemplo aqui é de algo no mínimo irresponsável e ilegal. Espancar pessoas com ossos de mamutes também não devia ser algo bacana nem na pré-história. Bombas atômicas nunca foram divertidas. Seria leviano achar que só usaríamos tecnologia para fins benéficos e altruístas. O fato é que, usando redes sociais e os neurônios dos amigos, estamos adquirindo poderes, como a famosa Percepção Extra-sensorial (PES), um sexto sentido que nos torna homens-aranha, capazes de notar quando um perigo se aproxima. Mesmo que esse perigo seja justamente a Lei.

Usaremos a simbiose homem-humanos para o mal? Para a criação de uma sociedade padronizada e pasteurizada? Correremos risco do controle por algum Grande Irmão? Ou seremos capazes de coisas antes restritas aos magos da ficção? Será que um dia, como no livro Neuromancer, de William Gibson, vamos mudar nossa alma para a máquina, como um software buscando um novo hardware, mais potente, durador e com menos bugs e limitações?

Nos idos de 1999, o hiperconectado jornalista Carlos Alberto Teixeira, o C.A.T. antecipava: “Um dia, todo mundo ainda vai implantar um chip no quengo”. A minha dúvida não é se um dia isso vai mesmo acontecer. A questão é: já aconteceu?

2010: De redes sociais para jogos sociais

A pedido da Revista Webdesign, tentei prever algumas tendências para 2010 em redes sociais e mídia digital, em geral. Como qualquer previsão, o risco de errar é maior que o de acertar. Quem viver, verá.

“Prever o futuro é a melhor maneira de garantir seu lugar na história, como alguém que previu algo absolutamente errado. Embora quase tudo que nos cerca seja evolutivo, vez em quando surge uma ruptura, algo que não havia sido previsto e que muda tudo. Isso vale tanto para o 11 de setembro como para o Twitter.

Mesmo assim, vou arriscar duas tendências que, acredito, farão barulho em 2010:

1. O fim das redes sociais

As redes sociais continuarão seu processo de crescimento e de amadurecimento. Elas serão inevitáveis e
indispensáveis. Serão fortes e impactarão profundamente a forma de consumo e de troca/manutenção de laços afetivos e de informação. Elas serão tão grandes que desaparecerão. Mídias sociais, cada vez mais, se tornarão sinônimo de internet. Que cada vez mais se torna sinônimo de mundo.

2. Jogos de Guerra. E de compras, e de amor, e de viagens

Jogos. Por toda parte. Acredito num esfriamento da exploração do capital social, de fomentar o espírito de
colaboração, participação e coautoria em troca da possibilidade de se virar microcelebridade. Esse espírito é
fundamental em redes sociais, mas é natural apenas em uma pequena (porém poderosa) parcela das pessoas.

O apelo lúdico dos jogos, porém, tem alcance bem maior. Iniciativas ainda mambembes, como o FourSquare e
os jogos de Facebook, nos apontam um caminho: travestir redes sociais como jogos para motivar a cocriação. Ou agregar redes sociais a jogos – XBOX 360 e sua Live -, impactando os games, os consoles e até a pirataria.”

Minha palestra no EDTED – Recife

Recife é uma cidade incrível. Explosão de mar, sol, cultura, tecnologia e de corajosos jovens empreendedores que, a 20 metros da praia de Boa Viagem num sábado de sol, dedicaram seu dia a ouvir palestras de Julius Wiedemann, Gil Giardelli e Luli Radfahrer e eu falando sobre design e redes sociais.

Como não é todo dia que a gente vai a Recife, todo mundo fez ajustes nas apresentações. Aproveitei para incluir conteúdos novos. Ficou tão grande, que acabei cortando de 10 para 7 lições aprendidas. Mas ficou legal. Parece que o povo gostou.

Valeu Recife. Até a próxima!

View more documents from Roberto Cassano.

Seeding é isso: inspirar pessoas a inspirar pessoas

Em visita à Infnet, fui abordado por um jovem, cabelo grande, jaqueta azul, aquele olhar determinado de quem quer sugar toda informação que passar por sua frente.

Eu estava sentado em um banco, me dividindo entre o laptop, o celular e o Blackberry. Ele se aproximou, se sentou ao meu lado, pensou duas vezes e perguntou:

- Você palestrou no 12o Encontro de Web Design, não foi?

Respondi que sim e confirmei com ele se tinha sido aquele no Hotel Glória, no Rio. Ele continuou:

- Foi meu primeiro evento desse tipo, nunca tinha ido. Gostei muito de todas as palestras. Elas me motivaram a me esforçar.

Ele contou que começou a trabalhar com web como frila, inclusive com clientes europeus. Com a grana dos frilas, entrou para a graduação no Infnet. Contou também que trabalha em um projeto social, o Kabum, voltado para inclusão digital de jovens carentes.

- É fácil lidar com os alunos, porque eu moro na Rocinha -, revelou o jovem profissional, que nunca tinha ido a um evento da área e que, inspirado pelas apresentações, acreditou que poderia seguir carreira, conquistou clientes e investiu em mais conhecimento. E que não esperou o bolo crescer para começar a dividir.

É uma alegria e uma honra muito grande saber que tenho uma modesta participação nisso, por, junto com outros profissionais, ter subido naquele palco no Hotel Glória e inspirado pessoas a perseguirem sonhos – alguns que eles nem sabiam que tinham até aquele dia.

Blog de papel ensina a escrever

Por meio de minha mãe, que é professora da Rede Estadual do Rio de Janeiro, tomei contato com um projeto muito interessante: o Almanaque da Rede. Concebido por Sonia Rodrigues, filha do imortal tricolor Nelson Rodrigues, trata-se um uma abordagem inovadora para um desafio e tanto: fazer a geração Orkut-Créu-MSNaprender, exercitar e, principalmente, gostar de escrever. E de conhecer as diferentes formas de escrita, do miguxês ao português erudito.

almanaquedarede O projeto contempla uma espécie de agenda de papel, distribuída para alunos do primeiro ano do ensino médio da rede estadual. Nela, além de espaço para dados do aluno (nome, e-mail, perfil no Facebook, perfil no Orkut, comunidades favoritas etc), há dicas de internet (como fazer buscas, downloads, sites interessantes, o que é e como usar blogs, Twitter e afins), dicas de Português e outras disciplinas (por exemplo, comparando o texto de um scrap de Orkut com o de um currículo) e muitos, mas muitos, exercícios de construção de textos.

No lugar de regrinhas chatas, regras de um jogo. Ícones coloridos representam diversos elementos de uma narrativa (personagem, motivo, desfecho etc), de uma dissertação, descrição etc. Para fazer uso do Almanaque e de seu “Blog de Papel”, o aluno precisa encarar a construção de textos como um jogo. Um desafio a ser vencido. Um enigma a ser desvendado. É bem mais do que uma redação de “Minhas férias”.

A parte digital tem ferramentas e conteúdos para alunos e professores. Entre elas, a possibilidade de transpor o blog de papel para um ambiente online. E espaços para os alunos publicarem suas redações, que concorrerão a prêmios.

Parece uma tentativa desesperada de juntar tudo que é inovador e atraente num projeto só – interatividade, tecnologia, redes sociais, jogos e uma linguagem jovem e contemporânea. Mas tudo ali parece ter sido bem pensado, bem estruturado. Nada soa gratuito. O projeto, fruto da tese de doutorado em Literatura de Sonia, é muito consistente e autêntico.

É uma corajosa e valiosa tentativa de se modernizar o ensino. Em minha visão de leigo em educação, o Almanaque busca ensinar os alunos a pensar – não há melhor exercício para organizar o pensamento do que escrever – , e, ao usar a internet como isca para o estudo, acaba realizando uma efetiva inclusão digital, ao dar o básico de informações e mostrar o vasto mundo digital para uma turma que, por mais que esteja conectada, na maioria das vezes não vai além do Orkut e do MSN.

Pena que em muitos colégios, o Almanaque não veio junto com uma boa apresentação sobre o projeto, e o material impresso foi desprezado como “mais uma agendinha”.

O reboot final: a era do cyborg

Crise mundial, engenharia genética e robótica criarão o homem 2.0?

E se um dia deletarem nossas almas?

Recentemente perdi minha avó, pessoa a quem muito amei e que muito me amou. Alguém que viu o Zeppelin sobrevoando o Rio de Janeiro, que cantou em rádio e ganhou os grandes prêmios da época (jogos de panelas e óleo de soja), que empreendeu de todas as formas que soube, enfim, que viveu intensamente.

No triste trabalho de desmontar sua antiga casa, cercado por objetos pessoais, pela máquina de costura onde eu me escondia e fingia estar pilotando alguma coisa (ônibus, submarino, caminhão), me deparei com pequenos tesouros.

Fotos, muitas fotos. Algumas amareladas, outras em preto-e-branco. Pelas bordas, pelo tipo de impressão, pela data que algumas trazem gravadas, por diversos elementos além da foto em si, revive-se muito destes momentos. Situações que jamais vivi. Histórias em que não era nem nascido.

E, mais que as fotos, agendas que durante algumas décadas se transformaram em diários. Eram o MS Office da minha avó. Traziam a contabilidade do mês, os sonhos, as pequenas alegrias e muitas receitas culinárias. Na caligrafia inconfundível, traziam a alma de minha avó. Nas agendas, ela permanece. Sua força permanece.

Percorri minha vida inteira lendo as páginas daquelas agendas e não pude deixar de fazer o paralelo comigo mesmo. Quando eu bater as botas, o que as pessoas vão encontrar em meu apartamento? HDs? DVDs? Será que terão tempo, interesse ou equipamentos para ler o que está armazenado ali?

Que vestígio de mim encontrarão? Que seja autêntico? Nenhuma foto, nenhuma carta, nenhum diário à mão. Um ou outro cartão de datas festivas, uma ou outra anotação furtiva. Nada mais.

Já escrevi sobre isso antes. Mas o contexto e a falta de qualquer solução desde então me habilita a retomar o tema. Estamos vivendo uma geração que deixará poucos vestígios. É bem possível que, no futuro, quando vierem escavar nossas ruínas, descubram que nosso povo era meio estranho e tinha como objetos de adoração maior sacos plásticos de supermercado, garrafas PET e CDs da America Online.