Cadê o idioma que estava aqui?
Fui convidado para participar de um debate na Bienal do Livro de São Paulo. Grande honra. O tema é a linguagem dos jovens, das gerações Y, Z, X, cima, cima, baixo, baixo, B A start. <sarcasmo>Tema super tranqüilo</sarcarmo>.
Não sou filólogo, nem professor de Língua Portuguesa. Confesso que, tirando o pobre do trema e do acento da ideia, mal incorporei esta nova reforma ortográfica. Para todos os efeitos me tornei aqueles velhinhos que ainda escreviam farmácia com “ph”.
Mas posso falar tanto pela ótica de quem acompanha os movimentos e os efeitos da tecnologia quanto pela ótica de quem mudou também. Não escrevo da mesma forma. Em nenhum prisma.
Primeiro, a relação com a escrita digital é diferente de escrever à mão. Mal reconheço minha própria letra. A caneta me parece um objeto meio exótico, o pulso dói (esse acento caiu?) se preciso escrever um texto longo na munheca. E, por ser digital, tenho essa relação diferente com a estética do texto. Tenho o direito de desistir, apagar e começar de novo. Posso mover os blocos de texto como se o texto fosse um brinquedo feito de legos.
E quando vou para redes sociais, o texto deixa de ser objetivo para ser meio. Em primeiro lugar, há a função prática, que ganha peso. O texto é funcional. “Entendeu? Então tá valendo.” Dai da p abreviar pq assim funfa mais rapido e vc entende da msma maneira. Da pra escrever + rapido, os acentos nao fazem mta falta e o importante aki eh se fazer entender. O problema é quando a garotada esquece que o texto acima “tá valendo” quando o objetivo é meramente se fazer entender.
É como se as gerações anteriores tivessem se apaixonado por telegramas fonados ou por rádio-amador e passassem a falar nas línguas dessas ferramentas em todas as situações.
Já pensou? #corrão!
E tem essa outra função. As redes sociais são tribais. Adolescentes são tribais. Nós somos tribais. Precisamos de formas de mostrar que estamos unidos. A linguagem cumpre esse papel. Criamos jargões, neologismos, palavras, símbolos. Já me peguei usando hashtags, emoticons e afins em e-mails e outras formas de comunicação.
Já não se escreve como antigamente? Certamente não. Folheie a revista Wired e você verá como o texto hoje se escreve com gráficos, com setas, com caixas, com hipertextos, links e inúmeras formas que amadureceram sendo usadas “erradamente” na web.




