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Qual o futuro da internet?

Quase sempre que alguém me entrevista sobre redes sociais há uma pergunta recorrente. Deve ser o equivalente a perguntar ao jogador de futebol após uma vitória se o resultado foi positivo. E a pergunta é: “Qual o futuro da internet?”

Adianto então a resposta. E ela é simples. Não chega à mágica simplicidade do “42”, a resposta para A Vida, o Universo e Tudo o Mais, mas é quase. Tem duas palavras apenas:

“Ninguém sabe”.

Poucas coisas são mais imprevisíveis do que tecnologia. Ou melhor, do que a gente é capaz de fazer com novas tecnologias.

É como se a tecnologia quisesse seguir sempre em frente, mas a gente pega aquele trilho e faz um desvio nele. A partir daí, tudo se reconfigura para seguir em frente a partir do desvio. Até a gente fazer um puxadinho pra outro lado.
Um monte de coisas vai moldar esse futuro. Listo algumas:

1) Qual será o dispositivo? Vamos interagir com os outros e com o conteúdo pela TV? Pelo celular? Torradeira? Computador? A Web está morta, como cogita a Wired?

2) O que vai colar? E o que não vai? O Orkut não foi feito, ele aconteceu. Idem para o Twitter. Na outra ponta, Foursquare e Chatroulette não vingaram como prometiam. Discutir ferramentas me desinteressa profundamente, mas elas são, não posso negar, parte da equação.

3) Teremos tempo e dinheiro para brincar? Brincar é o primeiro passo. Perder tempo, bater papo, namorar digitalmente, comprar uma coisa ou outra. Pelo que mostra nosso comportamento digital, definitivamente os humanos não vieram ao mundo a trabalho.

4) E a inclusão? A internet se populariza no Brasil com velocidade assustadora, mas ainda não chega de forma rotineira nem à metade da população. E seu principal carro-chefe, o Orkut, já não cresce. Teremos alcançando o teto de alcance e interesse que essa web atual oferece a nosso povo?

5) E a grande mídia? Desprezar o poder de uma mídia que chega a 95% dos lares brasileiros, como a TV, é doideira. Que modas ela vai abraçar? Quem será o novo Twitter a ganhar capas e capas de revistas? Vale lembrar que os grandes saltos da web se deram quando ela soube cooptar o mainstream e usar a mídia de massa, monolítica e desajeitada, a seu favor. Ou vice-versa.

6) E o dinheiro? Conseguiremos juntar a inevitável digitalização de tudo a modelos de negócio que funcionem? A internet é fruto da árvore capitalista. Se, no fim, a coisa não der dinheiro, não haverá pesquisa nem inovação. E se o Google for dividido em vários por ter se tornado um monopólio global? E se surgir um novo Google? E se Steve Jobs reinventar a roda de novo (leia-se, lançar algo que já existe, só que banhado numa aura cool e com pitadas de genialidade)?

7) E você? O que você vai fazer? Continuará sendo os 80% que só consomem? Resquícios de nosso papel social de “audiência” ou vai criar algo? O que você vai criar? O que você fizer é o que o mundo digital será.

O que você acha?

Cadê o idioma que estava aqui?

Fui convidado para participar de um debate na Bienal do Livro de São Paulo. Grande honra. O tema é a linguagem dos jovens, das gerações Y, Z, X, cima, cima, baixo, baixo, B A start. <sarcasmo>Tema super tranqüilo</sarcarmo>.

Não sou filólogo, nem professor de Língua Portuguesa. Confesso que, tirando o pobre do trema e do acento da ideia, mal incorporei esta nova reforma ortográfica. Para todos os efeitos me tornei aqueles velhinhos que ainda escreviam farmácia com “ph”.

Mas posso falar tanto pela ótica de quem acompanha os movimentos e os efeitos da tecnologia quanto pela ótica de quem mudou também. Não escrevo da mesma forma. Em nenhum prisma.

Primeiro, a relação com a escrita digital é diferente de escrever à mão. Mal reconheço minha própria letra. A caneta me parece um objeto meio exótico, o pulso dói (esse acento caiu?) se preciso escrever um texto longo na munheca. E, por ser digital, tenho essa relação diferente com a estética do texto. Tenho o direito de desistir, apagar e começar de novo. Posso mover os blocos de texto como se o texto fosse um brinquedo feito de legos.

E quando vou para redes sociais, o texto deixa de ser objetivo para ser meio. Em primeiro lugar, há a função prática, que ganha peso. O texto é funcional. “Entendeu? Então tá valendo.” Dai da p abreviar pq assim funfa mais rapido e vc entende da msma maneira. Da pra escrever + rapido, os acentos nao fazem mta falta e o importante aki eh se fazer entender. O problema é quando a garotada esquece que o texto acima “tá valendo” quando o objetivo é meramente se fazer entender.

É como se as gerações anteriores tivessem se apaixonado por telegramas fonados ou por rádio-amador e passassem a falar nas línguas dessas ferramentas em todas as situações.

Já pensou? #corrão!

E tem essa outra função. As redes sociais são tribais. Adolescentes são tribais. Nós somos tribais. Precisamos de formas de mostrar que estamos unidos. A linguagem cumpre esse papel. Criamos jargões, neologismos, palavras, símbolos. Já me peguei usando hashtags, emoticons e afins em e-mails e outras formas de comunicação.

Já não se escreve como antigamente? Certamente não. Folheie a revista Wired e você verá como o texto hoje se escreve com gráficos, com setas, com caixas, com hipertextos, links e inúmeras formas que amadureceram sendo usadas “erradamente” na web.

Sobre rankings, celebridades e a natureza humana

O brilhante Alex Primo tem feito alguns posts em seu blog discutindo o sentido (ou a falta de) em se falar de celebridades da web. Isso me remeteu a outra boa e velha discussão: por que continuamos obcecados por virais, celebridades, TOP 10s e rankings que, teoricamente, deveriam ter sido banidos com a disseminação da internet e das redes sociais?

Ora, acreditávamos que, livres da ameaça perniciosa da mídia de massa, finalmente poderíamos ver os filmes que quiséssemos, ouvir as bandas mais obscuras, nos informar nas fontes mais diversas. Estaríamos livres dos rankings da Billboard, mais vendidos da Veja ou maiores bilheterias nos EUA. Também estaríamos livres das celebridades ocas da TV.

Antes de entrar nos detalhes dessa discussão, vale um breve exercício. Acho que, cegos e apaixonados pela revolução tecnológica, atribuímos a ela uma responsabilidade além do que a tecnologia (qualquer uma) pode entregar: ousamos pensar que ela mudaria a essência do que somos.

Que me perdoem os ciberpunks, mas a tecnologia não muda o Homem. Darwin muda o Homem. Ou Deus, se preferir, muda o Homem. A internet e as tecnologias em geral mudam COMO fazemos as coisas, mudam O QUE fazemos, mudam até o QUANDO ou QUANTO fazemos. Mas a tecnologia não consegue mudar POR QUE fazemos. Porque o motivador de nossas ações são nossas necessidades e desejos mais íntimos.

Em alguma instância, mais próxima ou remota, comer um Big Mac, esperar o chefe sair da sala para ver o vídeo da Maíra do BBB no computador do trabalho ou baixar o filme dos X-Men são ações solicitadas pelo TCP-IP da existência: nosso DNA.

Partindo-se da premissa de que as tecnologias trazem respostas novas para problemas reformulados a partir de necessidades perenes, celebridades, rankings e TOP 10s são respostas a uma necessidade orgânica e psicológica nossa. Não são invenção maquiavélica e exclusiva da comunicação de massa.

Provavelmente, a gente gosta mesmo de baixaria e violência. Seja em que mídia for.

Sem entrar no mérito da validade ou não de se usar o termo “celebridade” para os fenômenos específicos da blogosfera, acredito que um conceito fundamental para entendermos esse comportamento da mídia de massa no contexto das redes sociais é o da escala: em muitos aspectos (não em todos, é claro), as redes sociais se comportam como um emaranhado de redes massivas em miniatura.

Explico antes que me crucifiquem: no que diz respeito a nossas buscas por referências externas, a internet não veio acabar com rankings, blockbusters, “mais vendidos”etc. Ela apenas fragmentou estes universos. Mudou as fontes. Se antes dependíamos da Billboard para nos dizer quais os 10 melhores discos do mês, hoje formamos nosso próprio ranking no Last.fm.

Se antes a Veja nos dizia que livros ler, hoje vemos que livros as pessoas mais parecidas conosco estão lendo na Amazon ou em redes sociais de livros. Se antes a bilheteria nos EUA era fundamental para definirmos que filmes veríamos no final de semana, hoje esse processo acontece na Net Movies, acontece no Torrent.

Mas os rankings permanecem. Se antes lia-se Paulo Coelho porque ele vendeu milhões de exemplares, hoje se segue o @fulano porque ele já tem 2 mil seguidores. “E não deve ter 2 mil seguidores à toa”.

Os meios, as ferramentas, os formadores de opinião mudaram. Mas a necessidade de termos respaldo na opinião de nossas (agora múltiplas) tribos permanecem. Antes pensávamos: “Um milhão de pessoas não podem estar erradas”. Hoje pensamos: “Todo mundo não pode estar errado.”

E nosso “todo mundo” equivale a 200 pessoas que curtem Zumbi do Mato (eu curto). 50 cineastas amadores de Botucatu. 20 evangélicas lésbicas de Bom Jesus do Itabapoana. O francês Michel Maffesolli retratou com precisão o aspecto tribal da geração das redes sociais… antes de existirem as redes sociais.

Porque isso não vem de Cupertino ou Mountain View, na Califórnia, vem de nosso cérebro. A gente simplesmente não consegue pensar sozinho. “Certo” ou “Errado” são conceitos relativos que dependem da cara de aprovação ou condenação do sujeito a seu lado.

Precisamos da “opinião dos outros”, mesmo que seja para negá-la. E isso gera as sub-pseudo-celebridades da web, isso gera as tag clouds, trending topics, trendhunters e o que mais você disser em inglês que responda a uma pergunta básica: “Isso aqui é bom mesmo ou eu que sou um idiota?”

Isso explica nossa ridícula fascinação por número de seguidores, leitores de feed, amigos no Orkut. Ser uma pessoa tímida offline fazia você ser um forasteiro nas diversas tribos que freqüentava, mas você só era um Zé Ninguém uma tribo por vez. Não ter amigos no Orkut ou seguidores no Twitter faz de você um forasteiro no mundo, um lunático falando sozinho, um segregado, um Botsuana do capital social.

Voltando às celebridades da web, elas podem não ter o mesmo alcance de seus pares tradicionais. Podem não ter a disseminação multi-plataforma, nem ter um altar bacana como o da Paris Hilton. É, pode ser. Mas a motivação para colocá-las no alto desse altar é igualzinha. E a total falta de necessidade de algum conteúdo, ato, feito ou propósito real para se levar a celebridade ao altar também.

As redes são outras, as escalas são outras, as dinâmicas totalmente diferentes. Mas as pessoas… ah, essas são as mesmas. E continuarão sendo.

Aceita cartão? Posso passar no caixa?

Sabe aquela interface mega-hiper falada de Minority Report? Então, é ela de novo. Só que desta vez é de verdade.


g-speak overview 1828121108 from john underkoffler on Vimeo

O papel social dos blogs e a polêmica do "blog de aluguel"

O papel do jornalismo é levar informação e opinião para as pessoas.

Blogs não são jornalismo. Ou pelo menos não têm a menor obrigação de ser. Mas cada vez mais pessoas confiam nos blogs como fonte de informação.

Vocês se lembram por que os blogs cresceram? “Porque eram feitos por pessoas apaixonadas e não estavam sujeitos ao viés editorial da grande imprensa”. Foi a liberdade, a autonomia, que fez a blogosfera crescer.

Não porque traz reportagens apuradas por isenção, mas porque o blog é, em essência, opinativo.

E você confia numa opinião de uma pessoa física (vulgo ser humano), mas não de uma pessoa jurídica. Por quê? Não sei. Algum complexo capitalista/colonizado de que “pessoas são boas” e “empresas são más”.

Mas fato é que as pessoas pensam assim, concordemos ou não. E isso fez a blogosfera florescer, com sua enorme gama de gente incrível falando coisas fantásticas e gente idiota falando bobagem.

Mas aí uma coisa aconteceu. Os blogs – tão sem querer como artistas que de repente viram celebridades e se fascinam/espantam com o assédio – tomaram o papel social da imprensa de formadora de opinião.

O que faz um jornal ser um jornal? A estrutura administrativa da empresa? O poder de escrever coisas e imprimir em papel que suja a mão? Ou uma instituição com um papel definido na sociedade?

Quem assume – querendo ou não – um papel na sociedade arca com os ônus e os bônus disso. Preservar a integridade dessa relação é um deles.

Isso significa que devemos todos ser blogueiros filantrópicos-budistas-marxistas? Que devemos nos benzer ao ver uma nota de R$ 100? Chamar a polícia cada vez que um “mimo” chega na caixa de correio?

Não. Todo mundo tem o direito de ser reconhecido (financeiramente, inclusive) por aquilo que faz bem. E se isso acontece com um blogueiro, é porque ele passou a fazer parte de um mundo não de pessoas físicas, mas de pessoas jurídicas. Um mundo de transações. Com sua ética própria. Ônus e bônus próprios.

O que me parece é que adoramos o flash dos fotógrafos mas ficamos p* quando os fãs vêm pedir autógrafos. Nada contra quem quer brincar. Mas ou segue as regras ou nem desce pro play.

Receber um presente e fazer um post sem dizer que ele foi motivado pelo presente é trair o vínculo de confiança estabelecido com o leitor. Num blog meramente pessoal, ok. É seu “personal weblog”, você escreve o que quiser nele. Mas se ele passa a ter papel econômico (gera “receita”) e social (forma opinião), a coisa muda de figura.

Reforço aqui que não sou contra os mimos, especialmente quando ele é o produto em si, enviado para ser degustado/resenhado. Mas se você ganha um produto B de presente e fala bem do produto A sem dizer a motivação para o “elogio”, isso não é opinião. É permuta. Jabá. Mesmo dizer discretamente, como os “publieditoriais”, é meio estranho.

Notaram? Há uma diferença sutil entre enviar seu produto para formadores de opinião (dar um livro, um ingresso para uma pré-estréia, convite para uma apresentação, test-drive exclusivo etc) e dar algo de valor monetário que não é o produto em si.

Receber a bacaninha geladeira da Coca-Cola não é pecado nenhum. É sinal de que o papel social como formador de opinião está sendo bem cumprido. Fazer um post, sem problema. Elogiar o produto sem falar do presente? Estranho. É se arriscar a receber, sim, a alcunha de “blog de aluguel”. Ou de “varal de release”, como se diz na imprensa. O problema é quando se generaliza e rotula-se toda a blogosfera por alguns gatos pingados.

Mas isso só acontece porque estamos no meio de um processo, em um mercado imaturo ainda, que tem muito a crescer. As mídias geradas por usuários e as redes sociais são o fantástico e inevitável caminho da propaganda. Não fosse não teria eu mesmo migrado para uma empresa especializada nisso, e não distribuiria produtos a blogueiros (sim, eu faço isso) na esperança de que blogueiros gostem dos produtos que enviamos e resolvam falar bem deles. Ou que falem mal. Ou que não falem nada.

Como profissional de comunicação, faz sentido que eu queira mandar pro editor de um blog um produto bacana de um cliente meu que tenha tudo a ver com um blog de produtos bacanas. Faz sentido que eu imagine que o editor de um blog de coisas bacanas possa ter interesse em compartilhar essa coisa bacana com seu público. Se ele achar bacana. Se ele estiver a fim de postar.

Mas não deixa de assustar quando tentamos nos aproximar da área editorial de um blog e recebemos um mídia kit com o preço do post tabelado. Se esse é o futuro, é bom que isso seja combinado com todo mundo, até para que eu, como leitor, saiba quem é veículo de conteúdo e quem é “Páginas Amarelas”.

Pra terminar esse longo post, ressalto que blogueiro não tem que ter vergonha de ser formador de opinião e receber os louros e arpões inerentes a isso. Não temos que ver os blogs como terreno sagrado onde publicidade é pecado. Quero ganhar dinheiro pelo lado da agência e quero ver meus amigos blogueiros ricos. Mas todo poder traz sua devida dose de responsabilidade.

Está na hora de nos unirmos para fortalecer cada vez mais as redes sociais. Até porque, se a gente mata justamente aquilo que fez a blogosfera crescer (a ousadia, a personalidade, a identidade fragmentada em zilhões de blogs que se cruzam o tempo todo), ela morre. Estamos vendendo a raiz para pagar o adubo da planta!