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Perguntas sobre o futuro

Pessoalmente, prefiro as perguntas às respostas. Como essas, que vez em quando martelam a cabeça:

- Até que ponto abriremos mão de nossa privacidade?
Lutamos longamente contra regimes ditatoriais, contra o vigilantismo, legislações abusivas. Ao mesmo tempo, entregamos nossas vidas aos demais. O que pensamos, o que vemos, onde estamos, com quem. Abrimos cada vez mais nossa privacidade a outras pessoas e a sistemas – estes, sabem cada vez mais sobre nós. Um dia essa curva se inverterá. Um dia voltaremos a questionar, a clamar por um espaço nosso, que não esteja aberto ao escrutínio do planeta. Quando será? O que motivará? Fico imaginando a capa da Wired nesse dia.

- A eterna busca para longe de “todo mundo” nos leva à frente ou para os lados?
Os conectados, chamados early adopters, são nômades por natureza. Assim como os frequentadores de clubes, eles migram para outro espaço assim que a balada cai na boca do povo e o espaço lota de “populares”. Essa eterna busca para longe de “todo mundo” leva a uma evolução das ferramentas, das redes e do ambiente digital ou apenas viabiliza o surgimento de outras redes sociais, todas iguais?

- Quando todos forem jornalistas, quem serão os repórteres?
Nunca me posicionei sobre essa polêmica. Sou entusiasta da criação coletiva e tomei conhecimento de muitos fatos via Twitter. No alarme de tsunami no Havaí, chamou a atenção o fato de redes poderosas como ABC e CNN usarem imagens transmitidas via Justin.tv para noticiar o fato. Mas os congloremados de mídia têm razão em um ponto específico: se as notícias que eles produzirem continuarem circulando o mundo em ferramentas de busca, RSSs, mashups e afins, não haverá como eles cobrarem assinatura nem venderem publicidade. Ou seja, não sobreviverá seu modelo de negócios. Para muitos, o modelo dos jornais está morto, só falta enterrarem.

Acredito que todo cidadão tem plena capacidade de ser um bom captador e divulgador de acontecimentos, mas que fim terá a reportagem? Aquela investigação, que requer coragem e dinheiro, a longa e isenta apuração, que ouve todos os lados envolvidos, diversas fontes… quem pagará por ela?

- E quando a nuvem for para o espaço?
Agenda de compromissos? Na nuvem. Contatos? Na nuvem. Backup de documentos? Ela mesma. Fotos? Adivinha? A nuvem é a solução para todos os problemas e, de fato, os benefícios imediatos são fantásticos. A começar pela capacidade de se acessar todas as informações de qualquer local e dispositivo. A menor demanda por equipamentos poderosos, o impulso dado à indústria móvel, que aproveita a nuvem para empurrar cada vez mais smartphones, iPads, laptops e uma certa segurança.

É nesse ponto que a dúvida surge. Não estamos entregando nossas informações a entidades perenes, estáveis. Estamos as entregando a empresas privadas, sujeitas a toda sorte de impactos econômicos. Não quero ser profeta do apocalipse, mas é uma questão de lógica (lógica de Murphy, mas é uma lógica): um dia vai dar craca. E quando a nuvem for para o espaço? Voltaremos com uma nuvem mais forte e segura? Voltaremos para nossos HDs externos? E o que causará o apagão da nuvem?

Perguntas, perguntas, perguntas…

Faculdade: fazer ou não?

Assim que terminou a sessão de perguntas do 14º Encontro de Web Design (EWD), uma jovem estudante interpelou os palestrantes, que conversávamos num canto do auditório. Ela queria escolher uma faculdade de design e não sabia qual escolher.

Acho que as dicas que recebeu não eram exatamente as que procurava. Com estilos ou motivos diferentes, nós a fizemos pensar duas vezes antes de fazer uma faculdade apenas por fazer uma faculdade, como se sua carreira dependesse disso e só começasse pra valer daqui a quatro ou cinco anos.

Isso me fez voltar a pensar sobre aquela história de profissões e carreiras. Não consigo desprezar o curso universitário. Podem me chamar de antiquado, mas eu não abriria mão de minha graduação. Ela foi muito importante, mas não pelo conhecimento técnico que adquiri. Foi, sim, pelo processo de amadurecimento, pelo rito de passagem e pela cultura geral que fui forçado a absorver.

Hoje, não vejo muito sentido em graduações técnicas, como Jornalismo, Publicidade, Design ou Informática. Não tem nada ali – no que diz respeito aos lides, campanhas, serifas ou classes da vida – que não se aprenda quebrando a cabeça em casa ou em cursos menores, focados.

Acho que seríamos profissionais melhores se os publicitários fizessem cursos de técnica publicitária e se formassem em algo que os ajudasse a entender melhor as pessoas e suas necessidades, como Antropologia, Psicologia ou Sociologia. A mesma coisa para jornalistas, que poderiam estudar a fundo História, Ciências Sociais ou as mesmas graduações do publicitário e em seis meses (ou num bom estágio) pegar toda a técnica necessária.

E por aí vai. Se um designer vai ficar quatro anos estudando, é melhor que seja a História da Arte e do Design do que aprendendo técnicas ou ferramentas que estarão defasadas quando ele se formar.

Bom, respondendo à jovem do EWD: faça sim uma faculdade. Mas não aquela que te ensine a usar o martelo, mas sim a que te ensine porque martelar, quem já martelou antes e qual o papel do martelo no mundo.