Archive

Posts com a tag ‘memória’

Fantasmas na máquina

junho 1st, 2009

Eu me impressiono com algumas coisas. Filmes, acontecimentos. As imagens do tsunami demoraram a sair da minha cabeça. Quase virei terrorista depois de Clube da Luta e nem mesmo o Robin Williams, no papel de uma babá bicentenária interpretando um professor, conseguiu reduzir o efeito que Sociedade dos Poetas Mortos fez em meu espírito candidato a escritor.

E já escrevi aqui, na forma de poemas ou posts, sobre o pavor e fascínio que sinto pelo vazio, pelo desaparecimento. Seja o desaparecimento do que criamos – aprisionado em um suporte digital fadado ao apodrecimento – seja o desaparecimento de quem amamos, ou de nós mesmos.

Este ano já experimentei a perda de várias pessoas. De algumas muito próximas a desconhecidos que, pelas circunstâncias de suas partidas, nos fazem refletir sobre como aproveitamos nossa estada. Quando vejo gente sendo subitamente subtraída deste mundo físico, por acidentes ou fatalidades, não consigo não olhar com estranheza para os fantasmas na máquina que permanecem. Os registros inacabados nos perfis sociais que ficam perdidos, órfãos de nós mesmos, pela internet.

Um perfil é diferente de um texto, de uma foto. Se deixamos cartas, textos, posts, filmes… são coisas que criamos. E que ajudarão os outros a se lembrarem de nós quando partirmos. Mas os perfis, supostamente, não são coisas que criamos. Eles são nós mesmos. Os perfis, teoricamente, são uma representação digital do que somos. Do que pensamos, do que sentimos.

Os perfis pretendem ser a digitalização de nossa alma.

E se partimos sem chance de responder, pela última vez, “o que estou fazendo agora?”, “o que estou ouvindo?” e todas as perguntas que nos forçam a viver cada vez mais presos ao presente, sobrevivem nossos fantasmas digitais, como obras inacabadas.

Que fim eles deveriam levar? Devem ficar ali, congelados no tempo até que sucumbam ao fim inevitável das redes sociais (sim, porque não há empresa eterna, serviço eterno)? Deveriam continuar envelhecendo no Orkut, com sua idade atualizada e suas “fotos recentes”? Deveriam retirar-se de cena? Ou, no fundo, será que nada disso importa?

Tenho conhecidos e amigos que partiram e cujos perfis viveram ainda por muito tempo, recebendo mensagens e comentários, num ritual moderno de celebração aos que se foram. A cada tragédia de comoção nacional, os perfis das vítimas em redes sociais recebem dezenas, centenas de mensagens que nunca serão lidas, como flores deixadas num túmulo. É um gesto tão mórbido quanto singelo e comovente. Como se a pessoa virtual sobrevivesse à sua metade real.

Parece que o cenário de ficção científica onde transferiríamos nossa consciência para a máquina, a fim de nos livrarmos de nossos corpos físicos, não é assim tão absurdo. Quando eu me for, continuarei vivo digitalmente naquilo que crio na Rede. Virtualmente vivo até que se apague meu último eu virtual. Um Gato de Schrödinger contemporâneo, onde não se saberá ao certo se eu de fato ainda respiro ou não. Existe vida após o shut down?

  • Compartilhe e salve!

Filosofia, cotidiano , , ,

E se um dia deletarem nossas almas?

fevereiro 1st, 2009

Recentemente perdi minha avó, pessoa a quem muito amei e que muito me amou. Alguém que viu o Zeppelin sobrevoando o Rio de Janeiro, que cantou em rádio e ganhou os grandes prêmios da época (jogos de panelas e óleo de soja), que empreendeu de todas as formas que soube, enfim, que viveu intensamente.

No triste trabalho de desmontar sua antiga casa, cercado por objetos pessoais, pela máquina de costura onde eu me escondia e fingia estar pilotando alguma coisa (ônibus, submarino, caminhão), me deparei com pequenos tesouros.

Fotos, muitas fotos. Algumas amareladas, outras em preto-e-branco. Pelas bordas, pelo tipo de impressão, pela data que algumas trazem gravadas, por diversos elementos além da foto em si, revive-se muito destes momentos. Situações que jamais vivi. Histórias em que não era nem nascido.

E, mais que as fotos, agendas que durante algumas décadas se transformaram em diários. Eram o MS Office da minha avó. Traziam a contabilidade do mês, os sonhos, as pequenas alegrias e muitas receitas culinárias. Na caligrafia inconfundível, traziam a alma de minha avó. Nas agendas, ela permanece. Sua força permanece.

Percorri minha vida inteira lendo as páginas daquelas agendas e não pude deixar de fazer o paralelo comigo mesmo. Quando eu bater as botas, o que as pessoas vão encontrar em meu apartamento? HDs? DVDs? Será que terão tempo, interesse ou equipamentos para ler o que está armazenado ali?

Que vestígio de mim encontrarão? Que seja autêntico? Nenhuma foto, nenhuma carta, nenhum diário à mão. Um ou outro cartão de datas festivas, uma ou outra anotação furtiva. Nada mais.

Já escrevi sobre isso antes. Mas o contexto e a falta de qualquer solução desde então me habilita a retomar o tema. Estamos vivendo uma geração que deixará poucos vestígios. É bem possível que, no futuro, quando vierem escavar nossas ruínas, descubram que nosso povo era meio estranho e tinha como objetos de adoração maior sacos plásticos de supermercado, garrafas PET e CDs da America Online.

  • Compartilhe e salve!

Filosofia , , , , ,