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Arquivo de fevereiro/ 2005 Perder
o planeta é o fim do mundo? Outra madrugada e estou eu aqui pensando no que escrever. Essa coisa de blog é realmente um tamagotshi. Eu poderia estar dormindo, ou fazendo coisa muito mais interessante. Mas não. Cá estou eu tentando arrumar algo para entreter meu próprio e inflado ego e meus improváveis leitores. A saga dos “Bastidores do Passado da Internet Brasileira” continua. Mas não hoje. (abre parênteses: já saiu o trailer de Guia do Mochileiro das Galáxias. Tem cara de Disney, estilo fiel ao livro e uma frase impagável: “Descubra que perder seu planeta não é o fim do mundo”. Fecha parênteses.) Tirei a plaquinha de “Otário” que trazia pendurada ao pescoço e voltei ao posto de vistoria do Detran. Ali me senti um alienígena com dedo piscante dizendo “telefone... casa”. Já conhecedor da agilidade típica dos funcionários do Detran, especialmente governados pelos Meninhos-cor-de-rosa, levei a última edição da Wired para ler. A revista - ou melhor A REVISTA, com todas as letras maiúsculas e piscando em neon - tem destacado o Brasil como uma potencia mundial, especialmente por nosso apreço ao software livre. Isso feito, o resto foi rápido. Em pouco mais de uma hora e meia as criaturas invisíveis da cabine do posto de vistoria receberam o laudo, digitaram os dígitos de meu Renavam num computador e imprimiram o novo documento. Isso dá cerca de meia hora para cada atividade: transmitir o laudo pelos dois metros que separavam o inspetor da cabine, digitar os cerca de 20 caracteres que me identificariam no sistema e imprimir aquele documento verde numa impressora Elgin matricial. Um portento! O Detran, cuja imagem por algum motivo me parece imensamente associada a nosso governo campista-populista, é o exemplo do fracasso da espécie humana em resistir a alguns de seus instintos mais básicos, a saber: a mamata, a burocracia e a prepotência. Mas não serei injusto. A demora se explica, em parte, porque duas das meninas da cabine tiveram que interromper seu dedicado trabalho por alguns minutos para decidir se iriam ou não à praia com um colega de Detran que encostou seu monza velho-mas-bem-cuidado, com pneus tão carecas que não passariam na vistoria nem se minha avó (sem óculos) fosse a fiscal. Estava sol e era sábado, não se esqueçam. E o monza é de um funcionário da casa. Vistoria pra quê? Foi difícil voltar a ler sobre nanotecnologia e o futuro do turismo espacial depois de retornar ao carro com meu novo e suado documento. Afinal, em que planeta eu vivo? Qual é o mais improvável? Qual é o planeta Brasil do futuro? O da Wired ou o do Detran? O pessoal da Disney tem razão. Às vezes, perder o planeta não é o fim do mundo... Roberto Cassano 10 anos do JB Online: uma história de sangue, suor e café Nos meus primeiros meses no JB Online, em 1996, trabalhei de graça. Ainda estava na faculdade e fui apelidado, pelo Daniel Deivisson e pelo Roberto Ferreira, então redator e subeditor do primeiro jornal brasileiro na internet, de “estagiário informal”. Eu achava aquilo ótimo. Só estar dentro do fantástico e mítico prédio da Avenida Brasil, 500 (hoje abandonado e depredado), caminhar por entre aquelas baias cheirando a mofo, furos de reportagem e neurônios brilhantes fritos por quase 300 pessoas em noites de fechamento e pescoção; só fazer parte do pioneiro jornal em um momento em que ele não era mais do que uma mambembe boa intenção; fazer parte daquilo que eu rapidamente descobri que seria o futuro, ao menos o meu. Só (tudo) isso já fazia valer a pena os perrengues por que passei. E o amor que aprendi a ter pelo Jornal do Brasil. Naquela época, a infra-estrutura do JB Online se limitava a um surrado PC 386 (muitos de vocês nem eram nascidos quando 286s, 386s e poderosos 486 DX-2 66 dominavam o mercado). O site era cuidado por seu irrequieto criador, Sérgio Charlab, com quem tive pouquíssimo contato. Duvido que ele se lembre daquele estagiário informal cabeludo e cheio de brilho nos olhos. O computador ficava no corredor. Isso mesmo. Nem sala o Online tinha. Sua atualização se dividia entre o turno noturno, que colocava o jornal propriamente dito no ar, e o incrível Extra!, que depois rebatizamos como “Tempo Real”. A importância do café para a internet brasileira Foi então que descobri a grande importância da indústria cafeeira para o desenvolvimento da internet brasileira. O velho 386 onde montávamos o JB Online no bloco de notas do Windows ou num editor de HTML furreca chamado HTMLWriter não tinha acesso ao sistema editorial da redação, que é de onde puxávamos as notícias obtidas por escuta, vindas de agências internacionais ou produzidas por nossos colegas de Agência JB. É aí que entra o café. Como estagiário informal, uma de minhas atribuições era esperar algum jornalista se levantar para o inevitável cafezinho, correr, sentar em seu terminal de fósforo verde e jogar o maior número possível de notícias para um ambiente ao qual o bravo 386 tivesse acesso. Tudo isso antes do café do cara acabar. Uma gincana. Entre um café e outro atualizávamos essa cobertura, nos primeiros dias do JB Online. Depois as coisas foram melhorando, fui contratado, e os problemas ficaram ainda mais divertidos. Fizemos um concurso entre designers para reformular o site todo. O vencedor foi Carlos Benigno, profissional que acabou nos acompanhando por longos anos, dentro e fora do JB. Muito do que nós criamos entre 1996 e 1997 ainda está no ar. De resquícios da arquitetura de informação, a seções e alguns lay-outs. A guerra do tempo real Quando surgiu o Globo On, a grande diversão era descobrir quem colocava mais rápido as notícias no ar. E a briga era tão feia que tínhamos quase certeza que nossos “concorrentes” roubavam no horário. Isto é, publicavam às 17h uma notícia com hora de 16h30, e por aí vai. A briga não tinha limite, e nos levou a publicar notícias esdrúxulas como: “Caixão com Lady Di acaba de entrar na sepultura” ou “Fiéis choram no cortejo de Madre Teresa de Calcutá”. O Globo ainda dava uns informes de clima do tipo: “Tempo no Rio continua bom”. Muito divertido. Outra loucura: na virada de 96 para 97 decidimos que era hora de mostrar a todo mundo que a internet não era habitada por seres verdes, feios e com longas antenas. Ora, nós não tínhamos antenas! Montamos então uma operação de guerra chamada “Caia na Rede neste verão”. Esses homens fantásticos e suas webcams voadoras A IBM cedeu alguns computadores e a Brasoft mandou uns jogos que, mesmo pra época, eram bem ruins. Mas era o que se tinha. Montamos então um cibercafé itinerante, que apresentou a internet e o JB Online para veranistas em diversos pontos do estado do Rio. Armamos o circo no hotel Marina Palace, no Leblon, em Búzios, em Angra dos Reis e em outros pontos do litoral. Em todos eles, outro bravo pioneiro, Marcelo Botelho, do Live in Rio, transmitia a 9.600 bps com seu celular analógico fotos tiradas com uma webcam. Lembre-se que celulares, mesmo analógicos, eram raríssimos. Coisa fina. E foram as primeiras transmissões ao vivo via internet, que incluíram um pulo de bungee jump e culminaram com uma cobertura em tempo real do reveillon de Copacabana, do alto de uma cobertura e com o notebook protegido da chuva por uns quatro guarda-chuvas amarrados uns aos outros. Era uma internet bem diferente da que temos hoje. Mambembe, artesanal. Tão cheia de sangue, suor e neurônios como as baias desgastadas da Redação da Avenida Brasil 500. Uma prova de que, mesmo que o jornal (como um todo) afunde sob a incompetência de administradores, há um brilho e uma contribuição que o tempo jamais apagará. Enquanto estive no jornal, fui jornalista, editor, colunista, webdesigner, programador, webmaster e até comercial. Chegamos ao ponto de irmos a um cliente, vendermos o banner, criarmos a peça e aferirmos os resultados. Nestas horas, era comum o cliente dizer: “Adorei o banner. Mas será que posso fazer a pessoa clicar nele e ir pro meu site?” Tudo estava apenas começando. Se pensarmos bem, ainda está. Feliz 10 anos, JB Online! Roberto Cassano Histórias da internet brasileira
Uma coisa que eu acho bastante peculiar nos blogs é que, em geral, eles não falam sobre p* nenhuma. Por peculiar entendam que, na verdade, não sei se acho isso o máximo ou uma inutilidade. Assim sendo, resolvi tentar falar, além de coisas fúteis como minha inexplicável afinidade por ervilhas em lata, de minhas lembranças dos anos de ouro da internet brasileira. Pois bem. Tudo começou a ficar bem estranho no final de 1999. O mercado de internet ainda era dominado por pequenos e intrépidos provedores de acesso. Éramos apenas 3,3 milhões de internautas, número que havia ficado estável de junho do mesmo ano. Havia o odiado gigante UOL. E um simpático e independente Zaz (que depois virou Terra).
Enquanto isso, nós da imprensa, arautos da liberdade e do almoço grátis, olhávamos para os Estados Unidos e para a Europa e percebíamos outra janelinha sorrindo para nós. Alguns novos provedores, dos quais só me lembro do NetZero, ofereciam acesso gratuito à rede. Isso mesmo, de graça! Só se pagava a ligação telefônica. Para nós, que pagávamos R$ 35,00 por 10, 20 horas de acesso mensal, aquilo era o paraíso. Surgiram, então, rumores de que alguns grupos estavam pensando em oferecer, em meados de 2000, o tal acesso gratuito. E realmente havia gente trabalhando sério nisso, como logo iríamos descobrir.
Eram tempos mambembes, fantásticos e divertidos. No fim, sofreram os pequenos provedores. E precipitou-se a expansão da banda larga (paga), em contraposição à linha discada gratuita. Mas ainda tem gente cobrando por acesso, e provedores gratuitos hoje cobram por uma “aceleração” do acesso grátis. Estranho.
Fruto de outra conseqüência bizarra e fatal desses tempos: o conceito de que “tudo na internet é gratuito”. E a América Online? Logo de cara, reduziu de R$ 35 reais para R$ 24 pelo acesso ilimitado. E distribuiu milhares de CDs de instalação que ferraram os computadores de meio mundo. Mas essas são histórias pra outros posts...
Roberto Cassano Recesso astronômico Estou há pouco mais de um ano num apartamento sem varandas. Além de não termos onde colocar samambaias choronas, fiquei sem meu posto de observação estelar. Assim, minha incipiente carreira na astronomia amadora foi interrompida, e meu bravo telescópio Optovac newtoniano 90 mm virou um bizarro adorno no meio da sala.
Até agora meu casamento tem resistido a esse trambolho, devidamente protegido da poeira por uma tampa de lata de Nescau que se encaixa perfeitamente na boca do telescópio. Seriam os caras da Nestlé astronautas? Roberto Cassano Blogueiros são tamagochzeiros enrustidos Hoje descobri porque ainda não tinha criado um blog pra chamar de meu. Estou eu numa noite de domingo, cansado e mesmo assim com um monte de coisa pra fazer e penso: "Preciso atualizar o blog! Se não, o que vão falar de mim? ´Ih, o blog dele é caidaço...´". Isso não! O problema dos blogs (ou um deles) é essa carência, essa necessidade de atualização, essa neura de tamagochi. Isso mesmo. Convenço-me que blogueiros (ou fotologueiros, orkuteiros ou qualquer uma dessas ferramentas à manivela, que dependem que demos corda a elas de tempos em tempos) são todos uns tamagochzeiros enrustidos. Como eu caí no conto do blogueiro, lá vou eu dar carinho e comida a meu chaveiro japonês, falando de um assunto de meu inteiro interesse e sem qualquer preocupação com o interesse do leitor (isso é um blog, não é?)
Ah, o Guia está virando filme pelas mãos da Disney. Mas calma. Afinal, NÃO ENTRE EM PÂNICO! Roberto Cassano Palavras ao vento É a Tijuca, vice-campeã do Carnaval! Foi por apenas um décimo! Coisas do carnaval. Feliz com o bi-vice-campeonato, a Unidos da Tijuca tem mais um feito para comemorar. Me fez gostar de carnaval! O motivo para este súbito encantamento momesco é simples. A Tijuca faz um carnaval para nerds! Vejam só. Ano passado qual foi o sucesso? Um carro sobre DNA num enredo sobre ciência, com apoio do CNPq e tudo. Nerdíssimo. Carnaval que virou nota até na NewScientist. Coisa de louco. Este ano o que temos? Um desfile com Planeta dos Macacos e... pasmem!... Matrix!!! Esse Paulo Barros é bom! Seguindo esse rumo, o enredo do ano que vem só pode ser a Terra Média (vou sair de Aragorn ou na ala dos Orcs) ou "Computadores duo-processados na terra do overclock retumbante: a alegria da Intel na Terra de Momo". Parabéns Tijuca! Roberto Cassano Terra, Via Láctea - Thursday, February 10, 2005 at 09:47:56 (BRDT) O primeiro post a gente nunca esquece Finalmente resolvi aderir aos blogs, com este brogue aqui, tosco e feito à mão. Aos poucos vou dando mais cara de blog pra essa página criada, na verdade, sobre o chassi de uma velha ferramenta de livro de visitas (guestbook). E somente uns dois anos depois de a febre dos blogs começar a esfriar. E com um blog feito à mão. Prefiro sofrer a dizer que estou seguindo modas e tendências. Não tenho e nunca terei um Orkut. Nunca achei bacana essa idéia de querer ter todos os seus amigos dentro de seu Orkut. Podem me chamar de antiquado, mas sou de um tempo em que os amigos podiam (eu disse Podiam, com pê) muita coisa, mas nunca entrar em seu Orkut. Sigo corajoso e feliz. Quem tem Orkut tem medo. Roberto Cassano Rio de Janeiro, RJ Brasil, Planeta Terra - Wednesday, February 09, 2005 at 21:55:15 (BRDT) |
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