Brogue do Cassano
 

Gosto de dias de chuva forte

Roberto Cassano (2004)

Gosto quando a chuva cai
Com pouco aviso e sem clemência
Forte, sólida, com vento e rugir de árvores

Quando milhões e milhões de gotas
Que há pouco eram nuvem
Que há pouco eram nada
Se tornam quase que por mágica
Uma parede sólida,
A se perder de vista. Instransponível, imperiosa
De se dizer, "correr pra quê?"

Gosto quando a chuva cai
E arrasta ladeira abaixo
Os barracos de nossa imensa ignorância
E nos pega de surpresa em nossas
Vestes brancas burguesas, nobres,
Sacerdotais, sexuais, profissionais
Vestes brancas bordadas, sensacionais
Brancas

E a chuva molha, e atravessa nossas almas
A transparece nossas roupas
E deixa à mostra, ladeira abaixo, nossas vergonhas
Nossas vergonhosas verdades expostas
E não adianta correr
Não há abrigo que proteja
Da chuva que cai forte, parede pura
E nos purifica e lava a alma
E transborda nossos imundos bueiros
Para onde varremos as sujeiras de baixo
Do tapete que apresentamos impecável
Às visitas que elogiam nossas casas e
Comparam fotos de viagem e receitas
De bolinho de chuva

Gosto quando a chuva cai
E transforma dia em noite
Luxo em poça
Moça em lama
Terra em mar

Coisa que o homem,
Do alto de sua arrogante ignorância
Jamais pode
Jamais pôde
Jamais poderá
O homem nunca será uma tarde de chuva forte

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