Brogue do Cassano
 

Problema de Ego

Roberto Cassano (2005)

Eu sabia que isso ia acontecer. Confesso que resisti muito até comprar meu próprio Ego. Mas todos os amigos já tinham, e mostravam aquelas fotos maravilhosas de viagem ou narravam como escaparam do seqüestro relâmpago. Então eu meio que ficava com complexo de inferioridade por não ter um Ego próprio. Até que comprei o meu. Era uma caixa enorme, que veio depois que fiz o pedido pela Googlezon. "Extensão Global de Objeto - Ego". Num quadrinho mais embaixo, uns tiques à caneta confirmavam que, finalmente, entregaram um produto correto na minha casa. "Modelo: Humano, homem, adulto". De brinde, ganhei um upgrade para a versão 2.01, um boné e um adesivo ridículo "I coração meu Ego". Meio egocêntrico, achei.

As primeiras experiências foram divertidas. Parecia que a geringonça funcionaria bem para sempre. Ledo engano. No início, o capacete neural espetava um pouco, mas logo pude esquecer que eu estava no quarto e passei a estar dentro do humanóide de andar desengonçado. Fui à padaria, ajudei uma velhinha de uns 140 anos a atravessar a rua e dei uma banda no vizinho do 3145. Saí correndo antes que ele anotasse o número da placa do meu Ego.

Legal. Nunca tinha usado um Ego antes, mas todos os meus amigos estavam felizes com os seus. E também com os alugados. Quem não gostava muito era o Carlos, velho amigo e ex-comissário de bordo, que sempre repetia a velha história de como metade das companhias aéreas do mundo foram à falência, e tivemos a grande onda de fusões (de novo) no setor aéreo. Ele só via problemas nos Ego. Falava dos Ego-bomba e da crise nos cafés de Paris. Eu achava tudo meio exagerado.

Aí um dia resolvi consultar minha pocket-wikipedia e realmente estava lá. Todo mundo sabia que uma das principais razões para o sucesso dos Egos era em sua aplicação turística. Para quê pegar um avião e perder horas cruzando o Atlântico se você pode alugar um Ego pela Googlezon em qualquer parte do mundo? E voilá! Você está em Paris em cinco segundos. Só o tempo de seu cérebro achar que está dentro do Ego, e não dentro de você.

Daí é passear, tirar fotos, visitar o Louvre, ver o que sobrou da Santa Ceia original e... passar direto pelos cafés. Os Egos não bebiam café! Nem champanhe! Eles não bebem nada, é claro. E isso causou uma enorme onda de desemprego e de protestos sindicais em Paris, a cidade com mais Egos do mundo.

O Rio tem poucos Egos, por enquanto. Muitas operadoras de turismo-domiciliar se recusam a alugar Egos por dois motivos: um porque as pessoas insistem em mergulhar com eles no mar, causando um irreparável curto-circuito. Outro problema é o roubo de Egos. Eles são desmontados e transformados em ultraleves robóticos. Uma vergonha. Mas antes meus problemas com o Ego se resumissem a roubo ou furto...

Quando os problemas começaram, meu casamento com a Marisa não andava bem. Ela ganhava bem mais que eu. Afinal, ela era designer de alimentos, e tinha criado umas cenouras disputadas pelos melhores chefs de cozinha da cidade-estado da Guanabara. Eu era apenas um servidor público, que passava o dia autenticando biometricamente protocolos e petições que chegavam à repartição. Ela tinha uma vida emocionante entre vegetais e eu vegetava entre burocratas.

Não havia ego que resistisse. Então começamos a brigar. Eu comecei a ver futebol e a beber cerveja com álcool, que comprava de um muambeiro que tinha aparecido na minha comunidade no Yahkut!.
E ela começou a sair demais. Primeiro eram horas nos salões de genética estética, de onde Marisa voltava sempre com cabelos naturais das mais diversas cores e tamanhos. Depois vieram as misteriosas tardes perdidas em cidades-shoppings sem que Marisa retornasse com uma sacola sequer. Enquanto isso, eu me recolhia mais e mais à minha existência vegetativa. Eu sabia que havia algo errado. Tinha algo brotando em minha cabeça, e não era um implante Google.

Então veio a péssima idéia de usar meu Ego para descobrir se eu estava sendo traído. Levei o capacete neural para a repartição, onde tinha tempo livre o suficiente para investigar os passos de minha mulher.

Posicionei meu Ego do outro lado de minha rua, como se ele estivesse recarregando ao sol. Coloquei nele uma capa de chuva estilo Blade Runner para que Marisa não o reconhecesse.
Às duas da tarde ela saiu, toda arrumada, num vestido vermelho. A segui de longe, às vezes me atrapalhando com os controle e chutando a mesa do escritório ao invés de dar um passo mais largo na rua. Ela pegou o VLT sentido Barra da Tijuca. O escritório dela ficava do outro lado da cidade-estado. Entrei no vagão de trás para não despertar suspeitas.

Ao descer do VLT não a encontrei de primeira. Modulei então a visão do Ego para filtrar todas as pessoas que não estavam de vermelho e comecei a perambular pela orla. Então ela apareceu, tomando café sozinha num restaurante à beira mar, sua mão erguida no ar. Respirei aliviado, mas aí me lembrei de como eu era idiota, e de que eu tinha ativado o filtro visual do Ego. Ao desativá-lo, veio o grande choque. Surgiu uma pessoa sentada à mesa com ela, que segurava sua mão. Era o Carlos. Como a Marisa poderia me trair com o Carlos, um desempregado?

Só poderia ser falha minha. Eu tinha errado em alguma coisa. Falhei como homem. Acompanhei à distância a conversa entre os dois, rangendo os dentes de raiva. Uma meia hora depois eles se despediram sem beijos. Em público, também, seria descaramento demais.

Segui Marisa na volta para casa. Enquanto ela checava a cápsula digital de correspondências, entrei pelo elevador de serviço e fui até nosso apartamento. Entrei pela porta dos fundos e consegui chegar a nosso quarto antes dela.

Apaguei todas as luzes e deitei na cama. Não tardou muito para que ela entrasse no quarto. "Deite-se", disse antes que ela pudesse esboçar qualquer reação ao me ver ali tão cedo, testemunha de seu adultério. "Mas quem...", ela começou a dizer, quando a mandei calar. Trêmula, ela se deitou. Estava muito, muito tensa. Eu precisava retomar meu posto, mostrar como era homem. Depois acabaria com o Carlos, mas era preciso primeiro resgatar minha honra.

A despi e a possui com volúpia. No início ela resistiu bastante, como se eu fosse um estranho, mas depois se entregou àquela que foi a melhor relação sexual de nossas vidas. Terminado o amor, ela suspirava, me acaricia e olhava para mim como se eu fosse de outro planeta. Então perguntei a ela: "E o Carlos?", ela respondeu, como se fosse estranho eu conhecer o Carlos. Ora, antes de tudo o canalha era meu amigo! "Sim, o Carlos. Por que você está transando com ele?", insisti.

Ela se sentou. "Transando? Não. Ele é um bom amigo. Não sei porque deveria falar dessas coisas com você, mas certamente devo algo a você depois do que fizemos. Você quer ouvir essa história?"
Eu disse que sim, e comecei a ficar confuso. Marisa estava diferente. Seus olhos brilhavam, mas ela parecia falar com um estranho. "Eu sou casada. Mas acho que meu marido não me ama mais. Tento me produzir, me enfeitar para ele, mas nada adianta. Acho que ele se sente diminuído porque sou mais bem sucedida do que ele".

Minha cabeça girava. E pesava, e espetava. Parecia que tudo era um sonho. Mas Marisa prosseguiu. "Então o Carlos, que é um amigo dele, começou a me ajudar a reconquistá-lo, dando idéias. Tentava descobrir como agradá-lo. Mas tudo isso é passado. Hoje, com você, seja lá quem você for, descobri o que é o amor. Pra mim, chega do idiota do meu marido."

Ao falar isso, ela se levantou e caminhou até o espelho de parede sobre a cômoda. Ao segui-la com o olhar levei um dos maiores sustos de minha vida. Ao me ver refletido no espelho, não vi minha face, mas o aço escovado, as luzes e fios de meu Ego! Estava tão possuído pela raiva que me esqueci que, na verdade, eu estava até aquele momento dentro da repartição pública, e que foi com um robô que minha mulher fez amor. Minha mulher tinha acabado de me trair comigo mesmo.

Pulei da cama e corri para a porta. Naquele instante, minha consciência já começava a voltar para a sala escura da repartição. Perdi o equilíbrio e dei uma tomada na porta que fez alguns parafusos do pé do Ego se soltarem. Consegui ganhar as ruas e correr sem rumo. Naquele dia mesmo, cheio de dor de cabeça, passei em um bairro do subúrbio e vendi meu Ego para uns caras que fabricavam ultraleves robóticos.

Ainda fiquei em casa mais alguns dias, antes de partir sem deixar nem bilhete nem saudade. Nunca disse à Marisa que o robô era eu. E mesmo tendo descoberto que ela nunca havia me traído, passei a me ver obrigado a vê-la fúnebre pelos cantos, admirando um pequeno pedaço de parafuso, suspirando, os olhos rasos d'água. Carlos tinha razão quanto aos Egos. Nunca mais voltei a ter um.

* * *

<< Página principal do Brogue
Web Este site

  Vídeos experimentais feitos por nós.

 
  Quando as letras de juntam, dá nisso.

 
  Tock´s do Ock-Tock | Boing Boing | Web Insider | Malvados | FutureLab | Bruno Parodi | Selulloid AG | Creative Commons
 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

(c) 1998,2006 Roberto Cassano. Nem todos os direitos reservados.