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Preparando-se para a convergência O que falta para a integração final de TV, Internet e Telecomunicações, e como produzir conteúdo para esta nova mídia? - 04/2001 Por Roberto Cassano (r@cassano.com.br) Três grandes passos Estamos caminhando para darmos três grandes passos até que a mídia que conhecemos hoje como Internet "desapareça". O primeiro é a verdadeira difusão sem fio de conteúdo, que será finalmente viabilizada com a Terceira Geração da telefonia celular, a 3G, palmtops mais avançados com recursos de acesso wireless à Internet, dispositivos de acesso para automóveis e dispositivos de acesso doméstico sem fio, como tablets. O segundo passo é a popularização do acesso à Internet em banda larga, ou seja, em alta velocidade, e a inclusão de serviços interativos em sistemas de TV por assinatura a cabo ou satélite. Por fim, teremos as condições técnicas para vivenciar o amadurecimento da chamada mídia interativa com a difusão da TV Digital, conhecida também como HDTV ou TV de Alta Definição. Com ela, e uma pitada de tecnologias de banda larga, veremos a distância entre o que hoje conhecemos como TV e nossa Internet diminuir até elas realizarem sua fusão definitiva. Primeiros Obstáculos Enfatizo as "condições técnicas" quando me refiro ao terceiro passo da convergência de mídias, por que estar tecnicamente apto não significa estar mercadologicamente pronto. Seria leviano tecer profecias sobre o futuro da mídia se, agora, não há consenso sobre que formato será o mais interessante, para o público, para o mercado publicitário e para os provedores de conteúdo. Especialmente na aproximação, aparentemente inevitável, da Internet com a TV, há um grave entrave cultural que precisa ser bem trabalhado: até hoje a Internet é terreno de profissionais e empresas do "mundo das letras". Foram os jornais os primeiros a utilizar a Internet para difundir seu conteúdo em larga escala, e foram eles que criaram o modelo vigente de jornalismo em tempo real. No e-commerce, o papel do vendedor foi substituído por especificações, definições e argumentos textuais para a venda dos produtos e serviços. A Internet é feita de letras, enquanto a TV é feita de imagens. Para que a convergência entre TV e Internet se dê a cabo, é condição imprescindível que as letras cedam espaço a imagens, que ambas coabitem. Não haverá uma convergência de fato se não houver equilíbrio entre todos os elementos informacionais desta nova mídia: texto, imagem, som, interatividade, animação, ilustração, fotos e imersão. Também os dois primeiros passos dependem do sucesso mercadológico das tecnologias que os suportam. Pesquisa da consultoria de gestão americana Value Partners aposta que 50% dos acessos à Internet em 2003 serão realizados por telefones celulares ou palmtops, contra 9% de hoje. Segundo o estudo, o acesso wireless terá um crescimento de 82% nos próximos quatro anos, contra 21% do crescimento do acesso via telefonia fixa (computadores). Num país como o Brasil, onde apenas 5% dos habitantes possuem computadores (dados de 2000), tais perspectivas parecem animadoras. Por outro lado, é inegável o fracasso comercial da tecnologia Wap, que prometia levar a Internet para a palma de nossas mãos, mesma promessa que depositamos hoje na 3G. O Wap é lento, é feio, pouco atraente e de aplicações comerciais reduzidas a médio prazo. A convergência intermediária do segundo passo, com a inclusão de características de TV na Internet (via computadores) e de Internet na TV (via televisores), também depende da difusão do acesso em banda larga. Muitos especialistas temem que os ainda elevados custos de conexão em alta velocidade e a falta de incentivo para a contratação de um acesso veloz à Rede impeçam sua popularização. Um relatório da Jupiter MediaMetrix divulgado em abril de 2001 prevê que a Europa terá 10 milhões de usuários de banda larga em 2005. Em países extremamente conectados como a Noruega, Suíça e Finlândia, a penetração do broadband chegará a 30% das residências com acesso à Internet, um número muito baixo. Nos EUA existem, hoje, 7,8 milhões de lares com conexões via cabo ou xDSL, segundo a Kinetic Strategies. Estima-se que, em 2005, o Brasil tenha 23,8 milhões de assinantes de TV por assinatura (cabo e MMDS) e 4,3 milhões de usuários de Internet em banda larga (cabo e xDSL), de um total de 52 milhões de internautas, o que nos deixa com menos de 8% de acessos em alta velocidade. Sem a difusão deste acesso veloz, será impossível dizer adeus ao domínio das letras no mundo da Internet, e a migração para a "convergência final" será ainda mais traumática. Democratização e diferenças culturais Para o Brasil é importante aproximar a Internet dos televisores. A Europa e o Japão são exemplos de locais onde a grande difusão da Internet (como meio, não mídia) se dará por dispositivos sem fio. Há uma predisposição da população em buscar informações via linha telefônica (como o Minitel francês) ou por telefones celulares, como na exuberância wireless dos países nórdicos. Nos EUA, por outro lado, o sonho de Bill Gates de se ter um computador em cada mesa não está longe de se concretizar, mesmo com a contínua queda no volume de equipamentos vendidos. Em nosso País, nem os computadores nem os celulares fazem parte de nosso cotidiano. Se os segundos são mais populares, isto se deve mais à ineficiência das operadoras de telefonia fixa do que a uma necessidade de comunicação móvel. Por aqui, o dispositivo de longe mais popular é a televisão, com taxa de penetração superior a 95% em algumas regiões urbanas, e presença indispensável em praticamente todas as comunidades do País, mesmo as mais carentes, nas casas, ou no meio da praça. Se há um interesse em se democratizar o acesso à Internet no país, este processo precisa passar pela televisão, visto que a iniciativa governamental de se criar computadores mais baratos não será capaz de desenvolver equipamentos necessários a tirar todos os proveitos desta mídia que cada vez exige mais dos computadores. E que cada vez se afasta mais deles. Regras para o conteúdo convergente Se conseguirmos driblar estas incertezas e atravessarmos estes três passos, devemos tirar proveito deles para que a linguagem evolua junto com a tecnologia, o que não tem acontecido. Temos vivido um eterno atropelar das linguagens por novas soluções. Temos constantemente utilizado a TV para filmar o estúdio de rádio. Exemplos da má utilização da Internet como mídia existem aos montes, e é fácil chegar a eles. Muitos se devem ao medo de inovar, de experimentar, outros aos limites tecnológicos e outros ainda ao uso indisciplinado de recursos. Na verdade, não existe uma linguagem definida para a Internet. Nem para a atual, e muito menos para a do futuro. Se quisermos tirar o máximo proveito da Rede e maximizar sua capacidade de passar informações, há alguns pontos que devem nortear nossos trabalhos de desenvolvimento e gerenciamento de conteúdo:
Como vimos, a Internet será acessada por diversos dispositivos, como TVs, rádios, computadores, celulares, PDAs e telefones. A forma e o conteúdo não podem ser os mesmos em diferentes clientes. Exemplos: Em computadores, textos podem ser mais longos, e o raciocínio de navegação pode seguir o Modelo Único ou interfaces familiares para o usuário. Em TVs, o raciocínio precisa ser outro, por diversos motivos. Ninguém dá "scroll" em programa de TV, nem fica tão próximo da tela como ficamos de nossos computadores. Textos devem ser menores e as fontes, maiores. A preocupação com a legibilidade deve ser maior, assim como com a escolha de cores e a valorização dos elementos dinâmicos, como vídeos e animações. Já em rádios ou telefones, tudo o que temos para utilizar são a voz e efeitos sonoros, e em PDAs/celulares precisamos ir direto ao ponto para melhor utilizar a pequena tela que teremos à nossa disposição.
Há muito mais usuários fora da Internet do que nela. Por isso, devemos evitar a "Síndrome de DOS" e não limitar a escolha de estruturas ao que imaginamos que estes usuários atuais carregam como preconceitos. Há várias escolas de design e navegabilidade que defendem uma simplicidade extremista. Creio que toda interface deve ser, igualmente, atraente e funcional. Temos muito o que aprender com as interfaces de CD-ROM, DVDs e videogames.
Este item é, na verdade, uma leitura diferente do primeiro paradigma. Muitas vezes já me vi querendo ouvir um capítulo de novela ou notícias de algum site pelo rádio do meu carro, enquanto dirigia. Se teremos, com a convergência, uma imensa massa de conteúdo transitando sobre a Internet, por que não permitir sua entrega por qualquer meio? O que é preciso fazer é se armazenar conteúdo de forma realmente multimídia e deixar que os dispositivos filtrem as informações de acordo com suas limitações. Assim, o rádio do carro, através de uma conexão sem fio, poderá solicitar apenas o áudio da novela, ou ler através de um sintetizador o texto do site. Melhor, se este site possuir a mesma informação arquivada em forma de áudio, com uma redação adaptada para este meio, é esta que será descarregada pelos alto-falantes. E isso não é apenas uma aposta para o futuro. É um processo a ser iniciado agora pois, em geral, as tecnologias necessárias já existem. Falta só colocá-las para trabalhar de forma integrada e começar a responder a algumas simples perguntas: - Em que meio esta informação estaria mais completa, ou eficiente? - Tenho condições de torná-la disponível nestas diferentes formas? - Faz sentido para meu leitor/ouvinte/usuário receber esta informação em várias mídias? Exemplos práticos não faltam. Faz sentido ler a transcrição da narração em rádio de um jogo de futebol? Ou ouvir o texto de um decreto no rádio? Você clica para ver a imagem semi-estática de um apresentador lendo notícias em RealVídeo? Até agora as mídias conviviam em paz, cada qual com seu papel. Os jornais com reportagens e notícias analíticas e informativas, as revistas com mais espaço para análises e tendências, o rádio para os flashes em tempo real e debates mais humanizados e a TV, para o aspecto "show" da notícia e transmissões ao vivo. Que posicionamento deve ter a Internet se, tecnologicamente, ela se presta a todos estes papéis? Como utilizar bem este potencial, de forma que ele não seja nem sub nem superaproveitado?
Algo que é feito por 95% dos sites da Internet hoje em dia é o contínuo carregamento de elementos desnecessários para o usuário. Se ele está na página principal de um portal e clicou em determinada notícia, para que carregar novamente a logomarca, a barra de navegação, o formulário de busca, os banners, os links especiais e uma série de elementos? Há algum tempo popularizou-se o uso de frames (molduras) para resolver este problema, mas os frames acabam criando vários outros incômodos, como a dificuldade na hora de se imprimir, arquivar ou guardar uma página para visitas futuras. Isso pode ser resolvido com o uso de layers (camadas), recurso incorporado recentemente ao padrão HTML, onde são construídas as páginas Web.
Quando montamos o primeiro fluxograma da estrutura de um site, é comum criamos pequenas "ilhas" separadas por assuntos e, em um segundo passo, criamos uma estrutura hierárquica, dizendo quem é a página principal do site que, por sua vez, aponta para diversas páginas principais de canais/seções/departamentos, que garantem o acesso aos itens internos que lhes correspondem. Também indicamos que elementos serão referenciados por todos os outros (como Ajuda, Fale conosco etc). Isto nos leva a uma estrutura que, no mundo real, corresponderia a shopping centers onde a entrada fosse no primeiro andar, e lá só existisse um grande mapa e várias escadas rolantes. Cada escada rolante leva para um departamento, e cada tipo de produto deste departamento fica em andares separados. Para ir de um departamento a outro é preciso descer alguns lances de escada, se não todos de volta até a portaria. O resultado imediato desta estrutura por níveis é uma navegação menos intuitiva, recarregamentos desnecessários de elementos (ferindo o item 4), e uma experiência menos completa do usuário. Uma das crenças que mais atrapalha o desenvolvimento de bons projetos para a Internet, principalmente em sites que obtém receita via publicidade, é a de que uma boa navegação é aquela que gera um monte de page views (impressões de páginas). Ora, se estamos de frente para uma mídia interativa por natureza, o velho truque de colocar prateleiras de produtos caros entre a porta do supermercado e a padaria não funciona. Nem isso nem obrigar o usuário a ver quatro, cinco páginas e seus banners piscantes multicoloridos até chegar à informação que ele deseja. Muito mais resultado dá tornar a experiência do consumidor de informação bem-sucedida. Na navegação por ambientes, a home page ou página principal deixa de ser a porta de entrada para ser o pano de fundo sobre o qual o conteúdo se desenrola, contendo (fixos) todos os elementos que precisam estar disponíveis a todo tempo para o usuário, como logomarca do site, menu de navegação básico, opções de contato e ajuda, recursos para impressão, envio, personalização etc. Cada canal pode ter suas próprias características, mas uma vez definida a estrutura de navegação estes elementos não precisam ser recarregados. Todo conteúdo é acessado e lido dentro da interface (ambiente) do canal, e este sempre sobre o pano de fundo. Com isso ganhamos agilidade, coerência, objetividade e uma estrutura que se encaixa perfeitamente a nossos modelos para a Web e também para o acesso via televisão.
Um recurso que assusta à maioria dos designers de páginas Web é a possibilidade de se transferir ao leitor/usuário a opção de alterar elementos visuais, como a ordem de janelas e seções, o tamanho da fonte, as cores de fundo ou outros aspectos. O desafio é desenvolvermos ambientes que "sobrevivam" esteticamente aos devaneios dos usuários, que permitam facilmente voltar a um estágio inicial, que dispensem esta interferência do usuário e que tenham uma função prática e objetiva nestas modificações. Qualquer recurso supérfluo funciona apenas como uma brincadeira, que pode entreter o usuário por alguns minutos, nada mais. Não pretendo que estes itens, primeiros resultados de uma série de estudos para a preparação de conteúdo para a convergência digital, sejam seguidos como uma tábua dos dez mandamentos. Como disse, ainda não existe um guia, uma estrada que represente a linguagem definitiva para meios eletrônicos e a Internet. O momento ainda é de experimentação. E se navegamos pelas principais páginas da Web, o que menos se vê é inovação, é um olhar sintonizado com a eficiência do mensageiro em transmitir o recado. É a esta reflexão que os seis itens evocam. Como em tudo na vida, só precisamos que cada um faça sua parte. Enquanto a tecnologia avança e o mundo dos negócios aponta caminhos para o dinheiro, cabe a nós que, certo ou errado, criamos a Web que está aí, preparar o caminho até que ela cumpra seu papel: desaparecer do palco principal e passar a fazer parte de todos os espetáculos, nos bastidores, ou também sob a luz dos holofotes. Um verdadeiro camaleão, como todo bom artista.
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