Brogue do Cassano
 

Quebrando o gelo

 

Contribuição da Vale para a Noruega vai dos cuidados com a segurança ao comprometimento social com a população local

Enquanto o quinto avião em que a equipe de atitude viajava desde a partida do Rio de Janeiro se prepara para pousar em um pequeno aeroporto cercado por campos nevados, começam a derreter as dúvidas sobre o cenário que o grupo encontrará ao pôr os pés em Mo i Rana, uma pequena cidade industrial de 25 mil habitantes no Norte da Noruega, na Escandinávia. A temperatura, dois graus negativos, é relativamente amena. Bem mais agradável do que quando Luís Carlos Nepomuceno, diretor de Manganês e Ligas da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), participou do hasteamento, a céu aberto, da bandeira da empresa no parque industrial da cidade, dois anos atrás. “Fazia dez graus negativos, ventava e tinha neve por todo lado”, recorda.

Temperaturas extremamente baixas são comuns para o simpático povo de Mo i Rana. A cidade orgulha-se de ser a porta de entrada para o Círculo Polar Ártico, que fica a apenas 50 quilômetros de distância. Mas o que a Vale faz nesse ambiente tão diferente do Brasil? E como ela pode levar suas ações sociais ao país com maior índice de desenvolvimento humano (IDH) do mundo e PIB per capita de US$ 36 mil?

O primeiro contato da equipe de atitude com o povo local foi no avião, onde se deparou com Torbjorn Aag, secretário de Cultura da cidade. Na verdade, não é tão difícil esbarrar com um norueguês de destaque. Afinal, o país inteiro tem somente 4,5 milhões de habitantes. Para Torbjorn, os rostos brasileiros também se tornam cada vez mais familiares. Ele participou da visita à Mo i Rana da violonista brasileira Renata Kubala, radicada na Noruega. A artista encantou o público no teatro local e também em um espaço cultural dentro das instalações da Rio Doce Manganèse Norway (RDMN), unidade da Vale que, desde 2003, produz ligas para siderurgia, em especial a de silicomanganês.

Um pouquinho de Brasil
O inusitado espaço cultural fica num gigantesco parque industrial, onde 130 empresas – de siderúrgicas a criadouros de salmão – compartilham infra-estrutura e se integram umas às outras na cadeia produtiva. Nosso anfitrião é o brasileiro Alex Monteiro, 31 anos, casado e pai de uma filha de 2 anos vividos entre a aurora boreal do inverno e o sol da meia-noite do verão norueguês. Perfeitamente adaptado ao país em seus dois anos como diretor Administrativo-Financeiro da RDMN, falando norueguês fluentemente e dirigindo com segurança pelas estradas cobertas de gelo, Alex nos leva até o Espaço Rio Doce, localizado dentro da sede da RDMN. Nele, painéis fotográficos, artefatos indígenas e esculturas de animais brasileiros servem de cartão de visita do Brasil e da Vale não só para os 75 empregados da unidade, mas para toda a comunidade local. “Escolas vêm aqui fazer trabalhos sobre o Brasil, e o espaço está aberto a visitação pública”, conta Alex.

Abertura para o público e transparência, aliás, são características da economia norueguesa, a ponto de não haver sigilo fiscal no país. As exigências também são elevadas na proteção ao meio ambiente, com severos limites de emissões de poluentes. “As indústrias investiram muito nos últimos 20 anos para alcançar um elevado padrão ambiental”, explica Trond Saeterstad, diretor geral da RDMN. A empresa instalou-se em 2003 no lugar onde funcionava uma antiga usina, a Elkem Rana, que havia falido. A planta foi convertida para a produção de ligas de manganês, e a maioria dos antigos empregados foi recontratada e capacitada. Também foram investidos cerca de US$ 3 milhões em equipamentos de controle, especialmente filtros de ar.

Segurança, segurança, segurança
O resultado é visível: “Nosso nível de emissões durante os dois últimos anos foi tão bom que a Autoridade de Controle de Poluição da Noruega (SFT) reduziu o limite original e ainda assim temos folga”, orgulha-se Trond.

A RDMN é uma das oito empresas da Noruega a ter a certificação OHSAS 18001, de saúde e segurança ocupacional. “Herdamos uma política da Vale que é segurança, segurança, segurança. Esta é nossa maior prioridade”, afirma Kyrre Johansen, gerente de Qualidade, Saúde, Segurança e Meio Ambiente.

A política de segurança pode ser comprovada em um tour pela planta industrial, guiado pelo simpático Kjell Aslaksen, coordenador de Saúde e Segurança, ex-marinheiro e profundo conhecedor de portos e arredores brasileiros. “Copacabana é uma coisa linda. E minha filha tem uma casa em Natal, no Rio Grande do Norte”, diz. Como o grau de automação é elevado, praticamente não há empregados expostos à poeira e ao calor dos fornos, esteiras e equipamentos. Nas salas de controle onde ficam os operadores, há cortinas nas janelas, TVs, rádios, pão e café quentinho.

E ai da RDMN se a segurança falhar! Pois o bem-humorado Harry Monsen, 45 anos, está sempre atento. Além de ser responsável por denunciar às autoridades qualquer irregularidade no cuidado com os empregados, ele é líder sindical, membro do conselho
da RDMN e, há alguns meses, também cuida da cantina, numa forma de reduzir custos. “Eles sabiam que eu já fui chef, cheguei a cozinhar em navios de cruzeiro pela costa da Noruega. Então me chamaram para a cantina”, conta, meio encabulado. O trabalho no refeitório não é pesado, já que o almoço norueguês consiste em sanduíches de queijo e pastas de legumes, camarão, caviar e afins. Já no conselho de administração, a atividade é constante. Na Noruega, os empregados têm cadeiras garantidas nos conselhos das empresas, e os sindicatos costumam atuar de mãos dadas com os patrões. “Diálogo é a chave. Estou estudando português para conversar com sindicatos no Brasil”, revela.

A preocupação da Vale com segurança estende-se aos fornecedores da empresa, submetidos a fiscalizações periódicas. “A RDMN leva segurança tão a sério que meus 35 empregados estão fazendo cursos sobre o tema após o expediente”, conta Wiggo Dalmo, 33 anos, executivo da Mo Mekaniske Verksted, aberta em 1998. A pedido da RDMN, Wiggo desenvolveu e fornece uma peça metálica usada para revestir os eletrodos dos fornos da usina, conhecida como camisa de eletrodo. Investiu cerca de R$ 1 milhão em um sofisticado robô de solda, capaz de montar as cerca de 500 unidades do equipamento fornecidas anualmente para a RDMN. A produção excedente é vendida para outras empresas. A receita com o novo produto já responde por metade do faturamento anual de R$ 250 milhões. A caminho da fábrica, Wiggo filosofa sobre o impacto da RDMN em sua vida. “O grau de exigência da RDMN é muito alto. Hoje nós fazemos produtos melhores, temos mais segurança. Estou muito feliz que a Vale tenha vindo para cá”, sorri.

Idéia de Thomas Edison
Opinião semelhante tem Bjorn Bjorkmo, 53 anos, diretor do Mo Industrial Park, onde fica a RDMN. “Entre 2001 e 2002, uma crise cambial levou ao fechamento empresas como a antiga Elkem Rana, gerando o fim de 190 empregos. Muitos não acreditavam que ela voltaria a operar. Foi muito bom quando a Vale nos procurou”, lembra, antes de mostrar um documento que revela que a origem do atual parque*, com quase 2 mil empregados, remonta ao empreendedorismo do norte-americano Thomas Edison. O inventor tentou entrar no negócio de mineração nas jazidas de ferro de Mo i Rana, na virada para o século 20. Sua iniciativa fracassou, mas plantou as sementes do futuro industrial da cidade, cercada por montanhas e com portos nos fiordes.

Do porto, o Rana Industriterminal, Einar Andersen vê mais do que ligas de manganês saindo da RDMN. “É interessante como aproveitaram as pessoas da Elkem Rana, pois a cultura é muito diferente. A empresa se preocupa muito com o lado humano das coisas. Isso nos faz pensar se não podemos rever nossas idéias, especialmente em segurança”, aponta. Sua maior expectativa com relação à presença brasileira em Mo i Rana, porém, está longe dos cinco guindastes do porto. “Precisamos ter jogadores brasileiros no time de futebol local!”, clama. Os craques brasileiros ainda não desembarcaram na cidade, mas o calor que o Brasil pode levar ao futebol nórdico dá uma boa pista do que seria, afinal, a grande contribuição da Vale para um país tão rico. Inge Myrvoll, prefeito de Moi Rana, mata a charada, explicando um traço da personalidade norueguesa que o deixa particularmente preocupado. “Passamos o tempo todo isolados em nossos lares na cidade ou nos chalés nas montanhas. Falta contato pessoal”, lamenta. Para o prefeito, a Vale vem desempenhando ali um papel positivamente incomum. “É difícil multinacionais se envolverem com as comunidades locais, e o comprometimento social da RDMN é enorme”, afirma. “É disso que precisamos: unir indústria e sociedade, reforçar as relações humanas. Você fica feliz por uns dias com bens materiais, mas o que importa são os elos entre as pessoas. E a RDMN oferece isso à comunidade: calor humano”, atesta o prefeito.

Procura-se Noel
Um mistério, contudo, permanece em Mo i Rana: Papai Noel é norueguês? Depende. Tradicionalmente não há a figura do “bom velhinho” na Noruega. Quem distribui Presentes na noite de Natal é o julenisse, um dos duendes que povoam o imaginário popular desde o século 19. Mas com a globalização, Papai Noel se instalou no país, e hoje ambas as figuras coexistem na Noruega, que divide com a Finlândia a nacionalidade de Noel. Quem leva a melhor como sua terra natal oficial é a Lapônia, na Finlândia. Enquanto isso, nas decorações e cartões natalinos noruegueses, o velhinho ainda permanece com a maior pinta de duende.

Matéria publicada em dezembro de 2005, na Revista atitude, da Companhia Vale do Rio Doce .

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