Brogue do Cassano
 

César Ades e o sexo animal

Quem olha para o simpático professor de 59 anos, diretor do Instituto de Psicologia da USP, não imagina estar diante de um especialista em... (acreditem!) sexo animal. César Ades divide seu tempo entre o Instituto e pesquisas que comparam a conduta de animais e seres humanos. “Não espero encontrar em aranhas comportamentos típicos de mamíferos. Mas cada espécie tem algo a nos ensinar”. Quer exemplo? O porquinho-da-índia, quem diria, é uma espécie de latin lover do reino animal. Além de assediar constantemente as fêmeas, ainda canta para elas e dança uma espécie de “rumba para roedores”. Ades nasceu no Cairo, Egito, onde morou até os 15 anos. Veio então para o Brasil e concluiu o ensino médio em francês, sua língua natal. Na escola surgiu o interesse por psicologia e biologia. “Optei pela primeira, mas acabei mesmo fazendo as duas”, conta. Ele acredita que nosso comportamento sexual é soma de fatores culturais e biológicos. “Diria que o homem é biologicamente cultural”. É a fatia genética que aproxima nossa paquera dos rituais de acasalamento dos animais. “Da pulga ao ser humano, não muda nada. O objetivo é a reprodução”, resume o Prof. Ades, em entrevista à Revista Oi.

Quem está em posição mais confortável no ritual de acasalamento, macho ou fêmea? Ambos fazem o máximo pela reprodução, mas não estão igualmente disponíveis para se acasalar. Ela investe mais na prole, por uma série de fatores: produz um óvulo por mês, enquanto o homem produz continuamente milhões de espermatozóides, realiza a gestação e cuida dos filhotes. A fêmea se torna menos disponível e mais disputada pelos machos. Por isso, ela pode se dar ao luxo de selecionar o parceiro.

Ambos vêem o sexo da mesma forma? Em geral, macho e fêmea seguem estratégias e objetivos diferentes. Como ela investe mais na prole, pode querer que o pai ajude na criação dos filhotes. Para o macho é mais interessante partir, conhecer outras fêmeas e propagar sua descendência. Mas em algum momento eles têm que cooperar. Nem que seja só na hora da cópula (risos).

Como os machos comunicam que são o parceiro ideal? Os machos são mais vistosos, exibidos e cortejadores do que as fêmeas. Na época reprodutiva, os pássaros-fragata machos ficam perto uns dos outros, incham o papo vermelho como uma bexiga, abrem e agitam as asas e gritam muito: as fêmeas voam sobre essa multidão de machos e escolhem um para acasalar. O pavão é um caso clássico: suas penas coloridas atrapalham o andar, mas servem para chamar a atenção. Em muitos casos, o macho é “ardente” e a fêmea “cautelosa”, uma vez que cabe a ela escolher.

E que outras estripulias eles fazem para conquistar as fêmeas? O pássaro macho da espécie Ptilonorhyncus violaceus (comum na Oceania) constrói uma cabana decorada com plumas coloridas e flores. Para ser mais eficaz na conquista, imita os cantos de várias aves, produzindo um pout-pourri vocal irresistível. E ainda destrói as cabanas de outros machos para eliminar a concorrência!

Então por que, entre humanos, é a mulher que se enfeita? Os homens privilegiam mulheres mais jovens, bonitas e saudáveis, porque essas características estão associadas à fertilidade e aptidão para criar filhos. Como em outras espécies, as mulheres dão valor ao parceiro que lhes proporciona segurança (recursos financeiros, status, inteligência). Cada sexo usa sinais que o favoreçam junto ao outro: as mulheres se enfeitam, querem parecer mais novas. Os homens querem transmitir segurança e poder. E essas tendências também sofrem influências culturais.

E por que o homem está descobrindo, agora, sua vaidade? Sempre houve vaidade masculina, mas sem dúvida aumentou. A razão deve estar na mudança nos papéis sociais da mulher, que ficou mais independente e mais presente no mercado de trabalho.

E a questão de as fêmeas preferirem os machos que tenham mais parceiras. Como isso acontece? Estar com um parceiro atraente aumenta a atração própria, disso qualquer adolescente sabe. O “ibope” é importante para os homens e também para alguns animais, como o tetraz, pássaro parente do peru e da codorna.

Por quê? Porque se um macho é visto com uma fêmea, isso garante às outras que ele tem competência e recursos para ser um reprodutor adequado. É uma “prova dos nove”.

Há espécies monogâmicas? Sim. É freqüente entre aves: gansos costumam formar pares reprodutivos permanentes, o que não exclui eventuais “infidelidades”. No caso da rola brasileira fogo-apagou, um macho e uma fêmea se procuram fielmente a cada estação reprodutiva. Em outras espécies, a promiscuidade impera: entre os golfinhos rotadores de Fernando de Noronha, por exemplo, as fêmeas copulam com muitos machos... É impossível saber quem é o pai. Mas há monogamia entre eles e, em matéria de fidelidade, o ser humano não é absolutamente o modelo perfeito.

O senhor é um estudioso de aracnídeos. Como é o sexo das aranhas? As aranhas têm um comportamento sexual fantasticamente variado. Todas as posições são possíveis. Em algumas espécies, o macho fica por cima, em outras o pequenino macho anda pelo corpo da fêmea... um verdadeiro Kama Sutra animal! Às vezes as fêmeas comem (literalmente) o macho. Isso é muito bom, é um alimento a mais! A reprodução exige que a fêmea esteja bem-alimentada. Isso me lembra Roberto Carlos: “Amanhã de manhã, você será um café para nós dois...” (risos).

Matéria publicada em janeiro de 2003, na Revista Oi.

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