Brogue do Cassano
 

Marcos Pontes:
Com a cabeça nas estrelas e os pés no chão

Ele não é nenhum galã, não freqüenta lugares da moda, nem circula entre celebridades. Mas jamais um brasileiro esteve tão perto das estrelas quanto Marcos Pontes, paulista de Bauru, 40 anos. Sua profissão: astronauta. Até chegar ao mítico centro de treinamento da Nasa, em Houston, no Texas (EUA), Marcos trilhou um caminho que começou, aos 14 anos, como aprendiz de eletricista na Rede Ferroviária Federal. De lá, passou para a Academia da Força Aérea e, após mais de 1,7 mil horas de vôo, chegou à Agência Espacial Brasileira (AEB). Em 1998, num convênio da AEB com a Nasa, Marcos transferiu-se para Houston, onde adquire conhecimentos para, em 2006, decolar rumo à Estação Espacial Internacional, que, desde o ano 2000, gravita na órbita da Terra. No entanto, indefinições governamentais e cortes de orçamento ameaçam a presença do país na Estação e, por tabela, o vôo do astronauta verde-e-amarelo. Marcos reconhece os riscos e luta à sua maneira, professando os benefícios da pesquisa espacial em eventos, escolas e no site www.marcospontes.net. A seguir, a entrevista do astronauta que sonha alto, mas com os pés no chão.

Como é o dia-a-dia de um astronauta? Os simuladores funcionam 24 horas por dia, mas as tripulações já escaladas para vôos têm prioridade. Assim, quando eles estão em uso, ficamos mais dedicados ao trabalho técnico. No meu caso, a gerência do programa no Brasil e testes de integração de módulos. Quando usamos os simuladores, recuperamos o tempo. E isso pode ser em qualquer horário, até mesmo de madrugada.

O treinamento inclui o quê? Ele começa com aulas sobre os sistemas, suas modificações, limitações e operações em condições normais e de emergência. Depois, temos simulações e treinamentos práticos, que incluem vôos em aeronaves supersônicas, sobrevivência, trabalhos de campo, atividade extraveicular e robótica. Também aprendemos a preparar comida e a usar os sanitários.

A comida dos astronautas é boa? É adequada (risos)

Como vocês simulam a falta de gravidade? Simula-se a microgravidade em um avião que parece um Boeing 707 e que voa em trajetória parabólica. No topo de cada parábola, e são cerca de 40 delas por vôo, temos de 20 a 30 segundos de falta de gravidade.

O traje de astronauta chega a custar milhões de dólares. O que o faz tão caro? Como o traje é nossa espaçonave fora da espaçonave, todos os sistemas são duplicados e testados ao extremo. Além disso, é uma roupa exclusiva e altamente tecnológica.

Ele possui bugigangas high-tech? Muitas! Os sistemas vão desde jatos de nitrogênio para serem usados se o astronauta ficar solto no espaço, até ferramentas rudimentares, como um martelo. Todas os objetos ficam presos em uma estrutura metálica na frente do traje, que nem o cinto de utilidades do Batman!

Quanto pesa? Existem dois tipos de traje. O de lançamento e reentrada, de cor laranja, tem 34 quilos de massa (ou peso, em situações onde há gravidade). Para atividades fora do veículo, o traje é outro, aquele branco, a tradicional figura do astronauta. Esse custa em torno de 20 milhões de dólares e tem massa de 130 quilos.

Vamos voltar à Terra. O Programa Espacial Brasileiro se recuperará depois do acidente na Base de Alcântara? No que depender de mim, não só vai se recuperar, como será cada vez melhor. Acho que todos os brasileiros deveriam pensar dessa forma e incentivar o programa. É difícil, é caro, cobra sacrifícios, mas é o único caminho para a independência real do país no futuro.

Como isso tudo afeta sua missão? Tecnicamente, surgem atrasos. Meu trabalho aumenta, contudo, para conscientizar autoridades e pessoas retrógradas sobre os enormes benefícios da área espacial para todos nós.

Você tem medo de, depois de tanta expectativa, nunca ir ao espaço? Sim. Não por mim, pois estou fazendo de tudo para levar à frente esse projeto. O medo de uma desistência do Brasil é pelas conseqüências terríveis que uma decisão ilógica como essa teria na imagem de competência e seriedade da administração brasileira.

Se você for ao espaço, que verbete imagina nas futuras enciclopédias? “Marcos Pontes, filho de Vergílio de Pontes, servente do Instituto Brasileiro do Café, e de Zuleika Navarro Pontes, escriturária da Rede Ferroviária Federal. Um eletricista que acreditou num sonho e levou o Brasil ao espaço pela primeira vez, abrindo caminho para jovens terem a coragem de sonhar e a persistência para conquistar seus ideais”.

Matéria publicada em dezembro de 2003, na Revista Oi.

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