Em um dos episódios da série de animação Futurama,
dos mesmos criadores de Os Simpsons, um personagem que viaja
no tempo para o futuro se depara com um sonho bem estranho,
em que ele aparece com uma cueca pós-moderna.
Vários “figurantes” de seu sonho atestam a
qualidade da roupa íntima. Ou seja, um pesadelo. Já desperto,
no café da manhã ao lado de robôs, alienígenas e outras criaturas
esquisitas, ele descobre que a publicidade em sonhos é trivial
no futuro, que “todo mundo sonha com marcas”, empurradas cérebro
adentro por ondas de rádio. Por fim, ele mesmo acaba querendo
comprar a tal cueca.
Há alguns milhares de anos, alguém inventou
a escrita. Pouco depois, Moisés veio com os 10 Mandamentos,
que não deixam de ser uma ação de comunicação de massa. Não
há humano ocidental quem nunca tenha ouvido falar deles. Com
Gutemberg, os Mandamentos viraram bíblias impressas e a propaganda
ganhou tipologia. Tem sido assim com toda e qualquer tecnologia
que se preste à comunicação: mais cedo ou mais tarde, ela
atende a necessidades de marketing.
O assunto passa a exigir atenção redobrada
hoje, quando vivemos em um cenário de inovações tecnológicas
se multiplicando como gremlins incontroláveis, quase todas
envolvendo ou afetando a mídia e a comunicação e todas num
contexto onde simplesmente a publicidade já não resolve todos
os problemas. Nem em sonhos.
Não invada o consumidor
Desenha-se
aí um dilema frankeinsteiniano. Tão importante como utilizar
novas tecnologias para o marketing é saber como fazer isso
sem violentar o consumidor. Hoje podemos, tecnicamente falando,
invadir nosso público-alvo com a precisão de um míssil guiado
por GPS. Mas mesmo os bombardeios cirúrgicos dos norte-americanos
deixam seus estragos colaterais.
Nosso “poder” é cada vez maior. Em 31 de março,
o eMarketer.com publicou um artigo sobre uma bizarra
solução envolvendo nanorrobôs implantados no cérebro que recebem
anúncios por radiofreqüência e os embutem em nossos sonhos.
O delirante artigo, com cara de primeiro de abril, chegava
a citar marcas como Coca-Cola e Speedo, e previa um mercado
global de US$ 3 bilhões para publicidade em sonhos em 2020.
Ou seja, se não bastasse sermos interrompidos e impactados
por propagandas durante o dia, elas ainda invadiriam nossas
freudianas fantasias eróticas com a professora do ginásio.
Pessoal é intransferível
O exemplo é extremo, mas quando a tecnologia
se torna cada vez mais pessoal e intransferível, é impossível
pensar em comunicações de marca que não sejam úteis, relevantes,
divertidas e desejadas pelo público. Minha tese: para chegar
a níveis tão avançados de intimidade tecnológica com o público,
toda comunicação precisa ser por conteúdo.
Pois vejamos: o celular é alardeado aos quatro
ventos como a mídia do futuro. Afinal, é um dispositivo multimídia
que você carrega para cima e para baixo, capaz de receber
conteúdos nos mais diversos formatos. Mas exatamente por ser
quase que um apêndice de nossos corpos, ele faz parte da esfera
privada de nossas vidas. Ninguém gostaria de ver uma oferta
de sanduíche aparecer tatuada no braço esquerdo. O mesmo se
fala para a propaganda invasiva e interruptiva que chega por
SMS, ligação, fotomensagem ou por bluetooth.
Em meio a calorosos debates contra a poluição
visual causada pelos painéis de publicidade, a Central de
Outdoor está testando em São Paulo um conceito já utilizado
especialmente na Europa, o da integração da mídia urbana (outdoors,
vitrines e pontos de ônibus, por exemplo) com os celulares
por meio de conexões sem fio bluetooth. Lá fora, há o caso
da banda Coldplay, cujos cartazes do novo álbum convidavam
os pedestres a baixarem o single da banda para seus celulares.
Tudo muito legal, mas é como alguém descer de pára-quedas
na sua casa oferecendo uma fatia de bolo. A torta pode ser
deliciosa, mas a forma como ela chegou a você é invasiva.
É importante que o púbico queira receber
Isso acontece porque, na verdade, conteúdo é
tudo. Uma comunicação de conteúdo inclui a mensagem e a forma
como ela chega. Portanto, é preciso ter em mente o bom e velho
opt-in quando criamos qualquer comunicação digital, tecnológica,
cibernética, biônica, o que for.
Mas isso não basta. Mais que um “aceito receber”,
é importante que o público “queira” receber. Quando pudermos
colocar marcas em sonhos, tem que ser mais como as pílulas
azuis e vermelhas de Matrix do que como a cueca de
Futurama. A pessoa, cujo aparelho de ar-condicionado
pifou, tem que querer sonhar com uma refrescante Halls, ou
sonhar com uma Brahma gelada e uma loura de biquini. E quando
ela quiser sonhar, é preciso estarmos prontos para entregar
um sonho de qualidade. Esse é outro elemento fundamental quando
pensamos em comunicação por conteúdo tecnológica: a entrega.
Acabou a era do publicitário que cria o outdoor
e vai para casa esperar o prêmio em Cannes. O universo dos
bits e bytes é regido por uma lei invisível mas inescapável:
a Lei de Murphy. Tudo pode sempre dar errado, e geralmente
dá. É preciso garantir a entrega da experiência de forma ainda
mais cuidadosa do que nas outras mídias. Um cuidado constante
e uma preocupação extra com a infra-estrutura tecnológica.
Um belo conteúdo em banda larga que é pesado demais para o
consumidor baixar pode não surtir efeito algum. Experimente
assistir Guerra nas Estrelas com o vídeo engasgando.
Uma entrega num formato inapropriado pode arruinar a criação.
Copie este vídeo
O inverso também é válido. O Pearl Jam, banda
de Seattle, resolveu deixar para os fãs a tarefa de promover
o videoclipe de Life Wasted, de seu mais recente álbum. Como
eles fizeram isso? Licenciaram o vídeo sob a égide do Creative
Commons, permitindo a livre cópia e distribuição do clipe.
Ele logo foi parar no Bit Torrent, plataforma de troca de
arquivos que é o pesadelo da indústria cinematográfica, por
ter se tornado o playground da turma antenada que intercambiava
MP3s no Napster e agora troca álbuns inteiros e filmes pelo
Torrent.
Mais do que o conteúdo, a forma como a música
foi distribuída disse muito sobre a banda, e certamente a
fez subir no conceito de uma considerável legião de pessoas
que acreditam em software livre, Creative Commons e tudo o
que há de mais moderno em termos de direitos autorais, criações
coletivas e colaborativas etc. Nesse caso, a forma da distribuição
é a mensagem. E isso faz com que as pessoas busquem a comunicação,
que ela seja desejada. No dia-a-dia, parte de nosso trabalho
é difundir a visão de Comunicação por Conteúdo, que não vem
reinventar a roda, mas, em resumo, transformar a comunicação
de marca: precisamos colocar o público no controle da comunicação,
e não o gerente de mídia. Quando o meio para levar a marca
ao consumidor é tecnológico, a preocupação com esses valores
é redobrada, porque temos, como nunca, o poder de sermos interruptivos,
invasivos, de empurrar a mensagem de marca internet/celular/cérebro
adentro. Mas não queremos isso.
Queremos ver a tecnologia, seja ela qual for,
como uma facilitadora para que o público busque e encontre
a mensagem de marca a qualquer hora e qualquer lugar, porque
ela é útil, relevante e divertida para ele. Por que ele deseja
se envolver com a comunicação. Como dizia Ben, tio de Peter
Parker em Homem Aranha, “com grande poder vem grande responsabilidade”.
Use a tecnologia com consciência. E conteúdo.
Artigo publicado em agosto de 2006 no blog
da Selulloid
AG, no
Web Insider e na revista Target.